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Terça, 10 de junho de 2008, 15h18 Atualizada às 15h17

Livro eletrônico ainda é polêmico no meio editorial

Edward Wyatt

Será que os livros eletrônicos estão se aproximando do momento em que conquistarão o mercado?

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O assunto tanto animou quanto enervou os presentes à BookExpo America, a maior feira editorial e do varejo livreiro norte-americano, que acontece anualmente em Los Angeles e terminou neste domingo.

Boa parte das discussões giraram em torno do Kindle, o leitor eletrônico da Amazon, que vem conquistando muitos elogios por sua facilidade de uso. Jeff Bezos, fundador e presidente-executivo da Amazon, passou boa parte de sua procurada palestra da sexta-feira tecendo louvores ao Kindle, que segundo ele já responde por 6% das vendas de livros de sua empresa em termos de volume, para os títulos que estão disponíveis tanto em papel quanto em formato eletrônico.

Mas a animação quanto ao Kindle, lançado em novembro, também preocupa alguns executivos do setor editorial, que temem o poder que não pára de crescer da Amazon como vendedora de livros. Esses executivos apontam que a Amazon atualmente vende a maioria de seus livros para os usuários do Kindle a um preço muito inferior ao que paga às editoras, e antecipam que não vá demorar muito mais para que a empresa comece a usar o sucesso do leitor eletrônico como alavanca para forçar um corte de preço pelas editoras.

Em termos gerais, o público que compareceu à feira editorial parecia menor do que em anos anteriores, talvez refletindo o fato de que muitos editores tenham optado por não fazer a longa viagem, de Manhattan, bem como a desaceleração no crescimento do mercado editorial.

Enquanto autores como William Shatiner, Andre Dubus III e Ty Pennington atraíram grandes platéias de livreiros em busca de autógrafos, diversos livros de autores menos conhecidos que têm seu lançamento marcado vinham sendo promovidos agressivamente pelas editoras. Entre esses títulos, havia dois que utilizavam bruxas, ou algo assim, como protagonistas, e um cuja autora está treinando como xamã.

Um deles, The Heretic's Daughter ("A filha do herege") trata de Martha Carrier, a primeira mulher a ser acusada, julgada e enforcada como feiticeira em Salem, Massachusetts. A autora, Kathleen Kent, é descendente em 10ª geração de Carrier (ainda que não seja praticante da feitiçaria, de acordo com Reagan Arthur, editora da Little, Brown, a empresa responsável pelo livro). Outro livro, The Lace Reader ("A leitora de rendas"), de Brunonia Barry, se passa na Salem atual, e a protagonista é descendente de uma família capaz de ler o futuro nos padrões das rendas. O romance, que sai em julho pela William Morrow, já tinha sido lançado pela autora como trabalho independente.

Kira Salak, a autora do terceiro desses romances, The White Mary, aproveita suas viagens pela Papua Nova Guiné para criar uma história que envolve um jornalista em busca de um repórter desaparecido, supostamente morto por suicídio, mas que na verdade talvez ainda esteja vivo. Sarah Knight, da editora Henry Holt, que lança o livro, diz que a autora treinou para ser xamã no Peru.

Os livreiros, que representam o outro grande grupo de visitantes da exposição, também estão preocupados com a possibilidade de que os livros eletrônicos provem que podem ser mais que uma moda passageira para os adeptos da tecnologia, entre os consumidores de livros.

"A situação certamente parece ameaçadora", disse Charles Stillwagon, gerente de eventos da Tattered over Book Store, uma grande livraria independente em Denver.

Quase todas as editoras afirmam que suas vendas de livros eletrônicos vêm crescendo exponencialmente. Carolyn Reidy, a presidente-executivo da Simon & Schuster, disse que as vendas de livros eletrônicos de sua empresa mais que dobrarão este ano, ante o ano passado, quando cresceram em 40% diante dos totais de 2006. David Shanks, presidente-executivo do Penguin Group nos Estados Unidos, informou que sua empresa vendeu mais livros eletrônico nos quatro primeiros meses de 2008 do que em todo o ano passado.

Os números continuam baixos, o que ajuda a explicar o rápido crescimento percentual. Reidy diz que as vendas de livros eletrônicos no ano passado responderam por apenas US$ 1 milhão do faturamento total de US$ 1 bilhão que a empresa registrou. A Simon & Schuster anunciou a conversão de mais cinco mil títulos ao formato eletrônico, este ano, o que mais que dobraria seu catálogo de livros eletrônicos, e que apresentaria versões eletrônicas de muitas das obras cujas vendas vêm sendo consistentemente fortes, em seu catálogo.

