
Atualizada às 15h13 "Nashua: Acabo de ver Bill O¿reily aprontando em comício de Obama. Empurrando assessor de Obama". Com essas palavras grafadas sem cuidado, enviadas em uma mensagem de texto por John Dickerson, correspondente político da revista online Slate em 5 de janeiro, o microjornalismo atingiu a maioridade.
» Saiba mais sobre a eleição nos EUA
O encontro entre O'Reilly, apresentador do canal de notícias Fox News, e o assessor de campanha virou notícia real ¿ até certo ponto - durante um dia. (O New York Times publicou nota a respeito, por exemplo.) Mas ele surgiu primeiro em um ginásio de escola em New Hampshire, originado do BlackBerry de Dickerson.
Ele usa o Twitter ¿ um dos chamados serviços de microblogs - a fim de distribuir notícias em forma de mensagens de texto aos seus amigos do Facebook, bem como aos seus leitores da Slate, que publica os mais recentes itens noticiosos de Dickerson no Twitter além de seus textos mais longos.
O microjornalismo é o mais recente passo na evolução de Dickerson, que trabalhou por anos na revista Time e se adaptou dos textos de revista aos artigos online e posts de blogs, chegando agora às mensagens de texto, que não podem ser mais longas do que 140 caracteres, ou cerca de duas sentenças. "Uma das coisas que supostamente devemos fazer como jornalistas é levar as pessoas aos lugares a que não podem ir", ele declarou em entrevista. "É muito mais autêntico, porque realmente vem de dentro da sala".
Alguns podem considerar a idéia de uma avalanche de mensagens de texto sobre a campanha presidencial a pavorosa concretização final da obsessão da mídia com as declarações curtas. E acompanhar a cobertura da campanha via Twitter pode significar vasculhar montanhas de observações superficiais, críticas caluniosas e anônimas sobre candidatos e muito mais informações do que qualquer pessoa desejaria receber sobre as condições de viagem e a comida da classe jornalística.
Mas são informações genuínas e, em certos casos, reveladoras, o que é mais do que podemos dizer sobre os candidatos mesmos, que também adotaram o Twitter como forma de manter seus partidários atualizados. (O septuagenário Ron Paul, por exemplo, é um ardente usuário do Twitter, ao que parece, ainda que seu apego aos pontos de exclamação causaria rubor a um adolescente. Uma mensagem típica de Paul no Twitter: "Até agora na disputa eu recebi mais votos do que Fred Thompson ou Rudy Giuliani. A liberdade é popular!").
Em dezembro, Dickerson era um usuário solitário dos serviços de microblog como ferramenta de cobertura de campanha, e havia menos notícias urgentes a transmitir; por isso suas mensagens variavam de sarcásticas (antes do debate republicano em Johnston, Iowa: "Alan Keyes está aqui. Teremos gritaria") a pessoais ("ainda bem que o Marriott Des Moines melhorou sua academia"), com toques sentimentais como "Bing Crosby está cantando sobre o Natal e Barack Obama está na TV tentando desfazer a divisão entre os conservadores e liberais do país enquanto eu tento comer meu..." (o estrito limite de 140 caracteres ao que parece não foi tão fácil de acatar).
Agora ele conta com a companhia de pelo menos dois outros repórteres políticos ¿ Ana Maria Cox, da Time.com, que começou pouco antes do Ano Novo, e Marc Ambinder, que escreve um blog político para a revista "Atlantic" e passou a usar o Twitter na semana passada. "Provavelmente vou descobrir que isso só serve para encaminhar tráfego ao meu site", disse Ambinder.
Oliver Knox, correspondente da agência de notícias France Presse na Casa Branca, também começou recentemente a enviar mensagens via Twitter, ainda que ele enfatize que não usa o sistema para cometer jornalismo. "No momento, é mais pessoal do que profissional", disse. "O interesse profissional está apenas em acompanhar o desenvolvimento de ferramentas que poderão vir a ser úteis".
Como Knox deixa claro, notícias sempre vieram em tamanhos diferentes. A despeito dos novos aparelhos, o que esses jornalistas estão na verdade redescobrindo é a notícia em forma telegráfica ¿ o estilo resumido (e preferencialmente engraçado) que floresceu devido aos limites de espaço impostos por uma tecnologia do passado, a do telégrafo. Hoje, os limites de tamanho das mensagens de texto cumprem papel semelhante.
"É um sinal de como a geração atual se tornou impaciente", disse Cox. "Não preciso abrir o computador, e não posso usar mais de 140 caracteres". Ela diz que usa as mensagens curtas para "capturar o entusiasmo" dos eventos que está cobrindo, como a suíte de John McCain no dia em que o senador venceu a primária republicana em New Hampshire e ele teve de ir ao banheiro com Mike Huckabee para que os dois pudessem conversar de forma calma e silenciosa.
Pobre do leitor, no entanto. Quando leio as concisas reportagens de Cox ¿"McCain: 'Willford Brimmley é nossa resposta a Chuck Norris'" -, o potencial de paródia já parece elevado o bastante, e Cox costuma fazer paródias com freqüência suficiente para que eu decida verificar no jornal a fim de encontrar fotos corroborativas de McCain e Brimmley dividindo um microfone. "Se você só usar o Twitter para veicular suas notícias e só ler notícias no Twitter, provavelmente sairá mal informado", ela reconhece.
Para Josh Tyrangiel, editor executivo da Time.com, "o raciocínio que justifica a tentativa é semelhante ao que uso para muitas de minhas decisões de negócios: por que não?". Quanto mais o público ficar exposto a material do Time.com, melhor, e ninguém pode ser seletivo demais quanto a veículos. Por isso, Cox opera uma página no serviço de fotografia Flickr para suas fotos de campanha, e Tyrangiel também divulga esse material. Em última análise, é uma luta que não se pode vencer.
"Se você tenta dispor como as pessoas devem consumir conteúdo, elas o ignoram", ele afirmou, uma verdade que a experiência ensinou a muitos executivos de novas mídias. "Temos de deixar que as pessoas façam o que quiserem, e tentar encontrar espaço em seu círculo de escolhas".
The New York Times
|
The New York Times
Mensagens podem ter no máximo 140 caracteres
|
13h39 » Estudo compara evolução dos hackers com tráfico de drogas
11h52 » Twitter já tem 50 mil aplicativos compatíveis
10h13 » Presidente russo diz que 'se sente jornalista' com seu blog