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Tecnologia

 
 

EUA: empresa assume riscos e lança serviços por fibra óptica

20 de agosto de 2008 11h22

O objetivo era melhorar serviços de TV e Internet. Foto: The New York Times

O objetivo era melhorar serviços de TV e Internet
Foto: The New York Times

Quatro anos atrás, a Verizon Communications embarcou em um plano ambicioso e caro para instalar cabos de fibra óptica capazes de propiciar serviço de Internet ultra-rápido e dezenas de canais de vídeo de alta definição, bem como antiquados serviços de telefonia fixa de voz, para 19 milhões de domicílios, ou cerca de metade do território que a empresa atende.

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Quando foi anunciado, o investimento de US$ 23 bilhões planejado pela Verizon no serviço, conhecido como FiOS, foi recebido com grande ceticismo, tanto em Wall Street quanto entre os concorrentes da empresa.

Todos compreendiam que os cabos de cobre do sistema telefônico convencional estavam ficando para trás diante das redes mais velozes oferecidas pelas operadoras de cabos. Mas por que investir tanto dinheiro em novos cabos quando os celulares estão se tornando tão onipresentes e tão lucrativos? A Verizon rejeitou alternativas mais baratas e decidiu instalar o sistema de fibra óptica, apesar de um custo estimado em US$ 4 mil por cliente.

Agora, a empresa está começando a lançar os serviços FiOS em sua cidade de origem, Nova York, e argumenta que ele está se provando um sucesso ainda maior do que ela planejava ao anunciar o projeto.

A despeito de preços médios bem acima de US$ 130 para pacotes de Internet, TV e serviços de voz, 20% dos domicílios onde o FiOS está disponível assinaram o serviço de vídeo em fibra óptica, e 24% compram o serviço de Internet, que oferece velocidade de acesso até cinco vezes maior que a dos concorrentes no setor de cabos.

"Ainda não vimos um mercado no qual a penetração tenha parado de crescer", disse Robert Barish, vice-presidente sênior da Verizon e vice-presidente financeiro de sua divisão de comunicações com fio. O custo de instalação local da rede de fibra óptica também está caindo abaixo dos US$ 760 por residência, a estimativa inicial da empresa. (A companhia gasta mais US$ 650 em equipamento e mão-de-obra para instalar o sistema em cada casa que solicite o serviço.)

Mas ainda assim pode demorar mais uma década para que se possa realmente saber se a aposta da Verizon no FiOS foi um investimento inteligente no futuro ou um buraco negro bilionário.

A empresa teve de gastar mais do que planejava em publicidade e promoções dispendiosas, incluindo brindes como televisores de tela plana, para obter novos clientes. A Comcast e outras operadoras de cabos estão se preparando para ampliar suas ofertas digitais e elevar a velocidade de suas conexões com a Internet.

De muitas maneiras, o sucesso do FiOS em longo prazo dependerá de que novos serviços serão desenvolvidos para aproveitar a vasta banda que a fibra óptica oferece, e quantos clientes estarão dispostos a pagar por eles.

Barish argumenta que, ao investir agora na rede de fibra óptica, a Verizon economizará muito dinheiro no futuro. E, ao contrário de suas concorrentes, ela não precisará atualizar suas redes novamente a fim de oferecer velocidades de dados mais rápidas ou mais canais de TV de alta definição (HDTV).

"A rede que estamos criando é à prova de futuro", ele disse, acrescentando que "se não estivéssemos investindo na FiOS, teríamos investido muito mais dinheiro em nossa rede básica. Não precisamos fazê-lo".

A lógica da Verizon começa a convencer os investidores, especialmente se comparada à abordagem mais barata que a AT&T, a outra grande operadora norte-americana de telefonia, adotou. A AT&T decidiu que usaria o cabeamento de cobre existente para transmitir maior volume de dados, mas o desenvolvimento da tecnologia da empresa vem demorando mais do que se esperava e parece ter menos capacidade de oferecer HDTV do que o FiOS.

"Houve um intenso debate cerca de dois anos atrás sobre qual dos dois modelos estava certo, o da Verizon ou o da At&T", disse Blair Levin, analista da Stifel Nicolaus. "Inicialmente a comunidade de investimento acreditava mais na AT&T, mas a Verizon começou a conquistar cada vez mais respeito, ainda que relutante".

As ações da Verizon, que tinham desempenho pior que as da AT&T quando o FiOS foi anunciado inicialmente, agora estão se saindo melhor. De 2005 ao final de 2006, as ações da Verizon caíram em 4,6%, enquanto as da AT&T subiam em 38,7%. Mas do começo de 2007 para cá, a Verizon se saiu melhor do que a concorrente, com queda de 6,3% em suas ações, ante queda de 12,2% para a AT&T.

