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Blogs mostram dia-a-dia desconhecido de jovens em Bagdá

21 de maio de 2007 08h58 atualizado às 10h52

Adel é um dos jovens que vivem em Bagdá e participaram do projeto. Foto: BBC Brasil

Adel é um dos jovens que vivem em Bagdá e participaram do projeto
Foto: BBC Brasil

Assistir a vídeos no YouTube que mostram jovens nadando na piscina, indo para a faculdade ou ensaiando com a banda de rock parece uma banalidade nos dia de hoje. Porém, quando a piscina é de uma casa abandonada em Bagdá, quando ir para a faculdade é um desafio diário por causa da violência nas ruas e o ensaio da banda é interrompido pela falta de energia rotineira na capital iraquiana, estes vídeos passam a ter um interesse bem maior e a chamar a atenção de milhares de internautas.

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Isto é um pouco da realidade de três jovens iraquianos relatada em uma série de 45 vídeos que estão sendo exibidos no blog Hometown Baghdad - em parceria com o YouTube - desde o dia 19 de março, quarto aniversário da invasão do Iraque pelos Estados Unidos e seus aliados.

"A nossa intenção é que as pessoas do mundo, principalmente dos Estados Unidos, pensem em nós como pessoas, assim como elas. Nós queremos que elas nos entendam e nos ajudem", explicou à BBC Brasil o estudante de Medicina Ausama, de 20 anos, um dos jovens retratados na série.

"Todos os vídeos fazem parte da nossa vida normal, ou do que costumava ser normal para nós."

Cérebro no chão
A vida considerada "normal" é um choque para o internauta logo no primeiro vídeo, quando Adel, de 23 anos, conta como é a vida de estudante em uma faculdade em Bagdá.

"Há dois anos, a nossa faculdade foi atacada com mísseis e um dos estudantes que estavam no pátio morreu exatamente aqui. O cérebro dele caiu aqui e eles tentaram lavar o chão, mas não saiu tudo e eles construíram isso", diz Adel, apontando para um círculo de cimento coberto com azulejos vermelhos.

"Acho perigoso ir para a faculdade, porque existem grupos que têm professores, médicos e até estudantes como alvo. Um amigo meu perdeu o rim, outro perdeu a perna e este diploma de graduação (aponta para um diploma preso em uma parede) é de um estudante morto."

Adel conclui dizendo: "Bom, esta é a realidade. Bem-vindo a Bagdá".

'Sinfonia de balas'
Em outro episódio, que teve grande repercussão entre os internautas que acompanham a série, Adel, que é músico, fala que pretendia se encontrar com os amigos da faculdade para estudar para as provas do fim do semestre.

"Mas eu não consegui sair de casa. A razão? Ouçam vocês mesmos", e o jovem se cala para o internauta ouvir o que ele classificou de "sinfonia de balas", um som incessante de tiros, bem em frente a sua casa.

No mesmo capítulo, Ausama ouve um tiro e diz: "Acho que este foi um tiro de franco-atirador. Agora já reconhecemos o som das balas, já sabemos dizer quando são tiros de iraquianos ou americanos".

A série foi gravada e dirigida por uma equipe iraquiana, com a produção da organização americana Chat the Planet, e Ausama contou que muitas vezes eles foram "loucos", se arriscando demais durante as filmagens.

O jovem cita um dos capítulos mais recentes, em que ele sai para comprar uma bolsa de viagem no mercado, apesar de ter sido avisado por um amigo que havia um franco-atirador no caminho que estava alvejando pedestres e matou policiais.

"Foi uma loucura fazer aquilo, porque era extremamente perigoso. Eu, inclusive, me recusei a falar inglês, porque naquele momento nós éramos alvos em potencial", disse Ausama.

Abu Ghraib
Em outro episódio, Saif, de 24 anos, e a equipe de filmagem resolvem fazer imagens das tropas americanas de dento de um carro.

Saif, que está dirigindo, se mostra bastante apreensivo quando o câmera, Ahmed, continua filmando quando o carro está a poucos metros de um tanque.

O diálogo entre eles provoca risos:

- Ahmed, tome cuidado. Eles não são burros. Eles vão ver você filmando. Você quer passar a noite na prisão de Abu Ghraib?
- Pelo menos lá tem eletricidade! E sua foto na Internet!
- Onde você conseguiria um bom negócio como este?

Por causa do perigo de chamar muita atenção na rua com uma equipe de filmagem inteira, os três jovens receberam câmeras amadoras para fazer seus próprios vídeos.

A série também aborda outros assuntos que estão no noticiário internacional, como a divisão sectária entre sunitas e xiitas, sobre os quais os jovens mostram opiniões divergentes, dependendo da experiência pessoal de cada um.

Diversão
Estes vídeos, no entanto, têm uma audiência muito mais baixa do que os que trazem fatos diferentes sobre o Iraque, como, por exemplo, o privilégio de poder nadar em uma piscina.

"É um mundo difícil, sabe como é", diz Ausama no início do capítulo, rindo. "Por isso, precisamos pegar uma piscina." Os jovens podem ser vistos nadando e pulando em uma piscina de uma casa abandonada por uma família que saiu do Iraque.

"Nós não podemos usar uma piscina pública, todos nós morreríamos se fôssemos nadar em uma", explica Ausama. As gravações da série Hometown Baghdad foram realizadas entre junho e outubro de 2006 e, segundo Ausama depois deste período a situação em Bagdá piorou muito.

"As chances de um jovem ser bem-sucedido na carreira e na vida em Bagdá hoje são mínimas, porque é impossível sair de casa e ir para o local de trabalho ou fazer uma festa de casamento. As pessoas só continuam fazendo isso porque é a vida delas e elas têm de viver."

Ausama se mudou com a família para o norte do país, na área de etnia predominantemente curda, onde diz se sentir muito mais seguro. Saif deixou o Iraque rumo à Jordânia. O único que continuava em Bagdá há algumas semanas era Adel.

BBC Brasil
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