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24 de maio de 2012 • 10h33 • atualizado às 14h02

Análise: BlackBerry se arrisca ao repetir estratégia da Nokia

Lançamento do Curve 9220 e 9320 para a América Latina faz parte do reposicionamento da empresa
Foto: Divulgação
 
Rafael Maia
Direto de Cartagena das Índias (Colômbia)

A canadense Research in Motion (RIM), fabricante do smartphone BlackBerry, anunciou na quarta-feira, em Cartagena das Índias, na Colômbia, dois novos dispositivos móveis para a América Latina: o Curve 9320 e o 9220. O momento é crucial para a companhia, que precisa se reposicionar dentro de um cenário em que o iOS da Apple e o Android do Google tomam grande parte do mercado móvel. Para isso, a divisão BlackBerry repete uma estratégia realizada pela Nokia. No entanto, por atirar para todos os lados, o resultado pode não ser bem-sucedido.

Os dois smartphones da linha Curve, para a região latino-americana são aparelhos que iniciam uma restruturação na fabricante do BlackBerry. Eles são pensados para o mercado "low-end", com baixo poder aquisitivo, e vêm em pelo menos quatro cores: preto, rosa, azul e branco. Além disso, pela primeira vez, a RIM assume um foco em crianças e jovens - um alvo que, há que se concordar, passa muito longe da marca "BlackBerry" e da ideia de smartphone corporativo e com foco em negócios e, obviamente, voltado ao público adulto.

O fato é que a estratégia de fugir do nicho e expandir os negócios - em uma clara tentativa de atacar em várias frentes - é uma jogada de guerrilha que evidencia a necessidade de se fazer existir em um contexto em que se pode estar sendo esquecido. A estratégia da RIM de expandir a linha BlackBerry não é nada além do que a Nokia já fez, apesar de o vice-presidente de produto da divisão de smartphones da companhia ter afirmado que "a RIM não cria a demanda, ela escuta a demanda e fornece o que lhe é pedido".

Aparelhos coloridos, controle para pais, integração com a loja de aplicativos, botões exclusivos: a Nokia já testou tudo isso e provou que, no mercado da tecnologia, é preciso de algo a mais do que somente escutar a demanda. É necessário, como a Apple fez tão bem ao longo de sua história, criar a demanda, moldar a tecnologia e "empurrá-la" ao usuário. Esta é a história de vida do iPod, do iPhone e, mais recentemente, do iPad.

A Nokia, ao querer atirar para todos os lados, criou um monstro difícil de controlar - e que reflete na imagem da empresa, no valor de mercado e nos anúncios de receitas trimestrais. A diferença é que, no meio desse jogo de tentativas e erros, a Nokia apresentou o bem cotado e elogiado Lumia 900, enquanto a RIM, em um mundo dominado pelo Facebook e pelo Twitter, parece apostar as fichas no BlackBerry Messenger (BBM), presente nos dois aparelhos "low-end" da linha Curve.

As mudanças promovidas pela RIM para a linha BlackBerry mostram, ao menos, que a companhia está disposta a lutar e gritar "eu ainda existo", como a Nokia fez ao lançar uma larga gama de aparelhos com alguns sistemas operacionais convivendo nada harmoniosamente entre si. A RIM segue a cartilha da Nokia, mas se esquece de uma questão central para o sucesso no mercado: criar um aparelho que, sim, escute o mercado, mas que diga a ele o que ele vai querer em um futuro próximo. O esperado BlackBerry 10, previsto para lançamento dentro de um ano, talvez possa exercer este papel. Por enquanto, porém, ele está vazio.

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