No final do segundo trimestre, havia 1,4 milhão de assinantes do serviço FiOS de televisão, ante 515 mil um ano antes. A Verizon também tinha dois milhões de clientes de serviços FiOS de Internet, ante 1,1 milhão um ano antes.

A despeito desse crescimento em sua base de assinantes, ainda há críticos que dizem que a estrutura de receita propiciada pelo FiOS não justifica o elevado custo de capital que o sistema acarreta.

"Se eu fosse uma concessionária de automóveis e quisesse vender aos clientes uma Maserati por preço de Volkswagen, sei que meus clientes ficariam muito contentes", disse Craig Moffett, analista da Sanford Bernstein. "Meu problema é que seria impossível obter retornos decentes operando dessa maneira".

Em recente relatório, Moffett, um dos mais persistentes críticos das escolhas feitas pela Verizon, apresentou aos clientes de sua empresa projeções detalhadas sobre o montante que a Verizon poderia faturar com o FiOS, e sobre a economia que obteria dado o fato de que a manutenção de uma rede de fibra óptica é mais barata que a de uma rede de cabos de cobre. Ele concluiu que, ao final do processo, a Verizon sairia US$ 6 bilhões no vermelho.

Outros analistas atingiram resultados diferentes, com base nos dados disponíveis até o momento. Christopher Larsen, do Credit Suisse, calcula que, se Verizon conseguir que pelo menos 20% dos potenciais clientes assinem o pacote de vídeo FiOS, obterá lucros aceitáveis.

E David Barden, da Banc of America Securities, argumenta que, para os novos investidores na Verizon, o retorno sobre o investimento original realizado pela empresa pouco importa.

"Se você é um investidor hoje e está pensando sobre as perspectivas futuras do FiOS, não precisa considerar aquilo que já foi gasto. Precisa apenas levar em conta o quanto ainda terá de ser gasto", disse Barden. "Os investidores de 2008 têm uma dívida de gratidão para com os investidores de 2003, porque a Verizon 2008 está em posição competitiva muito melhor do que a que teria de outra maneira".

Mesmo que Moffett esteja certo e a Verizon sofra um prejuízo agregado de US$ 6 bilhões com o FiOS, esse é um montante que desaparece com facilidade em meio aos resultados de uma empresa com receita anual de US$ 100 bilhões e que gasta US$ 17 bilhões ao ano em investimentos de capital. De fato, a Verizon é dominada pela telefonia sem fio e pelos serviços a empresas. Os serviços de telefonia convencional para consumidores domésticos respondem por apenas 15% de sua receita.

Uma opção que a Verizon não considerava palatável era a inação. Os serviços de telefonia de voz fixa estão a caminho da extinção, e registraram queda de 8,5% no ano passado. E a velocidade de acesso à Internet oferecida pelas linhas DSL de telefonia digital não tem como subir para mais que 3 megabits por segundo, no caso da maioria dos clientes.

Enquanto isso, as operadoras de cabo como a Comcast e a Time Warner conseguiram muito sucesso na venda de pacotes que combinam telefonia via Internet e muitos canais de TV, bem como acesso de alta velocidade à Internet (seis a 12 megabits por segundo). À medida que os consumidores exigem mais recursos de vídeo em suas residências e em seus computadores, as operadoras de cabo vêm ganhando mais mercado.

Com o serviço FiOS no momento oferecendo velocidades máximas de acesso à Internet da ordem de 50 megabits por segundo e um grande cardápio de serviços de vídeo, a Verizon está apostando que seus pacotes permitirão que ela supere suas rivais do setor de cabos. Além disso, a rede de fibra óptica da Verizon tem a capacidade de elevar sua velocidade de dados, número de canais de vídeos e outros serviços sem requerer recabeamento.

O serviço vem sendo especialmente popular entre os consumidores mais sofisticados, que procuram por velocidades mais elevadas de acesso à Internet, disse Karl Bode, editor do site broadbandreports.com.

"Caso a empresa ofereça tecnologia de alta qualidade e velocidade de ponta, os consumidores certamente responderão de maneira positiva", ele afirmou. "Estou preparando minha mudança para uma casa nova, e a disponibilidade do sistema FiOS fez diferença em minha escolha de um bairro para onde me mudar - mesmo que, ao longo dos anos, eu sempre tenha sido um dos mais veementes críticos da Verizon".

As operadoras de cabos, em resposta, estão tentando reagir por meio de cortes de preços em seus serviços de telefonia via Internet e investindo no desenvolvimento de novas tecnologias capazes de acompanhar a velocidade de transmissão de dados oferecida pela fibra óptica do FiOS, bem como aumentar o número de canais de televisão em seus pacotes.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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