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Sábado, 15 de março de 2008, 12h58

"Conservadores" ditam o ritmo da inovação tecnológica

Miguel Helft

O setor de tecnologia prospera com base em sua capacidade de vender novos produtos aos consumidores em ritmo cada vez mais rápido, e transformou muitas atualizações em processo indolores, que mal requerem um clique de mouse. Mas milhões de usuários de quase todos os tipos de tecnologia e serviço de Internet, dos browsers Netscape à conexão discada, passando por velhos programas de e-mail, ainda continuam a ignorar as novas ofertas, optando pela imobilidade - ou, no mínimo, acompanham a tecnologia no ritmo que lhes é mais conveniente. Os especialistas dizem que estes "conservadores" da tecnologia não são necessariamente inimigos das novas idéias, e desempenham papel crucial para determinar o ritmo da inovação.

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Sempre que abria seu browser Netscape, da metade de fevereiro em diante, John Uribe era recebido por uma mensagem que o convidava a adotar um dos dois sucessores do programa: o Firefox ou o Flock. Em 1° de março, o aviso dizia, a America Online suspenderia sua assistência e desenvolvimento do Netscape. Uribe, 56, corretor de imóveis em Waldorf, Maryland, optou por ignorar todas as mensagens.

"É meio irracional", ele disse, enquanto a data fatídica se aproximava. "Para mim o programa funciona, e por isso fiquei com ele. Até que surja uma razão real para abandoná-lo de vez, pretendo continuar assim".

Uribe, que admite abertamente a sua condição de retardatário tecnológico, é um destes usuários renitentes. Ele continua a ter acesso discado à Internet, em casa, e não anseia pelos mais recentes aparelhos eletrônicos. Está satisfeito com seu computador Dell envelhecido, que segundo ele tem memória ridiculamente pequena.

E ele não está sozinho. Em fevereiro, usuários do Netscape respondiam por 0,14% do total de internautas, de acordo com a OneStat.com, uma empresa que acompanha o tráfego de Internet. Trata-se de uma minúscula fração do mercado, mas que continua a representar mais de um milhão de usuários, muitos dos quais equipados com versões antigas do programa.

Enquanto isso, mais de nove milhões de pessoas continuam a pagar entre US$ 10 e US$ 25 ao mês pelo serviço de conexão discada da AOL. O acesso discado é uma atividade em decadência rápida, mas não chegou à insignificância até agora. E respondeu pela maior parte dos US$ 5,2 bilhões em receita que a America Online registrou no ano passado.

O Yahoo atualizou seu popular serviço de web mail no ano passado, mas dezenas de milhões de pessoas continuaram a optar pelo formato clássico do serviço. E a Well, uma comunidade online pioneira criada em 1985, ainda atende a muitos usuários que se comunicam por um arcaico sistema que só permite mensagens de texto, ainda que uma interface gráfica para a web exista há anos.

"Todos os outros espaços de diálogo na rede dispõem de uma barra de ferramentas na qual você pode escolher caretinhas", diz David Gans, um músico e apresentador do rádio que participa da Well há 22 anos. Gans diz que continua a usar a interface de texto do sistema em parte porque isso o ajuda a manter elevada a qualidade da conversa.

"Só porque você tem um treco atômico que consegue secar suas roupas em cinco minutos não significa que pendurar as roupas no varal do quintal e papear com o vizinho ao fazê-lo tenha perdido a graça", ele afirma.

Novo nem sempre quer dizer melhor, evidentemente, e as pessoas se apegam a tecnologias existentes por diversas razões, entre as quais lealdade, satisfação com aquilo de que dispõem, medo de perder tempo com atualização ou até mesmo inércia.

Na era do Facebook, dos blogs e de serviços de microblogs como o Twitter, essas são forças que as empresas de tecnologia precisam compreender e atender, à medida que apostam seu destino na capacidade de comercializar uma corrente quase contínua de novos produtos e atualizações.

"Os retardatários têm má fama, mas eles são cruciais para equilibrar o ritmo da mudança", disse Paul Saffo, especialista em previsões sobre tecnologia no Vale do Silício. "Inovação requer o impulso dado pelas pessoas que adoram novidades e a resistência das pessoas que querem saber se alguma coisa realmente funciona antes que a adotem. Se vivêssemos num mundo em que as escolhas fossem ditadas apenas pelas pessoas que adotam produtos primeiro, nós todos estaríamos usando rádios walkie-talkie e aparelhos de som quadrifônicos".

Usuários misturam o novo e o velho
Saffo afirma que uma mesma pessoa pode ser em parte retardatária e em parte promotora de mudança. A pessoa que compra a mais avançada câmera digital mas utiliza apenas uma pequena proporção dos recursos oferecidos, ou ostenta com orgulho o seu iPhone, talvez continue a pagar suas contas usando um antiquado talão de cheques, em lugar de pela Internet.

Aos 81 anos de idade, Jerry Gropp, um arquiteto da área de Seattle, tem um pé em cada lado da questão. Ele tem uma conexão de alta velocidade à web e contas de e-mail no Yahoo e no Hotmail. Mas ainda paga pelo serviço discado da AOL, principalmente porque o serviço de e-mail incluído torna mais fácil para ele incluir mapas, fotografias e notas no corpo das mensagens, em vez de anexar arquivos.

"Estou nisso há cerca de 20 anos", diz ele em relação ao serviço da AOL. "Às vezes, o velho pode ser o melhor, combinado com o novo", explica.

Muita gente se apega a velhas tecnologias por nostalgia. Isso influencia a lealdade de Uribe ao Netscape, por exemplo, ainda que o browser nos últimos anos tenha se tornado quase idêntico ao Firefox.

Ainda assim, na semana passada Uribe relutantemente trocou de browser, depois de ler um artigo que dizia que o Netscape, sem assistência, poderia se tornar alvo de hackers ou criadores de vírus. "Não vou continuar usando o Netscape por nostalgia", ele disse em mensagem de e-mail. "Importei meus bookmarks para o Firefox e vou apagar o Netscape, para fugir da tentação".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

Kevin P. Casey/The New York Times
O arquiteto Jerry Gropp, 81 anos, mantém uma conexão discada pela facilidade de uso de alguns serviços
O arquiteto Jerry Gropp, 81 anos, mantém uma conexão discada pela facilidade de uso de alguns serviços

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