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 Morte de estrela reforça debate sobre leis para a web
16 de outubro de 2008 10h05

A estrela de cinema Choi Jin-sil era o que a Coréia de Sul tinha de mais perto de uma namoradinha do país.

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Por isso, quando Choi, 39, foi encontrada morta em seu apartamento, em 2 de outubro, vítima do que a polícia definiu como suicídio, os compatriotas enlutados da atriz saíram em busca de motivos para que ela decidisse pôr fim à própria vida.

A polícia, a mídia e membros do Legislativo começaram imediatamente a apontar para a Internet. Fofocas cruéis divulgadas online levaram ao suicídio de Choi, afirmou a polícia, depois de estudar memorandos encontrados em seu apartamento e de entrevistar amigos e parentes.

As acusações que circulavam online eram de que Choi, que no passado ganhou uma medalha do governo por representar um exemplo de poupança, na verdade era agiota. Os boatos diziam que um ator amigo de Choi, Ahn Jae-hwan, foi levado ao suicídio porque a estrela o havia pressionado impiedosamente pelo pagamento de um suposto empréstimos de US$ 2 milhões.

A indignação pública quanto ao suicídio de Choi serviu como munição para o governo do presidente Lee Myung-bak, que há muito procura regulamentar o ciberespaço, um dos grandes foros para o protesto contra as autoridades na Coréia do Sul.

Na época, o governo Lee estava cambaleando depois de semanas de furiosos protestos contra sua decisão de liberar a importação de carne bovina dos Estados Unidos. Posts violentos de oposição ao governo e boatos que circulavam na Internet quanto aos perigos de suspender a proibição à carne bovina importada alimentaram forte inquietação política, que culminou com a renúncia coletiva do ministério.

Em uma campanha de repressão à difamação online iniciada um mês atrás, 900 agentes do Centro de Resposta ao Ciberterrorismo, uma agência governamental, estão vasculhando blogs e fóruns de discussão a fim de identificar e deter pessoas que "habitualmente postam textos difamatórios ou instigam a intimidação online".

Hong Joon-pyo, líder do Grande Partido Nacional, a agremiação governista, no Legislativo, comentou que "o espaço da Internet em nosso país se tornou como que a parede de um banheiro público".

Na Assembléia Nacional, o suicídio de Choi colocou os partidos rivais em rota de colisão sobre a melhor maneira de regulamentar a web. O partido governista está promovendo uma lei que punirá os insultos online; os partidos de oposição estão acusando o governo de "tentar governar o ciberespaço por meio da lei marcial".

A oposição afirma que a violência no ciberespaço já está enquadrada nas leis existentes contra calúnias e insultos públicos. Mas o governo alega que é necessária uma lei separada, mais severa, para punir os abusos online, que infligem danos mais amplos às vítimas, e muito mais rápido.

Para combater o assédio online, a Comissão de Comunicações do governo no ano passado instruiu os portais de web com mais de 300 mil visitantes diários a exigir que os visitantes registrem seus nomes e seus números de seguro social antes que possam postar comentários.

A polícia registrou 10.028 casos de difamação online no ano passado, ante 3.667 em 2004.

O assédio na Internet vem sendo culpado por uma seqüência de suicídios que atraíram muita atenção na Coréia do Sul. Choi ganhou manchetes ao se casar com o jogador de beisebol Cho Sung-min, em 2000. Mas os tablóides e blogs não hesitaram em criticá-la de forma severa quando o casamento fracassou e ela disputou na Justiça a guarda de seus dois filhos.

Produtores de TV e anunciantes deixaram de contratá-la. O sentimento geral no país era o de que sua carreira estava encerrada.

Mas em 2005 ela reconquistou o sucesso com uma novela imensamente popular chamada Minha Vida Rosada. No novo trabalho, Choi deixou de lado a imagem de menina bonitinha e interpretou uma mulher traída que agride o marido errante mas se reconcilia com ele ao saber que tem câncer terminal.

Este ano, ela quebrou mais um tabu ao conquistar na Justiça o direito de alterar o sobrenome dos dois filhos, que agora usam o dela.

Mas em entrevista à MBC-TV, concedida em julho e transmitida depois de sua morte, ela disse que "morria de medo" da Internet, onde recebia insultos de internautas por ser uma mulher divorciada que criava seus filhos sem a participação do marido. Segundo a polícia, ela vinha usando antidepressivos desde o divórcio.

Na Coréia do Sul, conselheiros voluntários patrulham a Internet para tentar evitar que pessoas usem a rede a fim de trocar dicas sobre como cometer suicídios ou, em certos casos, fazer pactos que conduzem a casos de suicídio grupal.

"Vemos uma súbita ascensão de casos de suicídio por imitação, sempre que uma celebridade morre", disse Jeon Jun-hee, funcionário do Centro Metropolitano de Saúde Mental de Seul, que opera uma linha telefônica para prevenção de suicídios. Jeon disse que a linha estava recebendo 60 ligações por dia, o dobro de sua média normal, desde que Choi se suicidou.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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