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Divorciados "detonam" ex-parceiros na Internet

23 de abril de 2008 08h58 atualizado às 09h44

Penelope Trunk escreveu sobre o fim do seu casamento de 15 anos. Foto: Andy Manis/The New York Times

Penelope Trunk escreveu sobre o fim do seu casamento de 15 anos
Foto: Andy Manis/The New York Times

Semana passada, o potencial da Internet para expor e desgraçar pessoas cujos casamentos estejam se desfazendo ganhou contornos desagradáveis quando Tricia Walston Smith, que está em processo de divórcio do executivo de teatro Philip Smith, veiculou um vídeo na Internet anunciando que os dois jamais tinham feito sexo, mas que havia apanhado o marido formando um estoque de Viagra, pornografia e camisinhas.

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O advogado de Philip Smith, David Aronson, previsivelmente classificou o vídeo como "lastimável", e declarou que "Smith é um homem muito discreto, e isso é evidentemente embaraçoso".

Mas em uma era na qual mais de 10% dos usuários adultos de Internet dos Estados Unidos mantêm blogs, de acordo com o Pew Internet and American Life Project, muita gente está usando a web para contar seu lado de uma saga matrimonial - e, evidentemente, em um processo de separação, a verdade de um pode ser a mentira de outro. Mesmo que um casamento esteja juridicamente encerrado, as confissões podem se perpetuar, em uma série de posts enraivecidos ou deprimidos.

Ocasionalmente, os posts surgem de maneira furtiva. Mas quando o ex-cônjuge sabe que está estrelando um blog raivoso, e abre um processo para impedir que isso continue, recentes decisões judiciais em Nova York e Vermont demonstraram que os tribunais relutam em intervir.

Para o autor do blog, a escrita pode ser terapêutica. Até a manhã em que seu marido, David Sals, a informou de que, para ele, "o casamento havia acabado", Jennifer Neal o tratava com tanto carinho no blog que o termo usado para designá-lo era "DearSweetDave" - "querido e doce Dave".

Mas pela tarde do mesmo dia, Neal já havia informado os 55 mil visitantes que ela alega lêem seu blog, o NakedJen.com, regularmente, sobre a deslealdade. Não demorou para que o apelido carinhoso fosse substituído por algo bem mais hostil, e para que Sals fosse retratado como um homem insensível a ponto de causar vômitos diários a Jen, e de deixá-la pobre e sem abrigo, porque a blogueira perdeu a casa em que vivia, em Santa Cruz, Califórnia.

E quando a desesperada Jen descobriu, em fevereiro, que seu ex-marido havia publicado um perfil em um site de encontros, ela postou um link para o perfil no blog, a fim de permitir que seus leitores dissessem ao ex o que pensavam sobre a atitude dele.

Sals protestou, mas Neal não cedeu: "Se ele quer contar o lado dele da história, que crie um blog".

Sals afirma que já não lê o blog da ex-mulher, mas que seus parentes ainda o fazem e ocasionalmente se irritam. "Nunca tentei fazer com que ela parasse, mas certamente tive de me ajustar à perda de minha privacidade", ele afirma.

É impossível dizer quantas pessoas usam blogs para falar de seus divórcios, mas o número de blogs pessoais quadruplicou em cinco anos, de acordo com Mary Madden, pesquisadora sênior do Pew e especialista em relacionamentos online. Ela disse que, em momentos de turbulência emocional, algumas pessoas recorrem à web. "É uma página em branco na qual podem despejar todas as frustrações e emoções de uma crise pessoal", disse Madden.

Certamente haverá conseqüências no futuro, dado o excesso de informações divulgadas. "O impacto em longo prazo da informação persistente na Internet ainda não se fez sentir", diz Madden.

"As pessoas tendem a acreditar que estão escrevendo seu blog para um pequeno grupo de amigos, ou que suas identidades ficarão desconhecidas", ela diz. Mas isso não procede, porque "basta que um amigo poste um link para o seu blog e a pessoa estará identificada".

