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Segunda, 21 de maio de 2007, 15h58

Sul-coreanos investigam a Internet para combater suicídio

Choe Sang-hun
Do 'International Herald Tribune', em Seul

De seu modesto escritório, Kim Hee Joo e cinco outros assistentes sociais vasculham a Internet a fim de combater uma tendência perturbadora na Coréia do Sul, a de usar a web para trocar informações sobre suicídio e, em certos casos, firmar pactos suicidas. "Há tantas pessoas nessa situação", disse Kim, secretário geral da Associação Coreana de Prevenção ao Suicídio. A organização privada se dedica a aconselhar pessoas com intenções suicidas, cujo número vem crescendo rapidamente na Coréia do Sul.

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Em 7 de abril os corpos de duas mulheres foram encontrados em um apartamento em um subúrbio na região sul de Seul. Elas selaram uma sala com plástico e depois queimaram carvão em um forno. Morreram devido ao efeito do monóxido de carbono, quando a sala de encheu de fumaça de carvão. As duas haviam se conhecido via Internet.

Em 14 de março, cinco jovens de ambos os sexos que haviam tentado o suicídio em grupo por duas vezes foram a um motel costeiro a fim de discutir os métodos mais efetivos. Mas um dos membros do grupo mudou de idéia e deixou o motel para chamar a polícia, que mais tarde informou que os cinco haviam feito seu pacto suicida também via Internet.

Nos últimos 25 anos, a Coréia do Sul deixou de ter um dos mais baixos índices mundiais de suicídios e agora registra um dos mais elevados.

Ainda que continue abaixo de alguns dos países que faziam parte da União Soviética, a Coréia do Sul tem o maior índice de suicídios entre os 30 países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Em 2005, o país registrou 24,7 suicídios por 100 mil habitantes, de acordo com o serviço nacional de estatísticas sul-coreano.

Em abril, o Japão anunciou medidas para tentar reduzir seu índice de suicídios, que em 2005 atingiu a marca de 24,2 por 100 mil pessoas. Nos Estados Unidos, o índice era de 10,2 por 100 mil pessoas, em 2002.

O aumento no número de suicídios na Coréia do Sul foi especialmente intenso nos últimos anos, quase dobrando, de 6.440 em 2000 a 12.047 em 2005, de acordo com o serviço nacional de estatísticas. Os especialistas atribuem a alta ao estresse causado pela rápida modernização, mas também vêm expressando alarme sobre o papel que a Internet desempenha na tendência. A Coréia do Sul dispõe de um dos mais elevados índices mundiais de conexão em banda larga, e a Internet se tornou um meio letalmente eficiente de unir pessoas que pensam em se suicidar.

"O que me preocupa é a possibilidade de que essa tendência de alta no número de suicídios se mantenha, na Coréia do Sul", disse Kang Hong, professor de Psiquiatria na Universidade Nacional de Seul. Em pouco mais de uma geração, a Coréia do Sul se transformou de uma sociedade agrária em uma economia altamente competitiva e de alta tecnologia, onde a pressão pelo sucesso nos estudos e no trabalho é intensa. Enquanto isso, a base tradicional de apoio, a família, está despencando, com número recorde de divórcios. A garantia de emprego vitalício desapareceu quando da crise financeira asiática dos anos 90.

Em 2005, na primeira demonstração desse tipo no país, centenas de alunos de segundo grau marcharam pelas ruas de Seul gritando "não somos máquinas de estudar!". Eles estavam reunidos para lamentar a morte de 15 estudantes que se haviam suicidado em todo o país, aparentemente vítimas da pressão intensa pelo sucesso.

O governo não mantém registros sobre o número de suicídios inspirados ou auxiliados pela Internet. Mas em uma análise sobre os 191 suicídios grupais reportados pela mídia entre junho de 1998 e maio de 2006, Kim Jung Jim, sociólogo da Universidade Nazarena da Coréia, constatou que cerca de um terço dos casos envolvia pessoas que haviam feito pactos de suicídio pela Internet. No Japão, uma tendência paralela é aparente e, em 2005, 91 pessoas se mataram em 34 pactos de suicídio coordenados via Internet, quase o triplo do total de 2003, de acordo com a polícia.

Desde 2005, os portais de Internet da Coréia do Sul, agindo sob pressão de grupos cívicos, baniram palavras como "suicídio" e "morte" dos nomes dos blogs que hospedam. Se um usuário digita a palavra "suicídio", os serviços de buscas oferecem links para centros de aconselhamento nas primeiras posições de retorno.

"Eu realmente quero me matar", afirmava uma mensagem postada em abril em um fórum sul-coreano do Yahoo, por um adolescente anônimo que se queixava de perseguições na escola e da pressão dos pais por notas melhores. "Só tenho 30 mil won. Alguém podem me vender um remédio que cause a morte? Não quero uma morte dolorosa, como pular de um lugar alto". Não é difícil encontrar esse tipo de mensagem em fóruns de discussão de grandes portais sul-coreanos.

Em março, um homem de 28 anos que publicava um blog sobre suicídio chamado "Viagem ao Paraíso" foi detido depois de vender cianeto a um rapaz de 15 anos que conheceu na Internet. O menino usou o veneno para se matar.

Enquanto isso, o governo vem tomando medidas para reprimir o suicídio. Já que quase 40% dos sul-coreanos que se suicidam o fazem saltando de lugares altos ou bebendo pesticidas, o governo está considerando a hipótese de reduzir o conteúdo tóxico dos pesticidas e está instalando mais barreiras em pontes e edifícios elevados. O metrô de Seul começou a erigir barreiras de vidro nas plataformas depois que 95 pessoas, algumas delas usando sacos plásticos pretos sobre a cabeça, se jogaram nos trilhos, em 2003.

Mas o problema pode aumentar devido ao recente suicídio de três conhecidas artistas, entre os quais Joeng Da Bin, 27, uma atriz que se matou em 10 de fevereiro. Ela postou em seu site, um dia antes de tirar a própria visa, uma mensagem intitulada "O Fim", na qual dizia que "sem motivo, estou louca de raiva. Então, como que em um relâmpago, o Senhor surge diante de mim. Ele me diz que ficarei bem. EU FICAREI BEM".

Herald Tribune

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