
Dave Itzkoff
Caminhei por alguns quarteirões até meu apartamento na Avenida A, liguei o computador e levei uma pequena representação virtual da minha pessoa a uma pequena representação virtual da Cake Shop, onde pude continuar acompanhando o show. Não havia seguranças mandões ou mau cheiro a enfrentar e meus sapatos não estavam recebendo rajadas de fluidos indeterminados. Se excetuarmos as pequenas flutuações na qualidade do vídeo, a noitada foi um sucesso ¿ pelo menos sob os meus critérios.
A despeito de saber que os estabelecimentos reais que os inspiram existem literalmente na porta ao lado, dediquei os últimos meses a visitas online como essa ao Virtual Lower East Side (http://www.vles.com), uma rede social 3D na Internet modelada cuidadosamente com base em uma porção pequena, mas influente, da região sul de Manhattan.
Como suas contrapartes de carne e osso, os residentes gerados em computador do VLES (cujo acesso ao público foi aberto na semana passada) podem caminhar livremente pela conhecida e um pouco sórdida região delimitada pelas ruas Houston e Rivington, fazer amigos, assistir a vídeos, ir a shows de rock, formar bandas e praticar as travessuras que os criadores do site decidam permitir, ao longo das madrugadas.
Se esse conceito já não fosse esquisito o bastante, o esforço de recriar online o espírito artístico e antenado e a geografia característica desse minúsculo e fértil bairro foi desenvolvido pela MTV, marca de entretenimento cujas especialidades são o apelo de massa e o gosto populista.
O projeto talvez também venha a representar a mais inovadora e mais abertamente cínica iniciativa desenvolvida pelo canal em muito tempo: uma tentativa escancarada de explorar o prestígio cultural do Lower East Side a fim de atrair novos consumidores e pessoas interessadas em novidades à esfera de influência da MTV.
O canal há mais de dois anos vem construindo uma coleção de sites de realidade virtual ao estilo do Second Life, com o objetivo de concorrer com populares redes sociais bidimensionais como o MySpace e Facebook. O grupo está apostando que o futuro das interações online não será construído com base em páginas de web chatas e estáticas, mas sim em espaços tridimensionais acessíveis aos usuários.
No final de 2006, a MTV criou o Virtual Laguna Beach, mundo virtual concebido para simular a comunidade de praia do sul da Califórnia que serve de locação a Laguna Beach: The Real Orange County, um semi-reality show produzido pelo grupo. Pouco depois, a empresa criou mundos virtuais baseados em outros de seus programas ¿ The Hills, Pimp my Ride, The Real World: Sydney e Kaya.
Ao mesmo tempo, estava desenvolvendo discretamente uma nova propriedade online que não se basearia em qualquer de seus programas de TV, mas sim em um ambiente de mundo real, com uma tradição de décadas de criatividade e uma personalidade dinâmica em movimento constante.
"Era uma maneira de recuperarmos as nossas origens e virtudes básicas: a descoberta de novas formas de música e a paixão por bandas novas, subversivas, underground", disse Van Toffler, presidente do grupo de música da MTV Networks e veterano com 20 anos de empresa.
O resultado é uma experiência que parece combinar traços do site de redes sociais Facebook e do videogame Grand Theft Auto, com pitadas do site Pitchfork, especializado em rock indie, acrescentadas para fim de tempero.
O mundo do VLES (que eu visitei em fase de testes, quando o site estava aberto a um número limitado de usuários e apenas por algumas horas a cada noite) é uma versão idealizada, à maneira da aldeia dos Smurfs, do Lower East Side real, mas ainda assim é instantaneamente reconhecível para as pessoas que passaram mais horas do que gostariam de admitir no Pianos, ou já foram vezes demais à Rosario Pizza para uma refeição na madrugada.
