
Atualizada às 15h06 Os muffins estão rodando. Os carros muffin, veículos elétricos construídos para se parecerem com os tradicionais bolinhos norte-americanos, percorrem os espaços abertos no Centro de Exposições e Eventos de San Mateo, um grande complexo de exposições localizado cerca de 30 quilômetros ao sul de San Francisco, a um milhão de quilômetros da normalidade. Basta cruzar os portões da Maker Faire para ouvir um caminhão de bombeiros convertido disparando um facho explosivo ocasional com um ruído surdo que ecoa por toda a feira, causando seguindo sustos aos visitantes.
A engenhoca foi criada pelo pessoal do Crucible, um estúdio de arte industrial de Oakland, na Califórnia, no qual pessoas podem estudar para aprender a soldar, a trabalhar como ferreiros e a descobrir muitas outras formas de trabalhar com o ferro e o fogo.
Ali perto fica o Swarm (enxame), um grupo de globos de alumínio com 75 centímetros de diâmetro que rolam pela grama, autopropulsados e dirigidos por meio de um controle remoto. Crianças brincam de pegador com os aparelhos.
Mas elas não estão brincando com as esculturas de fogo de Justin Gray, que estão posicionadas por perto. Talvez isso tenha alguma relação com o fato de que elas se parecem com tanques ameaçadores, rodando sobre lagartas rangentes. Ou o problema pode ser Robot Libby, uma engenhoca que emite um ruído de turbina horripilante, vindo de uma bola metálica que oscila na ponta de uma corrente grossa e despeja rajadas de chamas multicoloridas. (Enquanto Gray manipula o controle remoto, a máquina mistura diferentes produtos às chamas para alterar a cor.) Cada rajada gera uma onda de calor que faz com que os espectadores recuem um ou dois passos.
À primeira vista, o festival promovido pela revista Make é uma reunião de piromaníacos e de viciados em barulho, pessoas com múltiplas tatuagens e piercings. Mas basta caminhar um pouco e a superfície exibicionista se abre para exibir algo de maravilhoso: uma reunião de pessoas de todas as origens e profissões que gostam de misturar ciência, artesanato, tecnologia e arte para produzir engenhocas tanto absurdas quanto grandiosas.
"Estamos tomando a tecnologia, desmantelando as coisas um pouco e mexendo no que não deveríamos", disse Shannon O'Hare, que trouxe ao evento sua mansão vitoriana de três andares sobre rodas, um dos exemplos mais vistosos do estilo anacrônico conhecido como "steampunk". Ele usa um uniforme militar britânico antigo e um capacete de cortiça, e gesticula com uma mão que ao mesmo tempo segura uma caneca monstro de cerveja.
"As grandes empresas dos Estados Unidos nos disseram que não podemos mexer nas coisas que compramos", diz O'Hare, que atende pelo pseudônimo de Major Catastrophe em seu trabalho como criador de artefatos para filmes, peças de teatro e empresas. "Tudo que eles nos permitem fazer é comprar o que produzem e gostar dos produtos".
Os carros se tornaram complicados demais para que as pessoas possam alterá-los nos quintais de suas casas, e pouca gente faz idéia do que existe dentro de um celular ou câmera. "Toda essa tecnologia, e nada nos pertence", disse O'Hare. "O evento e a revista propõem que a gente retome o controle e tome posse de todas essas coisas".
Os adeptos desse passatempo são uma turma muito diversificada. Cris Benton, ex-diretor do departamento de arquitetura da Universidade da Califórnia em Berkeley, estava na feira, e explicava pacientemente como ele e alguns amigos de gosto semelhante tiram fotos aéreas suspendendo as câmeras em pipas, uma mistura astuciosa de tecnologia avançada e de artesanato tradicional.
No edifício vizinho, um pavilhão às escuras, Terry Schalk, professor da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, acionava um imenso arco de Tesla, causando faíscas e relâmpagos, na esperança de atrair o interesse das crianças para a ciência. "Todo mundo aqui é nerd", diz Schalk, um físico cuja especialidade é a alta energia, nos dois sentidos da expressão. "Se eu fosse criança, eu molharia as calças em um lugar como esse", brincou.
Cerca de 65 mil pessoas vieram assistir à imensa exibição de inventividade e de diversão potencialmente perigosa. Muitos deles são leitores da revista Make e de Craft, publicação do mesmo grupo, e são visitantes freqüentes de sites como o Instructables.com, que encorajam as pessoas a realizar esse tipo de projeto e mostrar aos outros o que realizaram. (Alguns dos projetos online recentes mostram como converter um telefone em forma de batata frita em um estojo para transporte de iPods, como usar um velho chip Pentium da Intel, conectado a uma porta USB, para esquentar café em um computador, e como construir um robô vibratório, um projeto que o site recomenda para promover a união entre pais e filhos.)
Os McGyvers de sofá visitam sites, como o BoingBoing.net, que acompanham carinhosamente os projetos mais audaciosos que estão em exibição aqui e em eventos como o anárquico festival Burning Man, no deserto de Nevada. Essas comunidades sobrepostas,um tanto incestuosas, formam um movimento cuja proposta é fazer coisas por conta própria, e aprender com isso. Em uma era na qual praticamente todas as atividades humanas, das compras ao sexo, podem ser realizadas em forma virtual, eles optam por sujar as mãos.
Roxanne Stafford, uma designer que visitou a feira sem saber muito a respeito, disse que estava "um pouco espantada" com o tamanho, variedade e ruído.
Mas ela diz que há uma mensagem implícita em tudo isso. Ela diz que, com base nas notícias, seria fácil concluir que as pessoas só produzem coisas e usam tecnologia "para destruir umas às outras". "Mas coisas como a Maker Faire geram esperança", afirma. "A criatividade é a maior expressão de humanidade".
The New York Times
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Peter DaSilva/The New York Times
Globo de alumínio guiado por controle remoto segue garoto rolando pela grama no Maker Faire
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