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Tecnologia

 
 

Crescimento do Google gera preocupações sobre privacidade

09 de novembro de 2008 17h00

Talvez a maior ameaça para a crescente dominação do Google sobre a busca e os anúncios na Internet é o crescente medo, justificado ou não, de que seu alcance lhe dê um poder sem contrapesos.

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O escrutínio vai além do ceticismo de legisladores e do Departamento de Justiça frente à proposta de parceria de anúncios do Google com o grupo Yahoo. Muitas objeções a esse acordo são financeiras e sobre se as duas companhias poderiam subir os preços de anúncios online de forma injusta.

Uma preocupação de longo prazo para o Google se relaciona a algo menos tangível - a privacidade. Enquanto o Google se enreda crescentemente na computação do dia-a-dia, seus anúncios de produtos levantam mais e mais questões sobre sua capacidade de coletar informação pessoal potencialmente sensível de seus usuários.

Por que o Google armazena os detalhes das pesquisas por tanto tempo? O que ele faz com a informação? Ele combina os dados do mecanismo de busca com informações coletadas por outros meios - como de seu novo navegador, o Chrome?

Os dados coletados pela maioria dos serviços da companhia "desaparecem em um buraco negro uma vez dentro do Googleplex", disse Simon Davis, diretor da organização londrina Privacy International, se referindo à sede do Google. "É impossível rastrear essa informação."

O Google - cujo lema corporativo é "Não Seja Mau" - geralmente encara essas preocupações como desinformação. Por exemplo, a companhia afirma que armazena as pesquisas realizadas por sua popular ferramenta de busca principalmente para melhorar o serviço.

Mas sendo as críticas infundadas ou não, elas são um bom indicativo da batalha que o Google vai ter que enfrentar enquanto, igual à Microsoft nos anos 1990, deixa de ser uma novidade mundial impressionante e passa a integrar o coração da elite tecnológica.

O lançamento do Chrome em setembro iluminou os conflitos florescentes. Para o Google, o novo navegador é uma plataforma na qual futuros programas da web poderão funcionar mais eficientemente. É também um sinal de que o Google tem consciência de seu crescente poder, já que lançar um navegador é um desafio direto à Microsoft.

Em outros meios, o Chrome provocou suspeitas. O grupo de "consumidores vigilantes" Consumer Watchdog, de Santa Mônica, Califórnia, alega que o navegador cruza uma nova fronteira.

Em uma carta aos diretores do Google datada de meados de outubro, o Consumer Watchdog escreveu que tem "sérias preocupações de privacidade" quanto ao navegador e à transferência de dados dos usuários por meio dos serviços do Google desprovidos do que o grupo entende como o "controle e transparência apropriados."

Uma das queixas da organização envolve a barra de navegação do Chrome, que pode ser usada para inserir um endereço da web ou um termo de pesquisa. O grupo aponta que, enquanto o usuário digita na barra de navegação, o Chrome transmite cada toque de tecla para o Google antes mesmo de clicar "enter" para finalizar o comando.

"A companhia está literalmente conversando consigo mesma sobre você e sua informação sem você perceber," afirmou o presidente do Consumer Watchdog Jamie Court.

Essa "conversa" deriva da ferramenta de sugestões do Google, que está inserida no navegador e em outros produtos Google, inclusive sua ferramenta básica de buscas na Internet.

A ferramenta de sugestões envia buscas ao Google enquanto você digita, esperando antecipar seu desejo. Então se você está buscando "colégio eleitoral eleições 2008", o Google vai oferecer múltiplas palavras de busca enquanto digita. Primeiro, alguns resultados relacionados ao termo "colégio", depois outros com colégio eleitoral em geral e, finalmente, você vai conseguir links pertinentes à eleição presidencial de terça-feira.

É isso que preocupa o Consumer Watchdog: digamos que você digite algo embaraçoso ou extremamente pessoal, mas reconsidera antes de pressionar o "enter". A ferramenta de sugestões ainda envia essa frase para os servidores do Google, vinculada ao número de seu endereço IP.

Segundo Brian Rakowski, gerente de produto do Chrome, o temor do Consumer Watchdog se origina de uma confusão a respeito do papel que o navegador do Google desempenha.

"Surgiram preocupações, sob uma forma ingênua de ver um navegador, de que 'agora que estou usando um navegador Google, o Google deve saber tudo sobre mim em seus servidores'", disse.

Rakowski disse que as consultas enviadas ao Google pelo recurso de sugestões não incluem dados como o endereço IP de um usuário e o tempo em que tais consultas duram. O Google grava apenas 2% da informação trazida pelo recurso, segundo Rakowski, para melhorá-lo, e a torna anônima num período de 24 horas. O anonimato é completo pela retirada dos últimos quatro dígitos do endereço IP associado à consulta.

