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Terça, 28 de outubro de 2008, 08h36

Criatividade faz tecnologia avançar em países emergentes

Ashlee Vance

Alguns dos principais pesquisadores da Microsoft dedicam seu tempo a pensar em softwares complexos, algoritmos e sistemas de segurança. Outros contemplam a azolla, uma planta aquática usada na alimentação de gado, com a esperança de elevar a produção de leite.

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Os especialistas em azolla são parte de uma equipe de nove pesquisadores da Microsoft Research na Índia, cuja tarefa é abordar a tecnologia dos países emergentes de maneiras não convencionais. Esses cientistas da computação dizem ter a liberdade de abandonar completamente os computadores e o software em seus esforços para resolver problemas. Eles dependem mais freqüentemente de uma combinação de sociologia e de testes empíricos para verificar se as idéias fantasiosas podem resultar em tecnologia útil a pessoas que até o momento vivem sem nenhuma.

Um projeto, chamado Digital Green, por exemplo, só floresceu depois que a Microsoft adorou uma abordagem apelidada de "Farmer Idol" - uma versão rústica do concurso musical American Idol, envolvendo agricultores locais.

Os pesquisadores da Digital Green vêm distribuindo DVDs a agricultores em cerca de uma dúzia de aldeias indianas. Os aldeões reagem bem ao ver seus irmãos camponeses nas sessões de treinamento, e assistem a múltiplas apresentações detalhadas caso alguém que conheçam apareça no vídeo. Os agricultores estão competindo para serem escolhidos como astros da produção local de alimentos.

"Os agricultores adoram aparecer na TV", disse Kentaro Toyama, diretor executivo assistente da Microsoft Research na Índia e diretor do grupo de pesquisa de mercados emergentes. "Isso nos oferece conhecimento básico sobre aquilo que funciona nesse ambiente específico".

A Microsoft temia que os agricultores, que vivem a cerca de duas horas de distância de Bangalore, ignorassem os conselhos recebidos em treinamento a menos que estes oferecessem retornos satisfatórios e imediatos. E assim, um conjunto de vídeos se concentra na azolla, que pode crescer o bastante para cobrir o topo de um tanque de água em apenas uma semana e conduzir a uma produção de leite muito maior parte das vacas.

Dentro de quatro meses, a Microsoft vai estabelecer a Digital Green como uma organização independente sem fins lucrativos. Rikin Gandhi, cientista da computação, planeja deixar o emprego na companhia e comandar a organização, que pretende expandir os métodos do programa Digital Green por todo o sul da Ásia e pela África.

A Microsoft também está ampliando as idéias do programa por meio de outro projeto chamado "Computação Peso Pena", que envolve cartazes e mensagens para envio aos agricultores. Os produtos incluem fotos e gravações que lembram aos agricultores as técnicas que eles aprenderam com os vídeos.

Um projeto assemelhado, o "Warana Unwired", pretende oferecer a membros de cooperativas agrícolas maneiras simples e rápidas de atualizar registros e obter informações sobre os preços de produtos agrícolas. Uma rede de cerca de 55 aldeias depende de computadores para recolher informações sobre aquisições de fertilizantes, contas de água e estoques.

Os computadores costumam quebrar, ou por algum motivo se tornam indisponíveis. Para contornar esses problemas, a Microsoft faz de um computador, que recebe manutenção apropriada, o centro de coleta de mensagens enviadas por celulares.

"Se deseja registrar terras, basta que o fazendeiro digite 'reg', o número de identificação da fazenda e o tamanho do lote que deseja", disse Rajesh Veeraraghavan, que era pesquisador da Microsoft antes de deixar a empresa para obter seu doutorado em comunicação e informação nas áreas em desenvolvimento. O sistema via celular se provou mais barato e oferece aos agricultores acesso quase instantâneo às suas informações.

Outros produtos de pesquisa da Microsoft giram mais em torno dos pontos fortes tradicionais da empresa. Um software chamado MultiPoint permite que diversos mouses sejam conectados a uma mesma máquina, permitindo que diferentes alunos interajam com a máquina. As crianças podem usar a máquina para jogos e para aprendizado.

"Não encontramos ainda uma situação na qual haja um computador disponível por criança", disse Toyama. "As crianças em geral se amontoam diante de um computador, e brigam para controlar a máquina. Esse recurso oferece outro nível de envolvimento".

Estudos conduzidos pela Microsoft demonstram que os alunos aprendem tão bem com máquinas compartilhadas quanto aprenderiam com computadores individuais - ainda que as meninas, que tendem a cooperar para encontrar informações, se tenham saído melhor que os meninos, que correm para clicar sem realmente aprender. "Para os meninos teremos de pensar mais na maneira pela qual o software foi projetado", diz Toyama.

Ele reconhece que seu grupo tem o luxo de trabalhar em áreas que "são interessantes por simplesmente ampliar o alcance da tecnologia".

Determinar se esses projetos resultarão ou não em produtos Microsoft importa menos do que formar laços com governos e compreender os diversos povos e regiões. "Em prazo muito longo, o que faz diferença para o preço das ações da Microsoft é a situação da economia mundial", ele afirma. "O crescimento continuado da economia como um todo ajuda o nosso negócio".

Se tecnologia como a desenvolvida no MultiPoint se provar convincente, o grupo Unlimited Potential da Microsoft, uma divisão mais formal que direciona tecnologia a sociedades mais pobres, tentará incorporá-la a projetos comerciais.

"É fácil que pessoas se unam para instalar uma conexão de satélite em uma escola", diz James Utzschneider, gerente geral da Unlimited Potential, "mas a menos que seja encontrado um meio de pagar as contas de acesso, você terá apenas uma antena sobre o prédio".

Luis Anavitarte, analista do Gartner, credita à Microsoft a abordagem certa quanto a esses mercados, baseada em criatividade. "Mas em última análise eles precisam de envolvimento dos governos locais para que os projetos funcionem".

Além disso, as melhores intenções da Microsoft podem não satisfazer as necessidades locais. A empresa pesquisou oito mil pessoas em mercados emergentes e constatou que suas necessidades mais prementes muitas vezes são de entretenimento e navegação na Internet.

"Isso reforçou a idéia de que as classes médias emergentes são como as dos países desenvolvidos, mas têm menos dinheiro", disse Toyama. "Ocasionalmente nos interessamos demais por coisas e esquecemos de que precisamos atender às necessidades de pessoais reais".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

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