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Tecnologia

 
 

A revolução digital chega à palavra impressa

12 de novembro de 2008 09h17

"Por que os livros são o último baluarte da tecnologia analógica?", perguntou Jeff Bezos, presidente-executivo da Amazon.com, em novembro do ano passado, quando sua empresa lançou o Kindle, um leitor eletrônico portátil. Por muito tempo, depois que outras mídias aderiram à revolução digital - e em alguns casos depois de sofrer suas conseqüências adversas -, as editoras de livros continuaram fiéis a reconfortantes ferramentas de baixa tecnologia como a impressão, a tinta e o papel.

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Um ano depois, parece que esse baluarte enfim começa a ceder. O mundo dos livros também está se transformando em um mundo digital.

Recentemente, escritores e editoras norte-americanos chegaram a acordo com o Google quanto ao programa de busca de livros do grupo, sob o qual o Google está digitalizando o conteúdo de milhões de livros e fornecendo seu conteúdo via Internet. O acordo permite que o Google venda versões eletrônicas de trabalhos protegidos por direitos autorais que estejam fora do prelo, uma categoria que inclui a vasta maioria dos livros do planeta.

"Assim, do dia para a noite, não só surgiu o maior acordo editorial de todos os tempos mas a maior livraria do mundo, ainda que ela não esteja funcionando plenamente até agora", escreveu Neil Denny, editor do Bookseller, um boletim do setor, em seu blog.

O acordo ainda precisa ser aprovado por um tribunal norte-americano, e por enquanto a livraria funciona apenas nos Estados Unidos. Mas ele é apenas uma das muitas iniciativas sob as quais os livros estão fazendo aquilo que parece ser o maior salto tecnológico desde que Gutenberg inventou a impressão mecânica.

Este mês, um grupo de bibliotecas e arquivos nacionais europeus planeja abrir o Europeana, um banco de dados online contendo dois milhões de livros e outros itens históricos e culturais, entre os quais filmes, quadros, jornais e gravações sonoras. As cartas de Mozart aos amigos, parte do acervo da Biblioteca Nacional Austríaca, em Viena? Estão lá. Partituras de seus primeiros trabalhos, que integram o acervo da Bibliothèque Nacionale de France? Idem.

Enquanto isso, as editoras levam adiante diversas iniciativas digitais, e aproveitam a Internet para marketing, distribuição e até criação de livros. Em alguns casos, elas concorrem com empresas iniciantes de Internet cujas idéias são semelhantes.

"O modelo de negócios dos livros está sob assédio, como a indústria da música esteve anteriormente", disse Eileen Gittins, presidente-executiva da Blurb, uma empresa do Vale do Silício que ajuda escritores a publicar seus livros na Internet. "E as editoras puderam assistir da primeira fila o que aconteceu com as gravadoras".

Até agora, o setor não parece destinado a problemas semelhantes. Enquanto a pirataria digital dizimava o setor de música nos 10 anos passados, as vendas de livros continuavam a crescer - auxiliadas, de fato, pela capacidade de pesquisar títulos e comprar propiciada por grandes centrais de varejo online como a Amazon.

Mas existem sinais preocupantes. As vendas de livros nos Estados Unidos caíram em 1,5% nos primeiros nove meses deste ano, de acordo com a Associação Americana de Editoras.

Entre os poucos pontos positivos nos números editorais estão os chamados e-books, para leitura em aparelhos como o Kindle, celulares ou computadores. As vendas de e-books norte-americanas subiram 55% ante o ano anterior, e o crescimento se acelerou a 78% em setembro.

Restam questões sobre a melhor maneira de levar livros eletrônicos aos leitores. Nos Estados Unidos, a recente alta de vendas se seguiu à introdução do Kindle e a melhoras em aparelhos concorrentes como o Sony Reader, que permite que usuários baixem livros sem fio ou de um computador conectado à Internet.

Mas na Europa, onde esses aparelhos estão demorando mais a surgir, as vendas de e-books continuam na infância. O preço deles - o Kindle custa US$ 359 nos Estados Unidos, por exemplo - pode afastar alguns leitores, dizem analistas.

No Japão, outro dispositivo portátil, o celular, se provou a forma mais popular de ler e-books até o momento, de acordo com a Associação de Conteúdo Digital do país. As vendas de versões digitais de mangás lideram o setor. A editora Penguin também anunciou fortes esperanças de venda de e-books a usuários de celulares em mercados como o da Índia.

