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Sábado, 3 de novembro de 2007, 12h40 Atualizada às 12h55

Pobreza estimula inovação e revolução online na Índia

Anand Giridharadas

Manohar Lakshmipathi não tem computador. De fato, trabalhadores humildes como Manohar, pintor de casas, em geral são proibidos de mexer com os computadores dos clientes, nas casas que são contratados para pintar, em Bangalore. Assim, vocês vão imaginar a admiração de Manohar enquanto ele ditava sua data de nascimento, número de telefone e histórico profissional a uma secretária, que digitava as informações em um computador. Em seguida, um homem tirou sua foto. Depois, com um clique, a página de rede social de Manohar estava ativa na Internet - o mais recente entre os perfis hospedados pelo site Babajob.com.

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A Babajob, uma empresa indiana iniciante cujo objetivo é levar a revolução criada por empresas como a Facebook e a MySpace aos países mais pobres do mundo, é apenas um exemplo de um subproduto inesperado do boom da terceirização: empresários e grandes empresas multinacionais estão fazendo da Índia um centro de inovações na computação dirigidas aos pobres.

A terceirização trouxe centenas de multinacionais e centenas de milhares trabalhadores da tecnologia a Bangalore. Agora, passada mais de uma década desde que essa tendência surgiu, muitas dessas empresas e seus funcionários estão aplicando a capacitação que adquiriram não só para desenvolver software mas para ajudar a enfrentar a horrenda pobreza que as cerca.

"Em Redmond, não se vê crianças de sete anos pedindo esmola nas ruas", disse Sean Blagsvedt, fundador da Babajob, em referência à cidade que abriga a sede da Microsoft, sua antiga empregadora, no Estado de Washington. "Na Índia, não há como evitar a sensação de que você tem muita sorte. Por isso, você se pergunta o que pode fazer com relação a todas as coisas que nos cercam, e de que maneira empregará todas essas capacidades que desenvolveu".

Talvez por motivos menos altruístas, mas ainda assim com efeitos positivos para os pobres, as empresas fizeram da Índia um laboratório para expandir as modernas conveniências tecnológicas a pessoas há muito privadas de acesso a elas. A Nokia, por exemplo, desenvolve aqui muitos de seus modelos mais baratos de celulares. O Citibank começou a testar aqui um caixa automático que reconhece impressões digitais, o que ajudaria os moradores de cortiços a obter acesso a serviços bancários.

E a Microsoft fez da Índia um de seus principais centros mundiais de pesquisa, estudando tecnologias dirigidas aos pobres, como software que lê para usuários analfabetos de computadores.

A Babajob é um exemplo clássico de como os serviços terceirizados sediados na Índia ajudaram a promover inovações inspiradas nos usuários mais pobres.

Os sites de redes mais conhecidos conectam entre si os membros da elite do país, que conhecem muito bem os computadores. A Babajob, em contraste, conecta a elite indiana com os pobres que a cercam, pessoas que precisam de trabalho mas não dispõem das conexões necessárias a encontrá-lo. Os interessados em empregos anunciam sua capacitação, os empregadores anunciam postos em aberto, e as duas coisas são equiparadas por meio de redes de amigos virtuais.

Por exemplo, se Rajeev e Sanjay são amigos e Sanjay precisa de um motorista, ele pode visitar o perfil de Rajeev, e de lá obter acesso à página do motorista de Rajeev, e verificar se este tem amigos interessados em trabalho semelhante.

Blagsvedt, 31 anos, começou a trabalhar para a Microsoft em 1999, em Redmond. Três anos atrás, ele foi enviado à Índia para ajudar a montar o escritório local da Microsoft Research, o instituto de pesquisa interno do grupo.

Mas os funcionários da Microsoft no país levavam vidas muito diferentes de seus colegas na matriz. Tinham criados em casa, e contratavam trabalhadores para todo tipo de tarefa caseira. Liam notícias sobre subnutrição e analfabetismo em todos os jornais. Os funcionários indianos não estavam presenciando essas condições pela primeira vez, mas muitos deles se sentiam equipados com novas capacidades para confrontá-las.

Muito bem preparados para o trabalho na computação, muitos deles sentiam a necessidade de fazer alguma coisa para ajudar a sociedade de que vieram.

No escritório de pesquisa em que Blagsvedt trabalhava, a pobreza se tornou um tema importante. Antropólogos e sociólogos foram contratados para explicar coisas como o efeito do sistema de castas sobre o uso dos computadores em regiões rurais. Um dia, no curso desse trabalho, Blagsvedt encontrou um estudo de um economista da Universidade Duke, cujas constatações primeiro o enervaram e depois lhe serviram de inspiração.

