
Atualizada às 11h52 John Markoff
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O design ecoa a filosofia definida por Steve Jobs duas décadas atrás, sob a qual um mouse de computador não deveria ter mais de um botão. (Hoje em dia, a maioria deles têm dois.) O argumento de Jobs era que a existência de apenas um botão tornava impossível apertar o botão errado.
O teclado está presente em outros celulares, tanto dirigidos a adolescentes quanto a executivos. Mas a falta de teclado poderia ser uma solução inteligente de desenho industrial, porque permite que o iPhone tenha tela de 3,5 polegadas, e isso o torna atraente para usos alternativos, como assistir a filmes, que poderiam representar novas fontes de receita para a Apple e sua parceira AT&T.
O lado negativo é que digitar mensagens requer tocar a tela com os dedos ou polegares, algo que praticamente ninguém, exceto os funcionários da Apple, experimentou até agora. "A sensação táctil de um teclado mecânico é um aspecto bastante importante de interação humana", disse Bill Moggeridge, fundador da Ideo, uma empresa de design industrial da Califórnia. "Sem isso, as pessoas se sentem inseguras".
Jobs e os demais executivos da Apple argumentam que um teclado que surge na tela quando necessário vai representar um compromisso indolor. O teclado virtual dispõe de um dicionário eletrônico que tenta prever a palavra que está sendo digitada, e aponta erros à medida que são cometidos.
Isso, claro, requer que os usuários aprendam o novo sistema, tarefa que, reconhecem os executivos da Apple, pode exigir alguns dias. No mês passado, em conferência setorial, Jobs descartou as dúvidas sobre a dependência quanto a um teclado virtual alegando que os usuários só terão de aprender a confiar no sistema, e "decolarão". Mas, nos dias que antecedem a chegada do novo modelo às lojas da Apple e da AT&T nos Estados Unidos, designers e especialistas em marketing de eletrônicos estão conduzindo um animado debate sobre a paciência dos consumidores para teclar sem a sensação táctil a que se acostumaram com os teclados convencionais.
A Apple está aceitando outros compromissos, quanto ao design. A rede de celulares EDGE, da AT&T, transmite dados mais devagar que as de operadoras rivais de telefonia móvel, mas o iPhone disporá de Wi-Fi para acesso à Internet. O celular não terá porta para placas de memória.
O teclado, no entanto, representa a maior das preocupações. Na pior das hipóteses, os compradores podem devolver o produto. No momento, a AT&T dá prazo de 30 dias aos compradores para devolução de celulares, mas não se sabe se a norma será mantida com relação ao iPhone. Se houver volume significativo de devoluções, isso pode solapar o que vem até agora sendo uma notável blitz promocional que culminará com o lançamento do iPhone, no dia 29.
"Jamais houve um aparelho que tenha feito grande sucesso usando apenas uma tela de toque", alertou Sky Dayton, presidente-executivo da Helio, um serviço para redes de celulares que recentemente introduziu um aparelho inovador, o qual combina o Google Maps a um sistema de GPS, e um novo recurso que permite localizar fisicamente amigos que estejam usando celulares Helio.
O Palm conseguiu sucesso, ele afirmou, a despeito de requerer que os usuários do Palm Pilot empregassem uma caneta especial para inserir textos, usando um sistema de escrita próprio chamado Graffiti. Mas a empresa terminou por abandonar essa idéia, e equipou os modelos de sua linha Treo com um teclado mecânico.
As mensagens de texto têm papel central na vida de toda uma geração, argumenta Dayton, e a Apple está assumindo um risco ao não conceder papel central a elas em seu novo celular. "Existe uma geração de usuários que estão sempre online e não se comunicam como os pais deles faziam", afirma. "Eles trocam e-mails e mensagens de texto; conversam por sistemas de mensagens instantâneas".
Abandonar o teclado físico dá ao software importância maior que a do hardware, no design de produtos, diz Mark Rolston, vice-presidente sênior da Frog Design, uma consultoria de desenho industrial.
Um resultado dessa opção, ele afirma, vem sendo uma conversação mais rica entre os designers da empresa e os clientes, porque o software oferece gama muito mais ampla de opções e recursos. "Isso é excelente para nós, porque as operadoras não queriam ouvir", afirma Rolston.
Agora a situação mudou, e a tendência resultou em volume significativo de novos negócios para empresas como a Frog. "Estamos sendo procurados por muito mais clientes, com idéias mais agressivas sobre o que fazer", diz Ralston.
Ele acredita que Jobs se sairá bem com sua aposta. "Eles assumiram um risco, e é um passo audacioso para o setor. O risco é válido", afirma.
De fato, os poucos usuários de fora da Apple que puderam testar o aparelho dizem que a empresa conhecida por sua excentricidade conseguiu promover um importante avanço na arte do controle de sistemas de computação. Ela talvez consiga convencer uma nova geração de usuários de tecnologia a usar os dedos em lugar de um mouse ¿ tecnologia criada décadas atrás - como forma de selecionar e controlar informações.
E este não pode ser o mais importante dos avanços de design promovidos por Jobs com o iPhone, um fato que vem sendo ignorado em meio à preocupação com as questões de interface do aparelho. Donald Norman, designer e co-diretor do Instituto Segal de Design, na Universidade Northwestern, acredita que o novo aparelho de Jobs atrairá um novo público. "A Apple diz que não está vendendo para quem tem um Blackberry, mas para quem navega na Internet e ouve música", afirma.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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Reprodução
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