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Tecnologia

 
 

Serviço de fotos de rua reforça debate sobre privacidade

02 de junho de 2007 11h51 atualizado às 11h58

Para a norte-americana Mary Kalin-Casey, a questão nunca foi o seu gato, mas a privacidade.. Foto: The New York Times

Para a norte-americana Mary Kalin-Casey, a questão nunca foi o seu gato, mas a privacidade.
Foto: The New York Times

Kalin-Casey, que administra um edifício de apartamentos em Oakland com o marido, John Casey, ficou um pouco assustada ao experimentar um novo recurso, chamado Street View, no serviço de mapas do Google. Ela digitou seu endereço e a tela mostrava uma vista de seu edifício ao nível da rua. Usando o zoom, ela conseguiu ver seu gato, Monty, sentado no beiral da janela da sala de estar, em seu apartamento de segundo piso.

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"A questão que me preocupa, em última análise, é como traçar limites entre tirar fotos públicas e invadir a vida das pessoas", disse Kalin-Casey em entrevista na quinta-feira. "O próximo passo poderia ser mostrar meus livros na estante. Se o governo estivesse fazendo algo assim, as pessoas estariam indignadas". O marido dela acrescentou: "É como bisbilhotar".

Kalin-Casey mencionou suas preocupações quanto ao serviço inicialmente em um e-mail ao blog Boing Boing, na quarta-feira. Desde então, a Web está fervendo quanto às implicações do Street View em termos de privacidade - ainda que nem todas as considerações possam ser levadas a sério. Diversos sites vêm solicitando aos seus usuários que submetam imagens interessantes capturadas pelo serviço do Google, que oferece vistas panorâmicas de quilômetros de ruas em cidades como San Francisco, Nova York, Denver e Miami.

Em um blog da revista Wired, por exemplo, os leitores podem votar na melhor imagem urbana obtida pelo Street View. Na tarde de quinta-feira, uma foto de duas jovens tomando sol de biquíni no campus da Universidade Stanford, em Palo Alto, estava entre as líderes. Outra imagem mostrava um homem pulando o muro de um edifício de apartamentos em San Francisco. A legenda dizia: "Ele está invadindo ou só esqueceu a chave?"

O Google anunciou em comunicado que leva a privacidade a sério, e que considerou as implicações de seu serviço a esse respeito antes de introduzi-lo, na terça-feira. "O Street View só oferece imagens capturadas em espaços públicos", afirma a empresa. "Essas imagens não diferem das que qualquer transeunte poderia obter caminhando pela rua".

O Google anunciou ter consultado organizações de serviço público e considerado suas reações, ao desenvolver o serviço, o qual permite que os usuários solicitem a remoção de imagens por motivos de privacidade. Uma porta-voz do Google disse que a empresa até o momento recebeu poucos pedidos como esse.

O Google trabalhou, por exemplo, em contato com o Safety Net Project, na Rede Nacional pelo Fim da Violência Doméstica, que representa abrigos para vítimas de violência doméstica em todo o país, para remover as imagens desses abrigos. "Eles nos procuraram com antecedência, para que pudéssemos contactar toda a rede", disse Cindy Southworth, fundador e diretora da organização.

Nem todo mundo acredita que o serviço suscite questões sérias de invasão de privacidade.

"Não existe direito de privacidade sobre algo que poderia ser visto de um carro que passe pela sua rua em velocidade normal", escreveu um leitor do Boing Boing, identificado como Rich Gibson, em resposta à queixa de Kalin-Casey. Outras pessoas disseram que ela não passa de uma maluca maníaca por gatos.

Edward Jurkevics, sócio da Chesapeake Analytics, uma consultoria especializada em serviços de imagem e mapeamento, afirmou que os tribunais vêm sustentando de maneira consistente a norma de que pessoas podem ser fotografadas em espaços públicos. "Em termos de privacidade, duvido que exista grande problema", disse Jurkevics.

Ainda assim, as questões que o serviço provoca, complicadas ou simplesmente divertidas, servem como tema perfeito a blogs. Começou a caçada por imagens estranhas ou potencialmente embaraçosas que podem ser encontradas em "passeios" pelas ruas cobertas pelo Street View.

Havia uma imagem de um homem claramente identificável parado diante de uma casa que ofereça danças exóticas e outras modalidades de entretenimento, em San Francisco. No site LaudonTech.com, havia a foto de um sujeito entrando em uma livraria pornô de Oakland, ainda que seu rosto não fosse reconhecível.

Outros sites mostravam imagens de carros cujas placas eram claramente legíveis. Um oferecia imagens capturadas no interior do túnel Brooklyn Battery, um ponto controverso para fotografias em nossa era de alta preocupação com a segurança. Na Lombard Street, em San Francisco, turistas que haviam ido ao local para fotografar as famosas curvas da rua terminaram eles mesmos sendo fotografados.

O Google afirma que as imagens foram capturados por veículos equipados com câmeras especiais. Algumas das imagens foram obtidas pela empresa mesma, e outras adquiridas da Immersive Media, uma empresa fornecedora de dados.

"Acredito que esse produto ilustra a tensão entre nosso direito a documentar os espaços públicos que nos cercam, garantido pelas leis de liberdade de expressão, e os interesses de privacidade das pessoas envolvidas em suas atividades cotidianas", disse Kevin Bankston, advogado da Electronic Frontier Foundation, um grupo que defende a privacidade na era e mídia digital. Bankston disse que o Google poderia ter evitado questões de privacidade ao tornar os rostos das pessoas que aparecem nas fotos não identificáveis.

Kalin-Casey reconhece que há muita informações sobre ela disponíveis no Google e outros sites de busca - que ela administra um edifício de apartamentos, que foi editora no site de cinema Reel.com, por exemplo. "Os empregos das pessoas são assunto público", afirma, "mas isso não significa que queiram uma foto de seus sofás no Google".

The New York Times
The New York Times