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Lixo eletrônico toma lugar do arroz em aldeia chinesa

19 de janeiro de 2007 10h03 atualizado em 31 de maio de 2007 às 15h28

Os habitantes de Guiyu, como este menino, estão expostos à contaminação pelo lixo eletrônico. Foto: EFE

Os habitantes de Guiyu, como este menino, estão expostos à contaminação pelo lixo eletrônico
Foto: EFE

Os moradores de Guiyu, no desenvolvido litoral chinês, abandonaram o cultivo de arroz, que era o meio de subsistência, em prol de um negócio muito mais lucrativo, mas que prejudica sua saúde e o meio ambiente: a reciclagem do lixo eletrônico do resto do mundo. Cerca de 70% dos resíduos eletrônicos do planeta vão para a China. Violando a Convenção de Basiléia, boa parte desses dejetos vem de países desenvolvidos, e tem como destino o porto de Nanhai, na província de Cantão, sudeste do país.

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Deste local, uma rede ilegal de importadores transporta os vestígios para a pequena cidade de Guiyu. Entre pilhas de teclados, cabos e placas, homens, mulheres e crianças fundem e destroçam restos de artigos eletrônicos, principalmente computadores, sem qualquer proteção. Com isso, essas pessoas se transformam em presa fácil para as 700 substâncias tóxicas que estão contidas nesses aparelhos.

Com as mãos descobertas, 80% dos 150 mil moradores de Guiyu buscam materiais como cobre, plástico ou aço, que depois serão vendidos aos negociantes de segunda mão. "Muitos emigrantes rurais foram a Guiyu atraídos por salários de US$ 2 ou US$ 3 a hora, muito maiores do que os que ganham no campo. Eles têm que escolher entre ter dinheiro suficiente para viver ou ter saúde", afirmou Jamie Choi, responsável do Greenpeace para a área.

Neste grande despejo da sociedade da informação, mal são utilizadas máscaras, e a ferramenta mais avançada tem forma de broca, acrescentou Choi. Os males para a saúde têm um expoente devastador: 80% das crianças de Guiyu apresentam altos níveis de chumbo no sangue, o que causa danos nos sistemas nervoso e reprodutor, segundo constatou um estudo da Universidade de Shantou.

"As crianças, e em especial os filhos dos emigrantes, fazem os trabalhos mais simples. Ficam 24 horas trabalhando, respirando, em contato com materiais perigosos", afirma Choi. Wu Yuping, da Administração Estadual do Meio Ambiente (Saiba), ressalta que "não é possível encontrar água potável em 50 quilômetros ao redor do local", pois as substâncias tóxicas se acumulam nas beiras do rio e se infiltram no solo.

Em 1994, a Convenção de Basiléia, assinada por quase todos os países desenvolvidos, com exceção dos Estados Unidos, proibiu a exportação de resíduos perigosos dos países ricos aos pobres, incluídos os destinados à reciclagem. Apesar disso, a aplicação das regras da Convenção mostrou muitas falhas. "O Greenpeace viu navios que partem da Holanda rumo à China, carregados de resíduos eletrônicos", afirmou Choi.

Entre os trabalhos rotineiros está o de desmontar placas-mãe em um fogareiro caseiro de carvão, em busca dos cobiçados chips, que contêm ouro. Ou também fundir as carcaças dos computadores para transformar o PVC tóxico em peças que se destinam a objetos que, curiosamente, voltam ao mundo ocidental: as flores de plástico.

Todos os anos, o planeta produz entre 20 e 50 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Segundo a organização, 80% deste lixo tem como destino a Ásia e, desse percentual, 90% chega à China. Embora Guiyu seja o mais conhecido, há outros lixões deste tipo em Longtan, Tali, Cantão e Taizhou (província de Zhejiang).

Apesar de a maioria dos resíduos terem como origem os países ricos, a China produz a cada ano 1,1 milhão de toneladas, número que aumenta junto com o nível de vida da população. "Nos subúrbios de cidades como Pequim ou Tianjin, há pequenas favelas dedicadas ao desmanche de objetos eletrônicos, e cujo destino final é Guiyu", afirma Choi.

O Governo estuda um projeto de lei para fazer com que os fabricantes de computadores, televisores, refrigeradores, lavadoras e ar condicionados chineses sejam responsáveis pela reciclagem de seus produtos. Essa medida é uma resposta aos pedidos dos ambientalistas, que acreditam que os fabricantes devem assumir a responsabilidade por seus produtos.

No entanto, os ambientalistas afirmam que não haverá solução definitiva sem passos como o dado pela União Européia. O bloco proibiu no ano passado o uso de chumbo, mercúrio, cádmio, cromo hexavalente, bifenóis policromados e éter de bifenol policromado nos aparelhos eletrônicos.

EFE
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