Laurie, de Manhattan, começou um podcast sobre seu divórcio, DivorcingDaze.com, em 2006. A cada semana, ela e uma amiga divorciada se reuniram para beber vinho e gravar suas discussões sobre o assunto do dia - spas, namorados, o caso do governador Eliot Spitzer - e depois postá-las na web.

Laurie nunca disse ao ex-marido que estava produzindo o podcast, porque via a atividade como terapia, e não revanche, diz. Ela não usa o sobrenome de seu ex-marido no programa, e pediu que os sobrenomes de ambos não fossem revelados neste artigo.

Mas ela não alega imparcialidade. Os 10 mil ouvintes que baixam DivorcedDaze a cada mês já ouviram Laurie contar que tinha descoberto um caso entre o ex-marido e a chefe dele ao ler um e-mail em seu Blackberry, e que o marido havia dito à filha mais velha do casal que não tinha traído a mulher porque, para ele, o casamento já havia acabado.

"Estou completamente consciente de que, se ele contasse seu lado da história, seria completamente diferente do meu", diz Laurie.

Tão diferente, aliás, que o ex-marido abriu processo contra ela ao descobrir os programas, no ano passado. Argumentou que eles incluíram afirmações "incômodas, caluniosas ou ofensivas", e que violavam os termos do divórcio, sob os quais Laurie se comprometia a não "difamá-lo" ou "perturbá-lo".

O caso foi decidido algumas semanas depois pela corte suprema do Estado de Nova York, segundo a qual as queixas não representavam motivo suficiente para proibir os programas. Embora as declarações de Laurie possam ser "pouco judiciosas e prejudiciais em termos da criação conjunta dos filhos", os juízes escreveram, elas ainda assim estavam protegidas sob as leis de liberdade de expressão.

Os advogados especialistas em divórcios estão atentos. Deborah Lans, do Cohen Lans, um escritório de Manhattan que vem prosperando com casos de dissolução de matrimônios, disse que "a última coisa que alguém deseja é que pessoas furiosas façam declarações impensadas".

Lans diz que os acordos de divórcio que seu escritório negocia incluíam cláusula de confidencialidade que proíbe qualquer das partes de divulgar nem mesmo relatos de ficção baseados no relacionamento. Nem todos os advogados adotam esse tipo de cláusula, no entanto, e o juiz que presidiu o caso de Laurie apontou para sua ausência.

Para algumas ex-mulheres amarguradas, o prazer da vingança não é a única recompensa. Escrever sobre divórcio pode ser bom para os negócios. "Os blogueiros que estão se dando melhor são aqueles que falam mais das suas vidas pessoais", disse Penelope Trunk, autora do blog The Brazen Careerist, que escreveu muito no passado sobre o fim de seu casamento de 15 anos.

Trunk escreveu sobre a ida ao que ela pensava ser a primeira sessão de terapia de casal, quando descobriu que estava em um escritório de advocacia especializado em divórcios. Este foi um de seus posts mais populares. Mais triste ainda foi quando ela escreveu sobre os problemas de um filho que tem síndrome de Asperger, e disse que tanto ela quanto o marido acreditavam que os desafios na criação dele ajudaram a causar o divórcio.

Mas este tipo de sinceridade brutal não é boa idéia para as crianças, principalmente porque a maior parte já tem sentimento de culpa em relação ao divórcio dos pais, segundo a Dra. Irene Goldenberg, professora emérita de psiquiatria na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. "Não é bom para as crianças saber de informações pessoais desse jeito", ela disse. "E as pessoas precisam pensar antes de tomar atitudes de cabeça quente. O modo como elas se sentem agora não é o modo como se sentirão em dois anos, e não há como voltar atrás".

Trunk discorda. "É uma questão de gerações", ela disse. "Pensamos que vai ser grande coisa, mas não será para eles. Quando tiverem idade suficiente para ler tudo isso, eles já vão ter passado a vida toda online. Vai ser algo como 'ah, era o que eu esperava'."

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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