
Kevin O¿Brien
Delegações de 87 países deveriam votar até o final do prazo estabelecido pela Organização Internacional de Padronização (ISO), que se esgotou no sábado. O selo ISO oferecido pela organização sediada em Genebra pode influenciar as compras de software de alguns governos e grandes empresas. Os defensores e oponentes do padrão proposto pela Microsoft, conhecido como Office Open XML, ou Ooxml, se recusaram a prever o desfecho na sexta-feira, e uma projeção dos votos compilada pela delegação da Malásia não permite prever o vitorioso. Sandrine Tranchard, porta-voz da ISO, informou que a organização publicaria os resultados do processo no começo da semana.
Os especialistas setoriais afirmam que o resultado da votação sobre a especificação Ooxml, um documento de seis mil páginas, envolvia complexos debates técnicos sobre codificação e licenciamento de software, e poderia ter ramificações comerciais para a Microsoft e para a IBM e a Sun Microsystems, que ajudaram a desenvolver uma tecnologia rival, chamada OpenDocument Format (ODF).
O formato ODF até o momento é o único para documentos intercambiáveis que porta selo ISO, um endosso que seus promotores usam para promover a tecnologia junto a governos e empresas de todo o mundo. O formato ODF, disponível em www.OpenOffice.org, permite que usuários salvem documentos de texto e planilhas em muitos formatos, entre os quais os da Microsoft.
Esta, diante de crescentes demandas de clientes por formatos intercambiáveis, respondeu com o desenvolvimento da Ooxml, mas inicialmente não permitia que os usuários salvassem os documentos em formato ODF. A Microsoft terminou por ceder e financiou uma atualização de software distribuída gratuitamente que permite que usuários do Ooxml salvem documentos no formato rival. O Ooxml foi designado padrão europeu em dezembro de 2006 por um grupo conhecido como ECMA, a antiga Associação Européia de Fabricantes de Computadores.
Por meio da ECMA, a Microsoft tentou obter aprovação para o Ooxml em via expressa na ISO, mas não conseguiu reunir os votos necessários em uma primeira rodada de votação, em setembro. Em fevereiro, a ISO realizou uma reunião fechada de cinco dias em Genebra para discutir a proposta, durante a qual a Microsoft tentou adaptar suas especificações do Ooxml a fim de superar objeções.
A segunda e decisiva rodada de votação foi iniciada em seguida. Até a sexta-feira, alguns países, como Estados Unidos e Romênia, haviam reafirmado seu apoio à proposta da Microsoft. A República Tcheca mudou de posição, e passou a apoiar o padrão, e Cuba mudou no sentido oposto, passando a rejeitá-lo, de acordo com declarações das respectivas delegações nacionais.
Esforços de lobby de parte da Microsoft, IBM e Sun influenciaram o debate, o que causou controvérsia em algumas delegações.
A Suécia abandonou seu apoio ao padrão no ano passado, mencionando irregularidades de votação ¿um dos votantes teria aparentemente votado duas vezes. O país decidiu se excluir do processo, e não votou nem mesmo em forma de abstenção. Na Alemanha, Christian Ude, prefeito de Munique, uma cidade que está substituindo parte de seu software Microsoft por outros produtos, instou seu governo a rejeitar a proposta da empresa, em carta aberta ao governo. A delegação da Malásia, objetando ao pesado lobby de ambas as partes, na semana passada exclui representantes da IBM e da Microsoft de todas as suas reuniões.
A decisão da ISO esta semana, disse um pesquisador do setor, pode influenciar decisões de investimento em software por parte de governos e algumas empresas, mas é improvável que afete imediatamente a situação de uso de documentos eletrônicos em todo o mundo, que está sob o domínio da Microsoft há um bom tempo por meio de versões sucessivas de seu pacote de aplicativos Office.
"A Microsoft representa um padrão, na prática", disse Melissa Webster, vice-presidente de conteúdo e tecnologia de mídia do grupo de pesquisa IDC. "Em pesquisa recente, 97% dos entrevistados responderam que estavam usando alguma versão do Microsoft Office", ela diz.
Mas a rejeição do Ooxml pela ISO poderia ajudar o padrão ODF, que está sendo considerado para uso por mais de 70 governos nacionais em todo o mundo, disse Jonathan Zuck, da Associação de Tecnologia Competitiva, um grupo sediado em Washington e parcialmente bancado pela Microsoft que congrega quatro mil empresas nos Estados Unidos e na Europa.
"Temos uma batalha puramente comercial disfarçada em debate moral sobre os padrões para documentos abertos", disse Zuck, cujo grupo defende que o Ooxml recebe um selo ISO. Ele classificou os esforços de lobby da Sun e IBM como "incrivelmente venenosos", mas também culpou a Microsoft por ter resistido inicialmente aos apelos para publicar seu padrão para documentos, o que segundo ele permitiu que o ODF ganhasse mercado junto a governos e empresas que não querem depender da Microsoft.
"Caso a Microsoft tivesse aberto o jogo mais cedo, não estariam enfrentando os problemas que enfrentam agora", afirmou Zuck.
Herald Tribune
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