O economista, Anirudh Krishna, constatou que muitos dos indianos pobres que têm empregos sem futuro eram pobres não porque empregos melhores estivessem indisponíveis, mas sim porque lhes faltavam as conexões sociais necessárias para encontrar esses empregos. Qualquer morador de Bangalore seria capaz de confirmar a observação: a cidade está repleta de trabalhadores desesperados por empregos e ao mesmo tempo os ricos magnatas do software se queixam sem parar da falta de empregadas domésticas e cozinheiros.

A epifania de Blagsvedt? "Precisamos de uma versão do LinkedIn para aldeias", ele se lembra de ter dito, mencionando um site que ajuda a formar redes de conexões profissionais. Ele se demitiu da Microsoft e, em sociedade com seu sogro, Ira Weise, e outro colega saído da empresa criou um site de redes sociais para conectar os yuppies de Bangalore aos trabalhadores desempregados da área. (O site, criado no trimestre passado e operado por Blagsvedt em sua casa, por enquanto se concentra em Bangalore, mas há planos de expansão para outras cidades indianas e, talvez, outros países.)

Construir um site para atingir os trabalhadores que ganham dois ou três dólares por dia apresentava desafios especiais. Os trabalhadores não teriam muita familiaridade com computadores em geral, e com a Babajob especialmente. Além disso, os empregadores ricos poderiam relutar em permitir que pessoas contratadas de maneira aleatória cuidassem de seus jardins ou de seus bebês.

Para resolver o problema da conectividade, a Babajob paga qualquer pessoa, de organizações assistenciais a proprietários de cibercafés, que encontre e registre candidatos a empregos. (A empresa obtém seu dinheiro dos anúncios publicados pelos empregadores, e emprega uma porção do dinheiro assim obtido para bancar seu sistema de registro pago de candidatos a empregos.) Além disso, em lugar de criar um mercado de empregos anônimo, a Babajob reproduz online o processo pelo qual os indianos em geral fazem suas contratações na vida real: usando redes de conexões pessoais.

Na Índia, um empresário que esteja procurando um motorista pode pedir uma indicação a um amigo, que por sua vez perguntará a seu motorista. Essas conexões oferecem uma espécie de controle de qualidade. O motorista do amigo, por exemplo, não recomendaria um trapaceiro, por medo de perder o emprego.

Para recriar essa dinâmica na Internet, a Babajob paga para que pessoas sirvam como "conectores" entre empregador e trabalhador. No exemplo acima, o amigo do empresário e seu motorista receberiam cada um o equivalente a US$ 2,50, caso conectem o empresário a alguém que ele aprecie.

O modelo está ganhando atenção, e elogios. Um empresário do setor de capital para empreendimentos em Bangalore, quando informado sobre a Babajob, pediu imediatamente para ser colocado em contato com Blagsvedt.

"Uau", disse Steve Pogorzelski, presidente da divisão internacional da Monster.com, o site de empregos norte-americano, quando foi informado sobre a empresa. "Essa é uma inovação importante", disse, "porque abre o mercado para pessoas de níveis socioeconômicos que não teriam ampla gama de ofertas de emprego".

Krishna, o economista da Universidade Duke, elogiou a idéia como "inovação muito significativa", mas acautelou que os muito pobres podem não fazer parte de redes sociais capazes de levá-los a participar da Babajob.

Quanto a atrair potenciais empregadores, além da divulgação boca a boca de seus serviços entre as pessoas desesperadas por encontrar empregadas e outros trabalhadores, a Babajob conta também com a Babalife, seu site paralelo de redes sociais. As pessoas que criarem perfis no site estarão automaticamente integradas à Babajob.

Até agora, há mais de 1,1 mil pessoas registradas no site, e os inscritos são uma boa amostra da subclasse de milhões e milhões de trabalhadores indianos que procuram trabalhos de baixos salários como motoristas, jardineiros, babás, seguranças e recepcionistas.

No apartamento de Blagsvedt, o pintor Manohar professava esperança.

Ele ganha US$ 100 por mês, e encontra trabalho irregularmente, de modo que pode passar até três meses ocioso por ano. Entre os períodos de trabalho, ele vive de empréstimos tomados a agiotas, para manter sua mulher e filhos alimentados. Os juros mensais chegam a 10%, o que leva uma dívida de US$ 100 a valer US$ 314 em um ano.

Manohar deseja vida diferente para seus três filhos. Eles não terão de sentir a mesma dor que ele, afirma; seu sonho é que trabalhem em um belo escritório. Por isso, gasta metade de seu dinheiro pagando escolas privadas para as crianças. E é por isso que ele estava na sede da Babajob, sentado em uma cadeira giratória, encarando a tela do computador e sonhando conseguir mais trabalho.

Herald Tribune

The New York Times
O pintor Manohar Lakshmipathi se inscreveu em uma rede social para conseguir emprego
O pintor Manohar Lakshmipathi se inscreveu em uma rede social para conseguir emprego

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