Os livros eletrônicos existem desde 1968, e estão conquistando atenção mais ampla pelo menos desde 2000, quando Stephen King, em apenas dois dias, vendeu 600 mil cópias de Riding the Bullet, um livro de suspense distribuído apenas em formato eletrônico. Agora, porém, "finalmente estamos no ponto de aceitação pelo mercado de massa", disse Reidy.

Boa parte do crescimento previsto para os livros eletrônicos pode ser vinculado ao Kindle. Quando a Amazon lançou o produto, esgotou o estoque disponível do aparelho no primeiro dia. Foram precisos meses para que ela ajustasse sua capacidade de produção e cadeia de suprimentos a fim de poder manter um estoque de Kindles, situação que Bezos diz que agora foi atingida.

O principal concorrente do Kindle é o Sony Reader, que está no mercado desde 2006 e ajudou a reforçar as vendas de livros eletrônicos. Alguns críticos de tecnologia definiram o Kindle como um aparelho superior, porque ele baixa livros, jornais diários e revistas por uma conexão sem fio. O Sony Reader utiliza uma conexão via cabo ou telefone.

Mesmo Bezos afirma que não existe expectativa de que os livros eletrônicos substituam as versões em papel, em curto prazo. "Qualquer coisa capaz de durar 500 anos não é um produto passível de melhoras fáceis", disse ele. "Livros são tão bons que é impossível superá-los dentro de seu formato".

Mas ele alega, igualmente, que os usuários do Kindle estão comprando mais livros em papel, e não estão simplesmente substituindo um formato pelo outro. Bezos afirma que, depois de comprar um Kindle, os clientes da Amazon continuam comprando o mesmo número de livros em papel, e duas vezes e meia mais livros, no total, ou três livros eletrônicos para cada dois livros em papel.

Alguns executivos do setor editorial contestam essa alegação. "Não vemos pessoas comprando as duas versões", disse Shanks. "Creio que a substituição dos livros de papel pelos eletrônicos esteja acontecendo praticamente na ordem de um para um".

Mas nem a Amazon nem a Sony informam o número de leitores eletrônicos vendidos, o que torna impossível para as editoras avaliar as dimensões do mercado, e para os livreiros avaliar a dimensão da ameaça.

Uma editora estima que a Amazon tenha vendido cerca de 10 mil Kindles, enquanto outra estima que existam até 50 mil leitores eletrônicos de livros em circulação, ao todo. Mas ambas as editoras, que forneceram essas avaliações sob a condição de que seus nomes não fossem revelados, alegam que as estimativas são apenas palpites razoavelmente bem informados.

A Amazon vende a maioria dos livros para o Kindle por US$ 9,99 ou menos. As editoras dizem que em geral vendem livros eletrônicos para a Amazon pelo mesmo preço dos livros físicos, ou cerca de 45% a 50% do preço de capa. Para um livro de capa dura de grande sucesso, como What Happened, as memórias do ex-secretário de imprensa Scott McClellan sobre seus anos de trabalho na Casa Branca de George W. Bush, isso significa que a Amazon estaria vendendo o livro aos leitores por cerca de 25% a menos que o valor de custo.

(Bezos provavelmente não reforçou sua popularidade junto ao pessoal do mundo editorial que teme que o sucesso de sua empresa venha a desequilibrar o mercado quando, em resposta a uma pergunta de um espectador de sua palestra, ele se referiu com entusiasmo ao fato de que ter "ganho na loteria" com o sucesso da Amazon permite que ele invista em outros projetos, como a criação de um serviço de viagens turísticas ao espaço suborbital.)

Mas ainda assim os aparelhos de leitura eletrônica conquistaram muitos fãs no setor editorial. A Random House e a Penguin, entre outras, equiparam toda a sua força de vendas com leitores eletrônicos, o que permite que os vendedores façam seu trabalho de divulgação sem terem de carregar com eles múltiplas cópias dos livros que serão lançados. Os editores que trabalham para as maiores empresas do ramo também empregam essas aparelhos para a leitura de manuscritos submetidos por escritores e agentes literários.

Uma grande vantagem dos leitores eletrônicos é que o estoque de cópias de um livro eletrônico jamais se esgota em uma livraria, o que Bezos demonstrou durante a palestra ao baixar What Happened e ler trechos do livro, que está esgotado em muitas livrarias. A Amazon mesma diz que não conseguirá despachar mais cópias em papel do livro antes de 21 de junho, de acordo com o seu site. Já a Barnes & Nobles informava em seu site que havia cópias disponíveis para envio em 6 de junho.

"Nós estamos sempre preocupados com a concorrência", disse Stillwagon, da livraria Tattered Cover. "A tecnologia está avançando, e as pessoas cada vez mais a aceitam. Para nós, cada livro vendido faz diferença".

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times

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