"Você está voando às cegas sem aquela informação, então precisamos coletar um pouco," disse. "Mas estamos realmente coletando o mínimo possível para prover esse serviço."

A função de sugestões pode ser desativada no navegador ou durante o uso da ferramenta de busca por meio de sua homepage, mas a maneira de fazer isso não é imediatamente evidente.

Uma forma é por meio do modo "anônimo" do Chrome, que desativa o recurso de sugestões e permite aos usuários navegar sem revelar suas atividades às pessoas que têm acesso ao mesmo computador. No entanto, o Consumer Watchdog contesta o design do "anônimo". O grupo alega que o recurso dá a impressão de que sua navegação é completamente privada, enquanto na verdade o Google ainda está trocando algumas informações entre o computador do usuário e os servidores da companhia.

O Google também aborda essa queixa. A função "anônimo" permite aos usuários surfar sem deixar um rastro de páginas visitadas ou cookies, mas não pode camuflar totalmente a atividade na internet de alguém do mundo exterior.

"Tentamos ser bem honestos com os usuários que ativam esse modo a respeito do que ele pode ou não proporcionar," disse Rakowski.

Embora o Chrome seja novo, o Consumer Watchdog não vai esperar para ver se ele vai deslanchar. Em outubro, o grupo de Court escreveu ao secretário de Justiça americano Michael Mukasey para alertá-lo a respeito dos planos do Google de vender anúncios para o Yahoo, dizendo que os temores sobre o poder de mercado do Google cresceram exacerbadamente com o lançamento do Chrome.

"Estamos falando sobre o monopólio de nossas informações pessoais, que, se caírem em mãos erradas, podem ser usadas de forma muito perigosa contra nós," disse Court.

Michael Yang, conselheiro sênior de produtos do Google, disse que a companhia não usa nenhum dado do Chrome para realizar melhorias ao seu serviço de anúncios.

Mas isso não tranqüiliza os críticos da privacidade, que temem que o Google um dia comece a fazê-lo para melhor capitalizar seu vasto público. Cerca de 650 milhões de pessoas usam a ferramenta de buscas do Google e seu rol de serviços da web.

"A forma pela qual o Google desenvolveu o Chrome é um cavalo de Tróia digital para coletar quantidades ainda maiores de dados de consumidores para seu negócio de anúncios," disse Jeff Chester, diretor executivo para o Center for Digital Democracy, uma organização de direitos do consumidor. Por agora, pelo menos, o Google planeja adotar apenas uma das mudanças sugeridas pelo Consumer Watchdog. Quando os usuários digitam um endereço de site incorretamente, o Chrome envia um requerimento ao Google para ajudar a determinar o site que o usuário realmente está tentando acessar. Isso acontece inclusive quando os usuários navegam "anônimos", e Rakowski disse que isso foi um equívoco.

"É algo que estamos priorizando para consertar," afirmou.

Isso não significa que o Google está evitando mudanças relativas à privacidade. Em julho, a companhia começou a disponibilizar um link para sua política de privacidade em sua página principal. Ele também começou recentemente a tornar anônimos os dados que armazena por meio do recurso de sugestões.

Mas outra medida pertinente à privacidade pode dizer mais sobre a percepção geral a respeito do Google.

Em setembro, para tranqüilizar oficiais de proteção de dados da União Européia, o Google disse que manteria seus registros de busca - que rastreiam termos de busca e o endereço IP de onde vieram - por nove meses, ao invés de 18, como vinha fazendo. Depois desse período, o Google vai alterar o IP para mascarar sua fonte. (Isso provavelmente não vai proporcionar anonimato verdadeiro, já que uma lista agregada de termos de busca pelo tempo provavelmente vai revelar pistas sobre quem os criou.)

O Google esperava que a medida lhe favorecesse. Afinal, a Microsoft espera 18 meses antes de tornar seus registros anônimos e o Yahoo, 13. Mesmo assim, a justiça européia e o comissário de assuntos internos disseram que o Google deveria diminuir ainda mais seus registros, para seis meses. Davies, da Privacy International, considera a mudança de 18 para nove meses "pouco relevante".

Court afirma que, com todos seus produtos, o Google tem mais oportunidades que seus concorrentes para capturar informações pessoais sem o conhecimento dos usuários.

"Os fundadores do Google podem dizer, 'vamos proteger aquela informação', mas nenhuma outra companhia," afirmou, "está tão bem posicionada a explorar aquela informação quanto o Google."

Tradução: Amy Traduções

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