Duas semanas mais tarde, Murray continua a não ter blog, mas suas opiniões incendiárias estão a ponto de retornar à rede por intermédio de um provedor holandês de acesso que oferece refúgio a blogs controvertidos dos Estados Unidos e Inglaterra, em um país com leis menos estritas sobre difamação.
E, em função disso, Murray atraiu apoio e seu caso gerou indignação entre blogueiros e provedores de acesso à Internet que se queixaram de que as restrições que as empresas desejam impor à sua liberdade de expressão estão crescendo a cada dia, em diversos países. "Prevejo, de minha parte, que a próxima área de crescimento para a censura não vai ser o bloqueio de sites que ensinam a fazer bombas, mas a alta no número de processos por difamação", disse Richard Clayton, pesquisador sobre segurança da computação na Universidade de Cambridge e membro da OpenNet Initiative, que acompanha os esforços para restringir informações na Internet em todo o mundo.
A odisséia de Murray teve início no começo de setembro, quando ele postou em seu blog uma descrição pejorativa de Usmanov. O escritório londrino de advocacia Schillings, que se especializa em média e entretenimento, cuidou da resposta em nome de Usmanov, disparando cartas de advertência legal ao Fasthost, o provedor que hospedava o blog, exigindo que o texto fosse removido em 24 horas.
Novas cartas foram enviadas, e por volta da quarta queixa o Fasthosts simplesmente desativou o blog ¿ além de dois outros servidores, o que causou a queda de cerca de uma dúzia de outros blogs, entre os quais o de um parlamentar britânico.
"É extremamente assustador que isso possa acontecer, porque eles são capazes de remover conteúdo sem que a Justiça tenha decidido, sem sanções legais de qualquer espécie a não ser uma carta de advertência vinda de um escritório de advocacia conhecido", disse Murray em entrevista. "Eu gostaria de decidir esse caso na Justiça. Por que eles não o fazem? Porque isso reuniria em um só local pessoas que estão informadas sobre os verdadeiros fatos".
Depois que o blog dele foi silenciado, diversos outros blogueiros com visões políticas que cobrem todo o espectro começaram a organizar uma coalizão, em busca de proteção legislativa, de acordo com Tim Ireland, consultor de marketing online cujo blog também desapareceu com a desativação do servidor.
A Associação dos Provedores de Acesso à Internet (Ispa), principal organização setorial dos provedores britânicos, também está organizando uma reunião entre seus membros para debater a questão, este mês.
"A ameaça é, e sempre foi, o dinheiro", disse Ireland. "O poder vale mais que o direito. Temos de remover pelo menos um aspecto das leis britânicas de difamação e calúnia, que protegem aqueles que têm mais dinheiro".
Enquanto isso, as acusações de Murray, que também constam de Murder in Samarkand, seu livro de memórias, continuam a ser divulgadas por outro blogs, o que aponta para os potenciais perigos de tentar sufocar informações na rede.
Rollo Head, porta-voz de Usmanov, disse que o empresário está satisfeito com as ferramentas usadas para contestar informações enganosas e prejudiciais. "Estamos muito confortáveis com a estratégia que usamos para com o site", ele afirmou.
Usmanov contratou o Schillings, cuja especialidade é a "proteção de reputações" e que se vangloria de ser o "escritório de advocacia das estrelas". Harriet Campbell, advogada do escritório, se recusou a discutir o impacto da estratégia da empresa, alegando em mensagem de e-mail que, "como qualquer escritório profissional de advocacia, o Schillings não comenta sobre suas instruções ou abordagem relativas a assuntos de interesse de seus clientes".
Mas em seu site o escritório oferece gratuitamente um conjunto de instruções para contestar os críticos online não importa onde estejam localizados, descrevendo o caso de um cliente: um rico presidente de empresa acusado de comportamento antiético e crimes financeiros em um site norte-americano.
No caos dele, o escritório britânico usou tática semelhante. Contactou o provedor, "informando que mesmo que as alegações tivessem sido postadas fisicamente nos Estados Unidos, constituíam difamação sob as leis britânicas, porque o site era acessível no Reino Unido".
O provedor removeu o material, de acordo com o escritório, e "quando a fonte foi exposta e perdeu seus recursos de publicidade, logo aceitou um acordo extrajudicial, para evitar uma acusação por difamação".
Empresas nos Estados Unidos, Canadá e Austrália agiram contra blogs pela remoção de materiais protegidos por direitos autorais, ou exigiram a remoção de comentários críticos postados por visitantes dos blogs.
Mas os blogs britânicos estão especialmente vulneráveis a queixas por difamação, devido a uma decisão judicial anterior sob a qual provedores de acesso à Internet são considerados responsáveis por material calunioso ou difamatório caso não reajam quando alertados sobre um problema.
O resultado é que, por fim, cabe ao provedor decidir quem está dizendo a verdade. "Isso é algo que os provedores vêm tendo de fazer como parte de seus negócios", disse Brian Ahearne, da Ispa. "Não se trata de algo em que a associação deseje se envolver, mas e não é certo que os provedores sejam transformados em juízes e júris, nesse tipo de situação".
Alguns observadores dizem que as empresas parecem se inclinar mais a agir quando os comentários críticos publicados por um blog surgem entre os principais resultados do Google para um determinado termo de busca. Foi o que aconteceu com os cáusticos comentários de Murray sobre Usmanov, que estavam entre os 10 primeiros retornos de busca para o nome do bilionário.
"As pessoas aprenderam uma lição para o futuro", disse Ireland. "Por isso estão se organizando. Qualquer um poderia ser vítima de uma situação como essa, da próxima vez".
Tradução: Paulo Migliacci ME

- Herald Tribune


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