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Sexta, 26 de outubro de 2007, 12h27 Atualizada às 12h27

Blogs radicais nos EUA defendem o islamismo e a jihad

Michael Moss e Souad Mekhennet

Quando Osama bin Laden enviou uma mensagem em vídeo ao povo dos Estados Unidos no mês passado, um jovem entusiasta da jihad usou a Internet para ajudar a difundi-la. "Os Estados Unidos precisam ouvir o Xeque Usaamah com o maior cuidado, e aceitar sua mensagem com toda seriedade", ele escreveu em seu blog. "Os norte-americanos são conhecidos como um povo arrogante".

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Ao contrário de Bin Laden, o autor do blog não está escondido em uma região remota do outro lado do mundo. Trata-se de Samir Khan, 21, cidadão dos Estados Unidos, e ele produz o blog radical que publica na casa de seus pais, na Carolina do Norte, onde trabalha como uma espécie de central de retransmissão para as produções multimídia de grupos islâmicos violentos.

Neste mês, ele divulgou as "boas novas" de um grupo militante norte-africano que massacrou 31 soldados argelinos. Postou um tratado de grande erudição defendendo a jihad violenta, traduzido para o inglês. No blog, ele oferece centenas de links para sites secretos nos quais seus leitores podem obter os mais recentes e sangrentos vídeos sobre a insurgência no Iraque.

Embora não haja qualquer indicação de que Khan está operando em cooperação com líderes militantes ou violando quaisquer leis norte-americanas, ele é parte de uma crescente constelação de operadores de mídia aparentemente independentes que vêm transmitindo a mensagem da Al-Qaeda e de outros grupos, uma mensagem que cada vez mais se dirige às audiências ocidentais.

O organizado site que ele mantém inclui um arquivo chamado "Estados Unidos da Derrota", no qual o destaque é uma recente reportagem de TV sobre um combate no Afeganistão, com o seguinte comentário adicional, acrescentado por Khan: "Pode-se ver até mesmo um soldado norte-americano se escondendo da emboscada como um bebê! Allahu Akbar! Allahu Akbar!"

Khan, que nasceu na Arábia Saudita e foi criado em Queens, Nova York, é um soldado implausível naquilo que a Al-Qaeda define como "a mídia da jihad islâmica". Cresceu como parte da classe média norte-americana, e enfrenta problemas com seus pais devido ao seu fervor religioso. Mas persiste. "Farei meu melhor para dizer a verdade e, mesmo que isso incomode os descrentes, a verdade deve ser pregada", ele declarou em entrevista.

Especialistas em terrorismo na Academia Militar de West Point dizem que, além do blog de Khan, existem pelo menos outros 100 sites em inglês, com um total de cerca de 500 leitores regulares, entre os mais ativos nessa categoria. Embora seja difícil avaliar o alcance desses veículos, uma revisão do material extremista e entrevistas com os militantes tornam claro que eles desejam atrair o apoio dos jovens muçulmanos norte-americanos e europeus, apelando à raiva que eles sentem diante da guerra no Iraque e da imagem de que o Islã está sob ataque.

Os tediosos textos árabes de protesto são transformados em vistosas produções em inglês, disponíveis em múltiplos idiomas e em formatos diferenciados, como séries de contos online exemplificadas por "Rakim bin Williams", sobre cristãos europeus que se convertem ao islamismo e aderem à Al-Qaeda.

Os militantes islâmicos transformam imagens pouco nítidas de atentados com carros-bomba em vídeos bem editados, ao som de hip-hop, facilmente acessíveis em sites como o YouTube. "É como assistir a um filme de Hollywood", disse Abu Saleh, 21, fã alemão de vídeos da Al-Qaeda que vai a cibercafés duas vezes por semana em Berlim para assistir aos mais recentes lançamentos. "A Internet mudou completamente minha visão sobre as coisas".

O percurso para a jihad online
Khan se mudou com sua família da Arábia Saudita para Maspeth, um bairro de Queens, Nova York, quando tinha sete anos. Até agosto de 2001, ele acompanhava as preferências dos jovens de sua faixa etária nos Estados Unidos, usando calças largas e gírias sempre mutáveis, mas depois de participar de um seminário em uma mesquita de Queens, promovido por uma organização fundamentalista mas não violenta, sua postura mudou.

"Eles ensinavam coisas sobre religião e irmandade que me cativaram", conta Khan. Quando voltou à escola, ele "sabia o que desejava fazer de minha vida: ser um muçulmano firme, forte, praticante".

Passou a orar com mais regularidade, e a se vestir de forma mais modesta. Deixou de ouvir música a não ser o trabalho do Soldiers of Allah, um grupo de hip-hop islâmico de Los Angeles, hoje extinto, mas cujas canções continuam populares entre os jovens militantes.

Khan fez amizade com membros da Sociedade dos Pensadores Islâmicos, um pequeno grupo que promove o islamismo radical, ainda que não violento, distribuindo panfletos em Times Square e Jackson Heights, em Queens.

Quando sua família se mudou para a Carolina do Norte, em 2004, Khan conta, ele freqüentou uma universidade comunitária por três anos, e ganhava a vida vendendo diversos produtos, entre os quais facas de cozinha. Mas começou a dedicar mais tempo a cada dia ao blog que criou em 2005, chamado Inshallahshaheed, que pode ser traduzido como "mártir em breve, se Deus quiser".

Se a retórica extremista de Khan atraiu audiência mais ampla ao seu blog, também lhe causou problemas em casa. No ano passado, seu pai convidou um líder religioso a intervir para convencer o filho a retornar às visões mais moderadas que a família sempre adotou.

Ocasionalmente, conta Khan, seu pai restringe seu acesso à Internet, e para apaziguá-lo ele recentemente incluiu um alerta no blog, negando que tenha responsabilidade pelas opiniões que o conteúdo que ele veicula expressam.

Ele também vem enfrentando a oposição de organizações de cidadãos norte-americanos que operam para tirar sites como o seu da Internet. Em setembro, seu blog foi bloqueado duas vezes pelo provedor, que mencionou reclamações quanto à natureza dos posts. No primeiro domingo deste mês, o blog caiu uma vez mais.

Por isso, ele transferiu o site para um provedor chamado Muslimpad, cujos operadores norte-americanos se mudaram recentemente de Austin, Texas, para Amã, na Jordânia. O maior dos fóruns que eles operam, o Islamic Network, hospeda listas de discussões entre muçulmanos dos Estados Unidos. Daniel Maldonado, um dos antigos funcionários do site, foi condenado este ano em um tribunal federal por associação com terroristas em seus campos de treinamento na Somália.

Khan disse que já sonhou se encontrar com Bin Laden, e que não descartava a possibilidade de tomar armas pessoalmente, um dia. Mas enquanto isso não acontece ele cumpre suas obrigações para com a jihad ajudando outros muçulmanos a compreender sua religião. Recentemente, postou um vídeo de telejornal gravado na Somália, que mostrava um norte-americano, armado de granadas, combatendo ao lado de militantes islâmicos. "Eis um exemplo de muçulmano que segue fielmente a religião do Islã", escreveu Khan.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

Michael Moss/The New York Times
Samir Khan, 21, transmite a partir de sua casa, na Carolina do Norte, as mensagens extremistas islâmicas e cultua Bin Laden
Samir Khan, 21, transmite a partir de sua casa, na Carolina do Norte, as mensagens extremistas islâmicas e cultua Bin Laden

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