Cerca de meio milhão de pessoas em mais de 50 países baixaram o Stanza, um software que permite que leiam e-books no iPhone, disse Michael Smith, presidente do Fórum Internacional de Editoração Digital, de Toronto. "A adoção está acontecendo", disse. "Não se trata de teoria. Está em curso".

Uma pesquisa publicada quando da Feira do Livro de Frankfurt, no mês passado, demonstrava que 40% dos profissionais editorais acreditavam que vendas digitais, não importa em que formato, superariam as vendas de conteúdo em papel por volta de 2018.

Isso representaria um grande salto, já que a receita dos e-books e outras formas digitais continuam minúsculas - menos de 1% das vendas mundiais do Penguin Group, de acordo com Genevieve Shore, diretora digital da Penguin, em Londres.

Mas o acordo entre o Google e as editoras e escritores norte-americanos pode servir como catalisador, dizem analistas. Sob os termos propostos, o Google dividiria a receita das vendas com editoras e autores. "Estamos muito animados com isso", disse Shore. "Significa que não estamos mais em conflito com uma empresa importante em nossas vidas online".

As editoras também estão em busca de outras maneiras para vender livros em forma digital. Shore disse que a Penguin estava considerando planos de assinatura sob os quais os leitores pagariam taxa mensal por acesso online a best sellers. Outra possibilidade, diz, seria oferecer livros grátis ou a preço reduzido, bancados por publicidade - uma abordagem adotada pela maioria dos sites de jornais online.

"Teremos alguns modelos de negócios novos e interessantes no mercado em 2009", disse Shore.

Versões eletrônicas gratuitas de alguns livros já estão disponíveis há anos. O Project Gutenberg, um esforço voluntário de arquivo eletrônico de livros, tem mais de 25 mil títulos disponíveis para download. A Feedbooks, uma empresa iniciante de Paris, está formatando muitos deles para leitura com aparelhos portáteis.

Mas existem limites para o que um leitor pode encontrar na Feedbooks. O romance 1984, de Orwell, por exemplo, está disponível, mas best sellers recentes não. Isso acontece porque os arquivos da organização abrigam principalmente livros que estejam em domínio público, ou seja, cujos direitos autorais tenham vencido.

O acordo do Google com os detentores desses direitos nos Estados Unidos envolve em larga medida outro tipo de obra: livros cujos direitos autorais continuam vigentes mas que não estão sendo reimpressos. Muitas editoras afirmam que é quanto a isso que a digitalização poderia fazer a maior diferente, permitindo que editoras ofereçam muito mais livros aos leitores.

Na Europa, o Google optou por não incluir esse tipo de livros nos resultados do programa de busca de livros integrado ao seu sistema de buscas. Mas assinou com sete renomadas bibliotecas européias, entre as quais a Bodleian, da Universidade de Oxford, e a Biblioteca Municipal de Lyon, na França, para seu projeto de digitalização de livros.

"Isso ilustra o quanto o conteúdo europeu é importante para nós", diz Santiago de la Mora, o diretor de parcerias européias do Google Book Search. "Queremos oferecer conteúdo relevante aos nossos usuários em todos os países".

Os esforços para criar bibliotecas ou livrarias online continuam a ser mais complicados na Europa que nos Estados Unidos. Ao mostrar porções de livros protegidos por direitos autorais nos resultados de busca do Google Search fornecidas no mercado norte-americano, o Google se declarou protegido pela cláusula de "uso justo" na lei norte-americana de direitos autorais, que permite cópia de porções limitadas de uma obra. Em um documento de orientação divulgado meses atrás, a Comissão Européia argumentou que defesa semelhante não seria admissível para sites europeus de Internet.

A comissão quer facilitar a liberação de direitos autorais para esse tipo de livro, um processo que pode ser bem complicado na Europa. Negociações patrocinadas pela comissão entre as agências européias de defesa de direitos autorais, editoras e outros interessados devem começar na semana que vem.

E enquanto os modelos de negócios do segmento evoluem, as editoras empregam a Internet para promover livros de maneira mais imaginosa. Empresas como a Penguin e HarperCollins criaram redes sociais dirigidas a grupos específicos de leitores - como turistas ou adolescentes -, para que eles troquem opiniões sobre livros. A Penguin há alguns meses se uniu ao site de namoros Match.com para criar um site que facilite contatos românticos entre pessoas que gostam de livros.

"O que a tecnologia propicia é a capacidade de promover conexão com outros leitores", diz Shore, a diretora de operações digitais da Penguin. "É importante que os livros sejam vistos como uma mídia digna de discussão".

Tradução: Paulo Migliacci ME

Herald Tribune
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