
Laura Holson
Ninguém definiria Cher Wang como "pobre menina rica".
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Filha de um dos homens mais ricos do mundo, ela jamais conquistou manchetes por sua vida social ou por desperdiçar o dinheiro do pai.
Na verdade, ela raramente conquista manchetes, ainda que tenha fundado sua própria companhia multibilionária e feito fortuna por conta própria.
Wang é uma das mais poderosas mulheres do mundo da tecnologia, mas ainda assim pouca gente já ouviu falar dela. A empresa que criou, a HTC, responde pela fabricação de um em cada seis dos celulares inteligentes produzidos nos Estados Unidos, a maioria dos quais comercializados sob marcas como Palm e Verizon.
Na semana passada, o mais provável rival do iPhone, o T-Mobile G1, projetado pela HTC e acionado pelo sistema operacional Android, do Google, chegou às lojas. A atenção que o lançamento despertou não é o tipo de coisa que a HTC costume procurar. E o mesmo se aplica a Wang.
"Eu gosto que as coisas sejam assim, na verdade", ela declarou em uma rara entrevista, no mês passado, em um almoço no qual pediu mahi mahi, espinafre e cogumelos, no clube dos professores da Universidade da Califórnia em Berkeley, onde ela se formou em 1981. "Não sinto necessidade de ser o centro das atenções".
Na sua Taiwan natal, porém, onde ela é conhecida como Wang Hsiueh-Hong, Wang e sua família representam uma dinastia no setor de tecnologia. O pai dela, Wang Yung-Ching, que morreu há poucos meses, fundou o conglomerado petroquímico e de fabricação de plásticos Formosa Plastics Group. De acordo com a revista Forbes, ele era o segundo homem mais rico de Taiwan. Duas de suas filhas servem entre os sete executivos que controlam o Formosa Group.
Outra de suas filhas, Charlene Wang, ajudou a fundar a First International Computer, uma fabricante de placas-mãe, em 1980. E Cher Wang é a presidente do conselho não de uma mas de duas empresas: a HTC e a VIA Technologies, especializada no desenvolvimento de tecnologia para chips de silício, presidida por seu marido, Wen Chi Chen, desde 1992.
A revista Forbes estima o patrimônio do casal em US$ 3,5 bilhões. A receita da HTC em 2007 chegou a US$ 3,7 bilhões. Mas Wang afirma que não é a riqueza que a define - nem a pessoal, nem a de sua família.
"Minha família sempre foi muito rigorosa", ela conta. As horas de lazer eram passadas jogando tênis ou basquete. E ela não tinha a intenção de se tornar uma dama da sociedade e viver no ócio. "Meu pai achava que precisávamos todos experimentar coisas diferentes".
Quando era jovem, conta Wang, o pai dela a levava em suas visitas mensais ao hospital local que ele ajudava a financiar. E, também por insistência dele, Wang e os irmãos estudaram no exterior, em lugar de permanecerem em Taipei.
Foi assim que ela veio parar no Vale do Silício. Wang nasceu em Taipei em 1958, e é uma das sete crianças criadas pela segunda mulher de Wang (que se casou três vezes e teve nove filhos). Embora alguns de seus irmãos tenham estudado em escolas privadas em Londres, para Wang os Estados Unidos interessavam mais.
Em 1974, ela se matriculou no College Preparatory School, uma escola privada de elite em Oakland, Califórnia. (Charlene, sua irmã mais velha, estava morando na região de San Francisco.) Wang vivia na casa de um pediatra local, com a família dele. Depois de se formar no segundo grau, ela conseguiu vaga em Berkeley, onde inicialmente se matriculou no curso de música - queria ser pianista. Mas depois de três semanas - e de uma conversa dura com seu conselheiro educacional -, ela decidiu optar pela Economia, disciplina na qual viria a conquistar um mestrado posteriormente.
"Foi esse o edifício do qual eu fugi", ela contou em um passeio pelo campus, apontando para uma sala no segundo andar da escola de música, o local em que ela passou por sua audição, tocando uma peça de Chopin. "Aquele era o meu sonho, mas sempre fui realista".
Depois de se formar em Berkeley, em 1982 ela aceitou emprego na First International Computer, onde inicialmente vendia placas-mãe e mais tarde comandou a divisão de computadores pessoais.
