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Terça, 15 de abril de 2008, 15h42 Atualizada às 15h41

Homem usa computador para gerar mais de 200 mil livros

Noam Cohen

Não é fácil escrever um livro. Primeiro é preciso escolher um título. Depois, o sumário. Caso você deseje que o livro seja classificado por bibliotecas e livrarias, é preciso obter para ele um código numérico, como o ISBN (número padronizado internacional para livros). É preciso que as margens sejam decididas. E há também o problema da quarta capa. E, claro, há também aquela parte do meio. O texto. Philip M. Parker parece ter dominado completamente o sistema. Ele já gerou mais de 200 mil livros, como demonstra uma busca pelo nome de sua editora no site da Amazon.com, o que o torna, em suas palavras, "o autor mais publicado da História". E Parker ganha dinheiro com isso.

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Os livros publicados sob o seu nome são mais compilações do que criações, e Parker provavelmente deveria ser definido como compilador e não como escritor. Ele trabalha como professor de inovação, negócios e sociedade na Insead, uma escola de administração de empresas com campi em Fontainebleau, na França, e em Cingapura, e desenvolveu algoritmos de computador que recolhem informações publicamente disponíveis sobre um tema ¿ conhecido ou obscuro - e, com a ajuda de 60 ou 70 computadores e seis ou sete programadores, faz delas livros em diversos gêneros, muitos deles com tamanho da ordem de 150 páginas e impressos apenas quando um cliente encomenda um exemplar.

Pode parecer trapaça, aos olhos de um leigo, mas Parker discorda. O compilador defende idéias provocantes - e aparentemente lucrativas - quanto ao que define um livro. Embora os mais populares de seus livros vendam centenas de cópias, é comum que a tiragem seja de apenas algumas dezenas de exemplares, quase todos vendidos a bibliotecas médicas que adquirem quase tudo que ele produz.

Ele estendeu sua técnica às palavras cruzadas, poemas rudimentares e até roteiros de programas de TV. E está estabelecendo as bases para romances de amor gerados por uma série de novos algoritmos. "Eu já montei o sistema", ele afirmou. "Afinal, o corpo humano tem um número limitado de partes".

Folheando um livro como o manual que prevê vendas de pisos de banheiro na Índia (um dos trabalhos compilados pelo sistema de Parker), o leitor encontraria dificuldades para encontrar uma sentença ao menos "escrita" pelo computador. Ao abrir o livro, um leitor encontra a folha de rosto, um sumário bastante detalhado e muitas páginas de gráficos, com pequenos textos introdutórios genéricos adaptados ao conteúdo e gênero específico.

Embora não haja notificação nos livros de que eles foram gerados em computador, um leitor, David Pascoe, parece ter chegado perto de desvendar o mistério sem ajuda, com base em comentários que ele escreveu em 2004 no site da Amazon. Revisando um guia sobre uma doença de pele conhecida como "rosácea", o australiano Pascoe se queixou de que "o livro é mais um modelo de 'busca genérica de saúde' do que algo específico sobre a doença. A informação é tão genérica que gerar um guia sobre outro tópico médico com o mesmo texto requereria apenas uma substituição das palavras relevantes".

Quando informado por e-mail de que sua suspeita procedia, Pascoe respondeu: "Bem, creio que o fato de que o livro fosse tão ruim e tão frustrante agora faz sentido". Parker está disposto a admitir boa parte do argumento de Pascoe. "Se você souber pesquisar na Internet, esse livro não serve para muita coisa", disse, acrescentando que Pascoe simplesmente não deveria tê-lo comprado. Mas Parker acrescenta que pessoas menos familiarizadas com a Internet consideram que livros como esse sejam úteis.

Ele decidiu se dedicar a esse projeto em um esforço por automatizar trabalho chato ou difícil. Comparando-se a um discípulo distante de Henry Ford, ele disse que estava "desconstruindo o processo de levar um livro ao leitor, e automatizando cada passo possível do processo". Ele acrescentou que "meu objetivo não é que o computador escreva um texto, mas que ele execute as tarefas repetitivas que seria dispendioso demais realizar de outra maneira".

Em entrevista, de sua casa em San Diego e de seu escritório, na vizinhança, ele descreveu sua motivação como oferecer conteúdo que o mercado tivesse negligenciado devido à falta de uma audiência clara. Isso pode implicar que uma linguagem relativamente obscura, ou uma doença relativamente obscura, ou um produto relativamente obscuro se tornem temas.

Um exemplo é o estudo dos pisos de banheiro na Índia. "Talvez apenas uma pessoa no mundo tenha interesse por isso", ele reconheceu. "Possivelmente um planejador estratégico de uma multinacional que fabrique esse tipo de coisa". Mas ele aponta que, depois de treinar o computador para recolher dados sobre vendas passadas e realizar cálculos complexos sobre vendas futuras, o custo de cada livro novo para ele é de US$ 0,12 em eletricidade.

Já que eles são distribuídos eletronicamente e vendidos por encomenda, basta uma venda para que ele esteja no lucro, diz Parker. Sua empresa, o Icon Group Internacional, é a longa cauda de uma curva de sino exibida em forma concreta, e gera vendas totais significativas com base em um catálogo de títulos que ninguém imaginaria possível vender.

O Icon "é um exemplo muito inovador e interessante de editora que opera por encomenda", disse Kurt Beidler, um executivo da Amazon.com que cuida dos serviços editoriais da BookSurge, a divisão da Amazon que produz livros sob encomenda. "Muitos dos exemplos de livros impressos por encomenda envolvem títulos antigos, que caíram em domínio público, e são reimpressos. Mas eles operam como um negócio novo, e utilizam essa capacidade a fim de apresentar material inédito aos consumidores".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

Sandy Huffaker/The New York Times
Philip M. Parker posa no escritório de sua editora, a Icon Group International, em San Diego (EUA)
Philip M. Parker posa no escritório de sua editora, a Icon Group International, em San Diego (EUA)

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