As avenidas do mundo virtual vivem um crepúsculo permanente, ligeiramente enevoado e livre de automóveis; pode-se divisar tráfego simulado, ao longe, mas os usuários do jogo podem caminhar pelas ruas sem medo de atropelamento pelo caminhão do MUD Coffee. Nem todas as empresas e lojas estão representadas, mas alguns dos marcos dos bairros estão presentes, do exterior iluminado em néon da Katz¿s Delicatessen (onde é possível encostar o nariz virtual de um avatar à vitrine enfeitada por salames, mas não se pode entrar) a um modelo completamente acessível do clube Max Fish, na íntegra, incluindo a foto autografada de Julio Iglesias que pende sobre o balcão do bar, a máquina de fliperama Piratas do Caribe e mensagens conhecidas rabiscadas nas paredes do banheiro.
Para definir o conteúdo desses ambientes para os quais o desmazelo é uma forma de estilo, os criadores do VLES recorreram a Judi Rosen, estilista e proprietária da loja The Good, the Bad and the Ugly, que fotografou figuras típicas do Lower East Side real.
Depois, uma série de avatares foram criados, usando como referência as fotos que ela tirou. "Não se pode ter um avatar genérico de skatista", disse Rosen. "Porque temos skatistas punk, skatistas hippies, skatistas pichadores, skatistas certinhos. Essas nuanças todas significam muito".
Demorei diversas semanas para criar coragem e vestir meu avatar com algo mais ousado do que jeans e uma camiseta branca, os trajes com que ele me foi fornecido. Há poucos dias acrescentei um casaco magenta, óculos modernos e um corte de cabelo anguloso, conhecido como "Crispin", ao conjunto. ("O avatar parece uma versão cool de você", minha namorada comentou.)
Minhas primeiras expedições pelo mundo virtual foram se eu estivesse estrelando minha versão pessoal do filme I Am Legend. As ruas estavam quase sempre vazias, e me apanhei passeando por simulacros cavernosos e despovoados do Dark Room e do Mercury Lounge. Um player de música que é parte integral do mundo virtual tocava David Bowie, Smiths e TV on the Radio sem parar. No palco de cada clube, vídeos de música eram exibidos em telas bidimensionais, mas não havia espectadores ou bartenders em nenhum deles. (Mesmo que eles pudessem me servir um Jack Daniels com Coca-Cola virtual, o que eu faria com ele?)
Então, pouco a pouco comecei a conhecer outros colegas de exploração, e a conduzir pequenas conversações com eles por um sistema de mensagens instantâneas, por meio de balões de textos que surgem por sobre a cabeça dos avatares. Certa noite, puxei conversa com uma jovem que usava óculos antiquados e superdimensionados e dizia se chamar Slim Morrison; o papo começou por uma troca de resmungos sobre nossa falta de planos para o Ano Novo, e terminei por lhe contar sobre o dia em que fiquei horrivelmente enjoado logo antes de um show do Wilco ¿ uma confissão estranhamente íntima a fazer diante de alguém que eu tinha conhecido apenas cinco minutos mais cedo.
Em outra noite, conheci o avatar de Annie Ok, a artista multimídia que se descreve como "pregadora dos universos paralelos". (Ela participa de todos os mundos virtuais, de Gaia Online a Neopets, e ajudou Brian Eno a criar seu avatar no Second Life.)
Poucas noites mais tarde, eu e a Ok real estávamos sentados no Life Café, na avenida B, e ela me explicou que nossa interação via Internet tinha o mesmo valor do que aquela que estávamos conduzindo diante de uma porção de fritas. "Não há como ir a um site bidimensional ou fórum de discussões e começar uma conversa instantânea com alguém que trabalhe para a MTV ou IBM, ou com o reitor da Universidade Harvard", ela me disse. "Mas essas coisas são possíveis em mundos virtuais. Você as experimenta como se fossem reais porque são, de fato, reais".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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MTV/The New York Times
Passeando pelo Lower East Side Virtual, avatar pára em frente a uma delicatessen
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