Quando a HTC foi fundada, em 1997, a empresa fabricava laptops. O marido de Wang recorda que, alguns anos depois que a empresa começou a operar, ela e seus sócios foram forçados a fazer uma escolha difícil: concentrar as atividades em laptops ou transferir o foco aos aparelhos eletrônicos de mão, um segmento de mercado que começava a parecer promissor. Wang defendeu a idéia de que a empresa priorizasse a produção de celulares.
"A HTC tinha excelentes engenheiros especializados em desenvolver laptops", conta Chen, "mas o negócio nesse segmento era muito volátil, com grande número de concorrentes". Ela conseguiu perceber, e pressionou em lugar disso por outra solução.
Foi uma escolha inteligente. A receita da HTC chegou a US$ 1 bilhão no trimestre mais recente, crescimento de 29% ante o período no ano anterior. "Em certo sentido, ela é muito exigente", disse Chen. "Se quer que alguma coisa mude, não hesita em falar a respeito".
Nos primeiros dias da HTC, a responsabilidade de Wang era criar relacionamentos com os clientes, entre os quais operadoras de telefonia móvel, e os fornecedores de cujos produtos a HTC necessitava. Ela visitava muito o Vale do Silício. Foi nessa época que se aproximou dos executivos da T-Mobile, um passo crítico para a conquista do contrato de produção do primeiro celular equipado com o Android.
Ela também administrou o relacionamento entre a HTC e a Microsoft, uma parceria já antiga com a companhia cujo sistema operacional aciona a maioria dos celulares produzidos pela HTC. Uma vez por ano, conta Wang, ela visita Seattle para uma reunião com Bill Gates e Steve Ballmer, o presidente-executivo da empresa.
Wang diz que prefere uma vida simples. No seu 50° aniversário, um mês atrás, ela ficou em casa e comeu bolo de morango com sorvete em companhia da família. Ainda que seja parte do clube dos bilionários da tecnologia, ela não usa um jatinho privado para voar de Taipei para a Califórnia. E em lugar de levar seus parceiros de negócios a jantares dispendiosos, ela prefere convidá-los para partidas matutinas de basquete.
Stephen Zelencik, que se aposentou como vice-presidente de vendas e marketing da fabricante de chips AMD, conhece Wang desde que ela era uma jovem executiva na First International Computer. Mas em seus contatos com ela como comandante da HTC, ele descobriu até que ponto a amiga pode ser persistente.
Ele relembra uma negociação especialmente exaustiva, que durou mais de uma semana em Taipei. Wang insistia em conseguir preços mais baixos para um grande pedido de microprocessadores da AMD que sua empresa desejava fazer.
Os dois haviam chegado a um acordo informal sobre preço. Mas Wang, percebendo uma oportunidade no último dia, declarou que queria preço mais baixo, bateu com o dedo no relógio e disse que o avião dele partiria às 14h. "Ela queria que eu cedesse".
Zelencik respondeu que "não precisamos apanhar esse avião". E ela retrucou que "bem, então vamos negociar". Por fim, os dois concordaram em manter os termos decididos anteriormente. "A negociação já havia sido favorável a ela", ele contou. "Mas mesmo assim ela não deixava de se esforçar".
A fé também tem posição importante na vida de Wang, que é cristã como seu marido; ela afirma não ser parte de uma denominação religiosa específica, mas conta que vai à igreja sempre que pode. A espiritualidade dá forma à sua vida. "Sinto que todo mundo tem defeitos", ela conta. "Temos de compreender por que as pessoas são assim - se é o ambiente ou seu histórico". E a religião também influencia seu trabalho. "Jesus nos diz que é preciso trabalhar com afinco, sem preguiça", ela diz.
Ela divide seu tempo entre três cidades. Wang e o marido têm uma casa em Mountain View, na Califórnia (onde um de seus dois filhos mora), uma casa em Taipei e um apartamento em Pequim, usado principalmente para negócios. Embora ela tenha se afastado gradativamente da condução dos assuntos cotidianos na HTC, continua ativa na empresa, se reunindo com clientes e conquistando novos negócios. E continua a ser o árbitro do estilo da empresa, um papel que aprecia muito.
"Essa garotada toda sabe o que está fazendo", diz Zelencik. "Eles não ficam lá sentados gastando dinheiro à toa".
E é exatamente assim que Wang considera que as coisas devem ser. "Eu sempre tive uma grande imaginação, algo que eu desejava usar", conta. "Não compreendo a idéia de dedicar tempo ao lazer".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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The New York Times
Cher Wang é fundadora da HTC, que fabrica um em cada seis smartphones nos EUA
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