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Internet 10 anos


 

Celular & Wireless
Terça, 6 de novembro de 2007, 13h53 
Americanos usam aparelho para bloquear celular dos outros
 
Matt Richtel
 
Prashanth Vishwanathan/The New York Times
Kumaar Thakkar mostra seu bloqueador de celular em sua loja em Mumbai, na Índia. Ele exporta 20 aparelhos por mês para os EUA
Kumaar Thakkar mostra seu bloqueador de celular em sua loja em Mumbai, na Índia. Ele exporta 20 aparelhos por mês para os EUA
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Certa tarde, no começo de setembro, um arquiteto tomou o trem para o trabalho e decidiu se transformar em fiscal do uso de celulares. Ele estava sentado ao lado de uma moça de 20 e poucos anos que, segundo ele, estava "tagarelando sem parar" ao celular. "Ela usava a palavra 'tipo' o tempo todo. Parecia uma dessas garotas do subúrbio", disse o arquiteto, Andrew, que preferiu não revelar seu sobrenome porque o que ele fez a seguir é ilegal. Andrew colocou a mão no bolso de sua camisa e apertou um botão em um aparelho preto do tamanho de um maço de cigarros. O dispositivo emite um forte sinal de rádio, e isso bastou para derrubar a ligação da tagarela - e as de quaisquer outras pessoas em um raio de 10 metros.

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"Ela continuou falando ao telefone por uns 30 segundos antes de compreender que não havia ninguém do outro lado", ele afirmou. A reação de Andrew ao descobrir que ele poderia exercer tamanho poder? "Meu Deus, foi de completo alívio".

Com a disparada no uso de celulares se tornou difícil não ouvir meias conversas em muitos lugares públicos, mas um pequeno bando de rebeldes está recorrendo a uma contramedida ríspida: o bloqueador de celulares, aparelho que reduz ao silêncio os dispositivos móveis de comunicação localizados nas imediações.

Procura cresce
A tecnologia não é nova, mas os exportadores estrangeiros de bloqueadores dizem que a demanda está em alta, e que estão despachando centenas de unidades ao mês para os Estados Unidos - o que atraiu a atenção das autoridades norte-americanas e gerou preocupação no setor de telefonia móvel, esta semana. Os compradores incluem proprietários de cafés e salões de beleza, hotéis, pessoas que fazem palestras, operadores de salas de cinema, motoristas de ônibus e, cada vez mais, pessoas que viajam como passageiros em transportes coletivos.

O novo desdobramento está gerando uma nova batalha pelo controle das ondas de comunicação nos espaços imediatos dos usuários. E há danos colaterais: os tagarelas insensíveis impõem seu ruído aos indefesos, e os donos de bloqueadores punem não só os culpados mas as pessoas que usam seus celulares discretamente.

"Se alguma coisa caracteriza o século 21, é nossa incapacidade de nos contermos em nome de não perturbarmos os demais", disse James Katz, diretor do Centro de Estudos de Comunicação Móvel da Universidade Rutgers. "A pessoa que fala ao celular acredita que seus direitos superam os das pessoas que a cercam, e aqueles que usam bloqueadores consideram que os seus direitos é que são mais importantes".

Funcionamento e legalidade
A tecnologia de bloqueio funciona por meio do envio de um sinal de rádio tão poderoso que os celulares não conseguem mais se comunicar com as antenas de telefonia móvel. O alcance é de alguns metros, e os preços variam entre US$ 50 e algumas centenas de dólares. Modelos maiores podem ser usados para criar áreas em que o uso de celulares é impossível.

O uso dos bloqueadores é ilegal, nos Estados Unidos. As freqüências de rádio usadas pelas operadoras de telefonia móvel são protegidas, como as das emissoras de rádio e televisão.

A Comissão Federal de Comunicações (FCC) diz que pessoas que usam bloqueadores de celulares podem ser multadas em até US$ 11 mil, na primeira ocorrência. A divisão de fiscalização da agência processou algumas companhias norte-americanas que distribuíam esse tipo de aparelho - e também tenta reprimir os usuários.

Investigação
Investigadores da FCC e da Verizon Wireless visitaram um restaurante fino em Maryland no ano passado, relata o proprietário do estabelecimento. O proprietário, que não quer que seu nome seja revelado, havia investido US$ 1 mil em um poderoso bloqueador porque estava cansado de ver seus funcionários dedicando mais atenção aos seus celulares pessoais do que aos clientes. "Eu cansei de dizer que eles tinham de largar os celulares", conta o empresário. Mas seus pedidos não tiveram efeito.

O proprietário disse que o investigador voltou ao restaurante diversas vezes, por uma semana, em uma tentativa de detectar o bloqueador. Mas o proprietário havia desligado a máquina. O investigador da Verizon tampouco obteve sucesso. "Ele procurou todo mundo na cidade, distribuiu cartões e pediu que as pessoas avisassem se estivessem encontrando problemas com seus celulares", conta o proprietário, que diz ter abandonado o uso do bloqueador, depois disso.

É claro que detectar o uso de modelos de menor porte, acionados por baterias - como aqueles que os passageiros inconformados com a tagarelice usam nos meios de transporte coletivo - seria muito mais difícil. Clyde Ensslun, porta-voz da FCC, se recusou a comentar sobre a questão, ou sobre o caso de Maryland descrito acima.

As operadoras de telefonia móvel pagam ao governo dezenas de bilhões de dólares pelas licenças de uso das freqüências que controlam, sob o entendimento de que outras organizações não interferirão com os seus sinais. E há outros custos envolvidos, além desse. A Verizon Wireless, por exemplo, investe US$ 6,5 bilhões ao ano na construção e na manutenção de suas redes.

As operadoras alegam que é ilógico que os usuários de telefonia móvel queiram expansão das áreas de cobertura dos celulares e que, ao mesmo tempo, aparelhos de bloqueio como esses estejam encontrando mais espaço no mercado.

Andrew, o arquiteto da região de San Francisco, afirma que usar o bloqueador era divertido, inicialmente, e mais tarde se tornou uma maneira prática de conseguir algum silêncio no trem. Agora, ele o emprega de maneira mais judiciosa. "A essa altura, simplesmente saber que tenho o poder de cortar a comunicação de alguém é satisfação bastante", ele diz.

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times