Atualizada às 12h09 Steve Jobs está deixando a Apple. Não amanhã, mas provavelmente em breve. É por isso que ele começou a se despedir na última terça, fazendo algo mais importante do que apenas apresentar novos MacBooks, MacBooks Pro e uma atualização do MacBook Air.
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O evento foi uma peça na qual ele claramente contou a todos que a empresa é mais do que ele próprio. Desde o primeiro minuto, quando imediatamente se sentou para deixar Tim Cook falar, ele dizia: "Ei, vejam, a Apple é mais do que o Steve. Esses são os caras, os bons companheiros. Eles compartilham da mesma visão que a minha. E eles levarão a empresa adiante quando eu trocar minha cadeira no escritório por uma rede e caipirinhas em minha praia particular no Havaí".
No passado, Steve Jobs era sempre a estrela do show. Como seu querido Johnny Cash, esse homem de preto entrava no palco com uma orquestra atrás dele, entusiasmando sua audiência com sua voz e suas inflexões, fazia seus movimentos mágicos e deixava todos hipnotizados até ele deixar o prédio. Não era o melhor cantor ou o melhor guitarrista, mas ele tinha algo. Como Johnny, ele também compartilhava a notoriedade com outros de tempos e tempos, mas somente por uma ou duas canções. Os shows eram sempre "olá, eu sou Johnny Cash". As palestras eram sempre "olá, eu sou Steve Jobs".
Era o Show do Steve, do começo até o "one more thing" ("mais uma coisa"), e não havia dúvida sobre isso.
O evento foi a confirmação de que esses dias podem ter acabado. Parece que Steve decidiu que é hora de não aparecer mais como Johnny Cash, mas de se tornar Mick Jagger. E, com ele, trouxe Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood. Na terça a banda de Steve tocou todas as melodias com harmonia, mostrando ao mundo que há mais na Apple do que apenas o frontman, ainda que seu DNA esteja nas profundas entranhas de cada um dos aspectos da cultura da empresa.
Em vez de começar com uma análise de mercado para preparar o terreno, dessa vez foi Tim Cook que assumiu o palco com as cores de Steve: jeans azul e camisa preta. Psicologicamente, isso os coloca no mesmo nível, atenuando a possível futura grande transição. Parece estúpido, mas pode apostar que não foi coincidência, ainda que Cook tenha apelo zero quando comparado com o CEO rockstar.
Então vem "Jony" Ive para falar sobre o design e a fabricação com alumínio a laser, e foi só no minuto 18 que Steve assumiu para apresentar os brinquedos de fato. E 27 minutos depois - pouco tempo para um homem que já encarou apresentações de duas horas sem piscar -, o vídeo do MacBook 2008 terminou e foi seguido apenas por uma rápida sessão de perguntas e respostas - com Cook e Phil Schiller como wingmen -, depois da qual ele ainda teve tempo para fazer uma piada sobre a própria saúde.
Obviamente, é isso que está no coração dessa transição. Ele fez uma brincadeira sobre sua pressão sangüínea, uma cutucada nessa obsessão de assistir ao seu declínio, que tem a Imprensa Mundial procurando pela Maior Notícia de Todos os Tempos da História da Tecnologia com exceção de Steve Ballmer anunciando sua mudança de sexo e um novo nome (provavelmente Dorita Estevez).
Mas apesar de, como eu já disse antes, não ser da sua conta ou da minha entrar na vida particular dele, o homem claramente entende que seu bebê, a empresa que ele criou do zero com Woz, merece um plano e um futuro brilhante.
É parte dele. Ele a criou, foi colocado para fora dela, resgatou-a do abismo do inferno e levou-a ao topo do mundo. No meio do caminho cometeu muitos erros, mas juntar a equipe que tem dirigido a empresa com ele durante os últimos anos não é um desses erros. Isso pode vir a ser sua mais duradoura realização.
Tenho certeza de que ainda teremos vários shows como esse, e que Steve Jobs sempre estará na Apple como Bill Gates sempre estará na Microsoft, mesmo após sua saída. Mas a peça que vimos na terça foi o prólogo da nova Era da Apple sem Steve, mas com Steve. Jobs dá sinais de que ele não está sozinho no comando, e que, se ele sair, ninguém deve entrar em pânico. Não explicitamente, mas a mensagem estava lá em grandes letras de neon para todos verem.
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Tim Cook (esq.), Steve Jobs (centro) e Phil Schiller (dir.) dividiram o palco na terça
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