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 Acadêmicos usam rede social para estudar os jovens
17 de dezembro de 2007 15h13 atualizado às 16h07

Nicholas Christakis, professor em Harvard, usa o Facebook para estudar a formação das relações sociais. Foto: Rick Friedman/The New York Times

Nicholas Christakis, professor em Harvard, usa o Facebook para estudar a formação das relações sociais
Foto: Rick Friedman/The New York Times

A cada dia, cerca de 1,7 mil alunos de segundo ano em uma faculdade da costa leste norte-americana se conectam ao Facebook.com para acumular "amigos", comparar preferências cinematográficas, compartilhar vídeos e trocar beijos e coquetéis virtuais. Sem saber, esses jovens estão participando de um projeto de pesquisa acadêmica.

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Para estudar de que maneira gostos pessoais, hábitos e valores afetam a formação de relações sociais (e vice-versa), uma equipe de pesquisadores da Universidade Harvard e da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) está acompanhando os perfis de toda uma série de alunos de uma faculdade, que eles se recusaram a identificar para proteger a privacidade dos participantes, no site de redes sociais Facebook.

"Um dos objetivos primordiais da ciência social é determinar até que ponto o gosto influencia a amizade ou a amizade influencia o gosto", disse Jason Kaufman, professor associado de sociologia em Harvard e membro da equipe de pesquisa. "As pessoas se atraem pelas semelhanças ou se tornam mais semelhantes aos amigos que venham a fazer?"

Em outras palavras, o Facebook ¿ onde os usuários classificam uns aos outros como gostosos ou não, jogam coisas como "piratas vs. ninjas" e arremessam carneiros virtuais uns contra os outros - está ajudando os estudiosos a esclarecer questões fundamentais da ciência social.

"Estamos diante de uma nova maneira de pesquisar ciências sociais", disse Nicholas Christakis, professor de sociologia de Harvard que também participa da pesquisa. "Nossos predecessores podiam apenas sonhar com a espécie de dados de que dispomos hoje".

A rede de 58 milhões de usuários ativos do Facebook e seu status como site com o sexto maior tráfego na web dos Estados Unidos fizeram dele um assunto irresistível para muitas formas de pesquisa acadêmica. Acadêmicos da Universidade Carnegie Mellon usaram o site para estudar questões de privacidade. Na Universidade do Colorado, pesquisadores analisaram de que maneira o Facebook disseminou de modo instantâneo detalhes sobre o ataque na Universidade de Tecnologia da Virgínia, em abril.

Mas é o papel do Facebook como tubo de ensaio para as ciências sociais ¿ sociologia, psicologia e ciência política - que motiva especialmente alguns estudiosos, porque o site permite que examinem a maneira pela qual pessoas, especialmente os jovens, se conectam umas às outras, algo que poucos outros conjuntos de dados oferecem, dizem os estudiosos.

Cientistas sociais das universidades de Indiana, Northwestern, Estadual da Pensilvânia, Tufts, Texas e outras instituições estão garimpando o Facebook para testar teorias tradicionais em seus ramos de pesquisa sobre relacionamentos, identidade, auto-estima, popularidade, ação coletiva, raça e envolvimento político.

Muitos desses trabalhos ainda estão em curso e não foram publicados, de modo que as conclusões são preliminares. Em alguns dos estudos, os usuários do Facebook não sabiam que estavam sendo observados. Uma porta-voz do site diz que a empresa não tem normas que proíbam que estudiosos analisem perfis de usuários que não tenham acionado certos mecanismos de proteção da privacidade.

"Para o estudo de jovens adultos, o Facebook é o site mais quente do momento", disse Vincent Roscigno, editor da American Sociological Review.

Eliot Smith, professor de ciências do cérebro e psicologia na Universidade de Indiana, e um colega, receberam verba da Fundação Nacional de Ciência para estudar de que maneira as pessoas se encontram e descobrem mais informações sobre possíveis parceiros românticos. "O Facebook era atraente para nós porque oferecia todo esse tipo de informação", ele disse.

S. Shyam Sundar, professor e fundador do Laboratório de Pesquisa de Efeitos da Mídia na Universidade Estadual da Pensilvânia, comandou seus alunos em diversos estudos da questão da identidade, usando o Facebook. Um deles envolvia a criação de falsos perfis no Facebook. Os pesquisadores descobriram que embora as pessoas percebam alguém que tenha grande número de amigos como popular, atraente e confiante, ter amigos "demais" (800 ou mais) é visto como sinal de insegurança.

Nicole Ellison, professora assistente da Universidade Estadual do Michigan, constatou em estudo no Facebook que o uso do site poderia ter impacto positivo sobre o bem-estar dos alunos. (Nota para os pais: um estudo anterior de Ellison não encontrou correlação adversa entre a intensidade de uso do site e as notas do aluno.)

Uma constatação importante, segundo Ellison, foi a de que estudantes que se declaravam insatisfeitos com a vida e tinham pouca auto-estima, e que usavam o Facebook intensivamente, acumulavam uma espécie de capital social vinculado ao que sociólogos definem como "elos fracos". Um elo fraco é o que une alguém a um colega de classe ou a uma pessoa que conheceu em uma festa, e não a um amigo ou parente. Os elos fracos são importantes, segundo os pesquisadores, porque é mais provável que ofereçam novas perspectivas e oportunidades às pessoas, diferentes das oferecidas por amigos e familiares. "Com amigos próximos e familiares, as informações já foram trocadas", diz Ellison.

A pesquisadora e seus colegas sugerem que informações obtidas no Facebook podem ser mais precisas que informações pessoais oferecidas em outros sites da Internet, como perfis em salas de chat, porque o Facebook se baseia em larga medida em relacionamentos reais, originados em comunidades fechadas como os campi universitários.

Sundar concorda. "Não se pode manter um perfil falso por muito tempo", ele diz. "Não é um site de encontros. O objetivo não é causar uma impressão que gere conquista amorosa".

Mas alguns analistas apontam que o Facebook não é representativo da etnicidade, antecedentes educacionais ou renda da população em geral, e que os membros do site aderem voluntariamente, de modo que pesquisas que utilizem o site enfrentam limites.

Eszter Hargittai, professora da Universidade Northwestern, constatou em um estudo, por exemplo, que os estudantes hispânicos têm menor probabilidade de aderir ao Facebook, preferindo o MySpace, enquanto caucasianos e asiáticos preferiam o Facebook ao MySpace.

O site foi criado na Universidade de Harvard em 2004, e até 2006 estava restrito a estudantes universitários. Como aponta Hargittai em seu estudo, "exigir uma afiliação como essa claramente limita o número e tipo de pessoas que tinham o direito de aderir ao serviço, inicialmente".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
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