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EUA: Suicídio inspira lei que pune assédio na web

28 de novembro de 2007 15h15 atualizado às 16h01

Os pais de Megan, Tina e Ron Meier, mostram a foto da filha. Foto: The New York Times

Os pais de Megan, Tina e Ron Meier, mostram a foto da filha
Foto: The New York Times

Megan Meier morreu acreditando que, em algum lugar do mundo, existia um menino chamado Josh Evans que a odiava. Evans tinha 16 anos, uma cobra de estimação, e ela o considerava como o namorado mais bonito que já teve.

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Josh contatou Megan por meio de sua página no site de redes sociais MySpace, segundo Tina Meier, a mãe da menina. Eles flertaram durante semanas, mas apenas online - Josh disse que sua família não tinha telefone. Em 15 de outubro de 2006, o rapaz subitamente se tornou malvado. Começou a insultar Megan; mais tarde, os dois passaram uma hora trocando xingamentos.

No dia seguinte, em sua mensagem final, diz Ron Meier, o pai de Megan, Josh escreveu que "o mundo seria melhor se você não existisse".

Soluçando, Megan correu para o closet de seu quarto. Foi lá que a mãe a encontrou. Ela havia se suicidado, usando um cinto para se enforcar. Megan tinha 13 anos.

Seis semanas depois da morte de Megan, os pais dela descobriram que Josh Evans jamais havia existido. Tratava-se de um personagem criado para a Internet por Lori Drew, 47, que vive a quatro casas de distância da família, a cerca de 55 quilômetros a noroeste do Missouri.

O fato de um adulto ter pregado uma peça tão cruel contra uma menina de 13 anos atraiu telefonemas, mensagens de e-mail e posts indignados em blogs de todo o mundo. Muita gente expressou ira porque as autoridades do condado de St. Charles decidiram não apresentar uma acusação criminal contra Drew.

Um porta-voz do departamento de polícia do condado, tenente Craig McGuire, afirmou que aquilo que Drew fez "pode ter sido rude, e pode ter sido imaturo. Mas não foi ilegal".

Em resposta aos acontecimentos, o conselho local de vereadores aprovou por unanimidade, na quarta-feira, uma lei que faz de assédio pela Internet um delito passível de multa de US$ 500 e até 90 dias de prisão.

"Nem me falem disso; as penas são nada", disse a prefeita Pam Fogarty sobre a decisão. "Mas era tudo que podíamos fazer. Havia gente que queria queimar a casa dela".

Jack Banas, o promotor público do condado de St. Charles, disse que estava revisando o caso a fim de determinar se alguém podia ser acusado de crime. O deputado estadual Doug Funderburk, cujo distrito inclui Dardenne Prairie, disse que estava estudando a possibilidade de apresentar um projeto de lei que impusesse penas mais severas a assédio e fraude online.

Na sétima série, Megan Meier havia tentado desesperadamente ser aceita pela turma mais popular da Fort Zumwalt West Middle School, mas terminou rejeitada, e ouviu muitas piadas sobre seu peso, disse a mãe da menina. No começo da oitava série, um ano atrás, ela se transferiu para a Immaculate Conception, uma escola católica localizada a alguns quilômetros de distância. Em poucos meses, diz Tina Meier, sua filha havia feito novos amigos, perdido 10 quilos e entrado para o time de vôlei.

Em dado momento, Megan e a filha de Drew eram "muito amigas", diz Vicki Dunn, tia-avó de Megan. Mas as duas se afastaram e, quando Megan mudou de escola, disse à outra menina que não queria mais continuar sendo sua amiga, segundo Meier.

Em relatório que consta dos arquivos da polícia local, Lori Drew diz que criou o perfil de "Josh Evans" a fim de conquistar a confiança de Megan e descobrir o que ela sentia sobre sua filha. Curt Drew, o marido de Lori, foi contatado, mas disse que a família não queria comentar o caso.

Drew havia levado Megan com ela em viagens de férias de família, então sabia que a menina usava antidepressivos, diz Tina Meier. E também sabia que ela tinha uma página no MySpace.

Drew contou a uma menina da rua sobre a brincadeira, conta a mãe desta menina, que pediu que seu nome não fosse revelado para proteger a filha, que é menor de idade.

"Lori riu muito quando contou a história", disse a mãe, acrescentando que Drew e sua filha haviam declarado que iam "zoar com Megan".

Depois de um mês de flerte inocente, disse Tina, Megan subitamente recebeu uma mensagem de Josh dizendo que "não gosto da maneira pela qual você trata seus amigos, e não sei se quero continuar sendo seu amigo".

Eles discutiram online, e outros jovens que tinham links para o perfil de Josh no MySpace aderiram à discussão, no dia seguinte, e começaram a enviar mensagens ofensivas a Megan. A menina deixou o computador e foi para seu quarto. Não mais de 15 minutos depois, diz Tina, ela sentiu que havia algo de terrivelmente errado com sua filha, e a encontrou enforcada.

A vizinha contou que, enquanto os paramédicos se esforçavam por reviver Megan, Drew ligou para sua filha e disse que ela devia "ficar de boca fechada" sobre a página do MySpace. Mas seis semanas depois a vizinha revelou a verdade aos Meier.

Pouco antes da morte de Megan, os Meier haviam concordado em guardar em sua casa uma mesa de pebolim comprada pelos Drew como surpresa de Natal para seus filhos. Quando descobriram sobre a trapaça no MySpace, eles destruíram a mesa com um machado e uma britadeira, conta Tina, e deixaram os restos diante da casa dos Drew.

A polícia descobriu sobre o incidente quando Lori Drew apresentou queixa sobre a destruição da mesa de pebolim. No relatório, ela diz achar que sua brincadeira "contribuiu" para o suicídio de Megan, mas afirma não se sentir tão "culpada", porque descobriu no funeral que Megan havia tentado se suicidar, anteriormente.

Tina diz que Megan mencionou suicídio algumas vezes, mas não havia feito qualquer tentativa, e ninguém que a conhecia, incluindo seu médico, a considerava como potencialmente suicida.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
The New York Times