
Atualizada às 08h40 Brad Stone e Claire Cain Miller
Desde que a crise do crédito começou a tomar conta do mundo das finanças, o Vale do Silício vem assistindo meio de lado, seguro na fé de que estava isolado contra a tempestade. Mas essa fé está sendo destruída. Empresários, investidores e executivos do setor de alta tecnologia agora acreditam que a questão é determinar "quando", e não mais "se", o caos financeiro prejudicará o berço da inovação nos Estados Unidos.
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De San Francisco a San Jose, os efeitos já se tornaram palpáveis. A Apple, uma das empresas fortes da região, perdeu 16,3% de seu valor de mercado em uma semana, depois que os investidores concluíram, sensatamente, que os consumidores prefeririam compras de final de ano mais baratas do que os dispendiosos produtos da empresa ¿ ou até mesmo evitar compras de modo a diminuir o saldo devedor em seus cartões de crédito. As ações do Yahoo e do eBay mostram suas mais baixas cotações em anos.
Steve Ballmer, o presidente-executivo da Microsoft, reconheceu que problemas financeiros reduziriam os gastos das empresas e consumidores nos Estados Unidos, e que muitas empresas, entre as quais a sua, estavam vulneráveis.
Há outros sinais negativos. As fabricantes de semicondutores, muitas das quais recorrem a empréstimos para financiar suas operações, que requerem uso intensivo de capital, sofreram forte abalo. A AMD, rival cada vez menos forte da Intel, deveria promover a cisão de sua divisão de produção de chips este ano e se transformar em empresa de projeto de semicondutores, mas analistas afirmam acreditar que ela tenha encontrado dificuldades para promover essa alteração.
Os principais propulsores do crescimento do Vale do Silício são as empresas iniciantes e as de capital para empreendimentos que as apóiam. Muita gente diz que essas fontes de inovação continuam em funcionamento, graças em parte às lições aprendidas e à sabedoria conquistada com o crash da Internet na virada do século. Mesmo assim, uma nuvem de ansiedade parece pairar sobre o setor.
"O dinheiro vai escassear, e isso certamente terá conseqüências", disse Ron Conway, um importante executivo de capital para empreendimentos que investiu em centenas de empresas iniciantes de web nos últimos dez anos.
As empresas iniciantes que tiverem no banco dinheiro para menos de seis meses "precisam começar a cortar custos", disse Conway. "Certamente aconselharei as minhas a fazê-lo".
O Vale do Silício vêm recitando lemas calmantes, durante a prolongada turbulência: as pessoas passam mais e mais tempo na Internet, e a publicidade decerto as acompanhará. Importantes empresas de tecnologia como Google, eBay e Cisco têm fortes reservas de caixa em seus balanços, e não dívidas.
Mas o pessimismo constante do restante da economia parece ter abalado os nervos até mesmo dos mais confiantes moradores do Vale do Silício. Discussões sobre a crise econômica dominam a conversa. Blogs de tecnologia oferecem receitas sobre como sobreviver à crise e debates intensos sobre a porcentagem de empresas iniciantes que sobreviverão ao colapso.
De acordo com uma pesquisa trimestral de Mark Cannice, diretor do Programa Empresarial da Universidade de San Francisco, a confiança do setor de capital para empreendimentos caiu ao seu ponto mais baixo desde que a pesquisa começou, em 2004.
A publicidade na Internet ¿ o modelo de receita adotado por toda uma geração de empresas iniciantes - talvez seja um dos pontos mais vulneráveis do setor, hoje. Em agosto, a eMarketer, uma empresa que pesquisa marketing digital, mencionou a turbulência na economia ao reduzir sua projeção de verbas publicitárias na web este ano pela segunda vez, a US$ 24,9 bilhões, uma queda de 9% ante a projeção original.
Nos setores da economia mais ampla atingidos com mais força, as empresas parecem estar reduzindo seus investimentos em Internet. A General Motors anunciou no mês passado que estava cortando seus investimentos em publicidade digital, depois de afirmar no começo do ano que dedicaria US$ 1,5 bilhão, metade de suas verbas publicitárias, a campanhas online.
Um problema que persiste no Vale do Silício é a escassez de ofertas públicas iniciais de ações. Apenas seis empresas de tecnologia e saúde bancadas por capital para empreendimentos abriram seus capitais este ano, e apenas duas entre elas têm suas ações negociadas acima do preço de oferta. No ano passado, 86 dessas empresas lançaram ações no mercado, de acordo com a Associação Nacional do Capital para Empreendimentos.
Isso preocupa muita gente no Vale do Silício, dada a possibilidade de que o capital para empreendimentos, o combustível que alimenta as empresas iniciantes, desapareça, já que os investidores não teriam como obter retornos de seu investimento inicial.
"O investimento em empresas de capital para empreendimentos poderia secar caso continue a escassez de ofertas públicas iniciais e as empresas do ramo não mostrem retorno", disse Ken Wilcox, presidente-executivo do SVB Financial Group, controlador do Silicon Valley Bank. Wilcox se declarou preocupado com a possibilidade de que os investidores ou sócio de responsabilidade limitada dos fundos de capital para empreendimentos comecem a se retrair.
Muitas empresas iniciantes continuam a reportar sucesso na obtenção de capital para empreendimentos. Mas número crescente das que conseguiram dinheiro parece sentir que elas tiveram sorte em passar por uma porta que está se fechando rapidamente. Em setembro, a Skydeck, uma empresa iniciante de dez funcionários cujo software permite que as pessoas usem a web para organizar seu uso de celulares em mensagens de voz e texto, conseguiu US$ 3 milhões em capital para empreendimentos.
No final de semana seguinte, o governo tomou o controle da Fannie Mae e Freddie Mac e o Lehman Brothers pediu concordata. "Quando acordei na segunda-feira de manhã, eu estava muito feliz por já ter conseguido concluir nossos esforços de arrecadação de capital", disse Jason Devitt, o fundador da companhia. "Esta semana, recebi diversos e-mails que congratulavam por ter conseguido levantar dinheiro em um ambiente econômico como o que temos agora. É evidente que existe uma real conscientização quanto ao impacto da crise".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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Peter DaSilva/The New York Times
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