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Japoneses sem-teto trocam as ruas por cibercafés

07 de maio de 2007 12h26 atualizado às 16h31

Viver em um cibercafe sai mais barato que um hotel . Foto: Reuters

Viver em um cibercafe sai mais barato que um hotel
Foto: Reuters

Takeshi Yamashita não parece um morador de rua. Dos jeans cuidadosamente puídos à camiseta de listras azul marinho, casual mas elegante, ele parece o típico morador de Tóquio, consciente da moda e de sua aparência. Mas Yamashita, 26, está dormindo há um mês na poltrona reclinável de um cibercafé, desde que perdeu seu emprego fixo e seu apartamento.

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O cibercafé sai mais barato que um hotel, oferece acesso à Internet e um acervo de centenas de mangás, e dispõe até de um microondas e um chuveiro no qual ele pode tomar banho, de manhã, antes de começar mais um dia de trabalho temporário, em funções que variam de faxineiro a auxiliar de escritório.

Yamashita dá de ombros e sorri, quando perguntado por quanto tempo pretende continuar vivendo dessa maneira. "Espero que a situação no Japão melhore. A nova geração japonesa não tem dinheiro e muitos dos jovens não têm motivação. Não tenho dinheiro, mas tenho um sonho", disse, sentado em um cubículo equipado com um computador e no qual se via uma pilha de revistas em quadrinhos.

E qual é o seu sonho? "Não sei. Talvez algum emprego comum de escritório", respondeu ele. Yamashita é um dos muitos "freeters" japoneses - uma palavra formada pelos vocábulos "free" e "Arbeiter", ou trabalhador, em alemão.

Surgidos como resultado da crise econômica que varreu o Japão e sua filosofia de emprego vitalício, nos anos de 1990, os freeters flutuam entre trabalhos temporários.

Com salários de cerca de mil ienes (US$ 8) por hora, eles muitas vezes encontram dificuldades para pagar aluguel em Tóquio, uma das cidades mais caras do mundo, onde um modesto apartamento de 30 metros quadrados em bairro central pode facilmente custar 150 mil ienes (US$ 1,250) por mês.

Agora a economia do país está se recuperando, mas muitos dos freeters não conseguem aproveitar a alta, depois de anos como trabalhadores sem capacitação específica. A maioria das empresas em expansão prefere recrutar formandos nas universidades, ou transferir os empregos básicos a países de baixos salários, como a China.

Cibercasa
Masami Takahashi, proprietário de um cibercafé no bairro de Ueno, está acompanhando de perto as mudanças sociais no Japão. Há fregueses para quem o seu estabelecimento serve como residência. Ao preço de entre 1,4 mil e 2,4 mil ienes (US$ 12 a US$ 20) por noite, com refrigerantes gratuitos, TV, quadrinhos e acesso à Internet, a diária de um cibercafé é muito menor do que até mesmo a dos famosos "hotéis cápsula" japoneses, nos quais os hóspedes dormem em casulos plásticos.

"Isso mostra como o sistema social está mudando. É um pouco triste para nós japoneses", disse Takahashi. Ele acrescentou que já chegou a emprestar dinheiro por sentir pena de alguns de seus clientes. Nas noites de sexta-feira, em Shibuya, uma das principais zonas de entretenimento de Tóquio, os cibercafés ficam lotados.

Às três horas da madrugada, pode-se ouvir o ronco sonoro de trabalhadores vestidos em ternos, os sapatos colocados cuidadosamente fora de cada cubículo individual, que é equipado com uma cadeira reclinável ou sofá, além de um computador e local para pendurar roupas.

Também é possível ver moças com roupas da moda, usando sandálias de salto alto e saias curtas, que perderam o último trem para ir para casa à noite. Não existem dados oficiais sobre os desabrigados que recorrem aos cibercafés como refúgio. O Ministério de Bem-Estar do Japão planeja realizar um amplo levantamento sobre o fenômeno, segundo informações publicadas pela imprensa.

Evidências recolhidas junto a esses estabelecimentos indicam que muitos dos usuários são freeters com idades entre 25 e 30 anos que usam os cibercafés como abrigo por alguns meses antes de conseguirem uma solução de moradia mais permanente.

Os mais velhos, mais pobres e com menores chances de conseguir mudar suas condições de vida, e algumas vezes muito envergonhados de recorrer a parentes, se encontram no fundo do poço do universo dos cibercafés.

Eles se amontoam em subúrbios de classe baixa de Tóquio como Kamata, alugando cubículos pouco ventilados, com atmosfera esfumaçada e com cadeiras reclináveis que custam 100 ienes a hora. "É muito desconfortável. Não dá para dormir realmente", disse um dos clientes de um dos cibercafés de Kamata, pedindo para não ser identificado.

Reuters
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