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Tecnologia

 
 

Internet pode alterar o funcionamento do cérebro, diz médico

05 de dezembro de 2008 13h36 atualizado às 14h12

O psiquiatra Gary Small diz que a Internet pode enfraquecer circuitos cerebrais. Foto: AP

O psiquiatra Gary Small diz que a Internet pode enfraquecer circuitos cerebrais
Foto: AP

Que aparência tem o cérebro de um adolescente usuário do Google? Será que todas aquelas horas passadas na Internet alteram os circuitos cerebrais? Será que esses jovens se relacionam melhor com emoticons do que com pessoas reais? Esse tipo de preocupação parece típico de pais ansiosos. Mas na verdade o assunto preocupa os cientistas do cérebro.

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Embora videogames violentos sejam alvo de séria atenção pública, algumas das preocupações atuais vão bem além disso. Alguns cientistas acreditam que o mundo conectado pode estar alterando a maneira pela qual lemos, aprendemos e interagimos uns com os outros.

Talvez ainda não existem respostas firmes. Mas o Dr. Gary Small, psiquiatra da Universidade da Califórnia em Los Angeles, argumenta que a exposição diária a tecnologias digitais como a Internet e a celulares inteligentes pode alterar a maneira pela qual o cérebro funciona.

Quando o cérebro passa mais tempo envolvido em tarefas relacionadas à tecnologia e menos tempo exposto a outras pessoas, ele se afasta das habilidades essenciais no trato social, como por exemplo a interpretação de expressões faciais durante uma conversa, afirma Smalls.

Assim, os circuitos cerebrais envolvidos no contato interpessoal podem perder a força, ele sugere. Isso poderia gerar desconforto em situações sociais, incapacidade de interpretar mensagens não verbais, isolamento e menos interesse nas formas tradicionais de aprendizado escolar.

Small diz que o efeito é mais forte nos chamados "nativos da era digital" - as pessoas que estão na adolescência e na casa dos 20 anos e "estão conectadas à tecnologia digital desde a primeira infância". Ele acredita que seja importante ajudar os nativos da era digital a melhorar suas habilidades no trato social, e as pessoas mais velhas - os imigrantes da era digital - a melhorar seus conhecimentos tecnológicos.

Ao menos um jovem entusiasta da Internet recebe as idéias de Small com alguma desconfiança. John Rowe, 19, vive perto de Pasadena, na Califórnia, e passa entre seis e 12 horas diárias online. Ele alterna entre trocas de mensagens instantâneas com seus amigos e jogos como Cyber Nations e Galaxies Ablaze, e também utiliza grupos de discussão para adeptos dos jogos de computador e DJs.

Trato social? Rowe avalia que ele e seus colegas estão se saindo bem também nesse departamento, muito obrigado. Mas estima que Small talvez tenha alguma razão com relação a algumas pessoas que conhece.

"Se eu não me esforçasse deliberadamente para sair e manter contato com os amigos, não teria desenvolvido minhas habilidades sociais", diz Rowe, que calcula que passe três ou quatro noites por semana com seus amigos. "Não se pode simplesmente abrir mão de ter amigos normais a quem você encontra em pessoa todos os dias".

Mais de dois mil anos atrás, Sócrates alertou sobre uma revolução diferente na informação - a ascensão da palavra escrita, que ele considerava como forma de aprendizado mais superficial do que a tradição oral. Mais recentemente, o surgimento da televisão despertou preocupações quanto à possibilidade de que as crianças se tornassem mais passivas ou violentas, ou que desenvolvessem maior dificuldade de aprender.

Small, que descreve suas preocupações com a situação atual em um livro chamado iBrain: Surviving the Technological Alteration of the Modern Mind ("iBrain: sobrevivendo à alteração da mente moderna pela tecnologia), reconhece que não tem argumentos irrebatíveis a apresentar quanto às mudanças que a tecnologia estaria provocando nos circuitos mentais.

Mas ainda assim suas idéias são "bastante interessantes e certamente instigantes", embora prová-las seja difícil, diz Tracey Shors, pesquisadora do cérebro na Universidade Rutgers.

Mas há observadores céticos. Robert Kurzban, psicólogo da Universidade da Pensilvânia, diz que os cientistas têm muito a aprender sobre como as experiências de uma pessoa afetam seus circuitos cerebrais em termos de interação social.

A vida na era do Google pode mudar até mesmo a maneira como lemos.

Normalmente, quando uma criança aprende a ler, o cérebro constrói percursos que gradualmente permitem uma análise e compreensão mais sofisticada, diz Maryanne Wolf, da Universidade Tufts.

Ela classifica essa análise e compreensão sob a rubrica "leitura profunda". Mas isso requer tempo, mesmo que apenas uma fração de segundo, e o moderno mundo conectado confere primazia à velocidade, ou seja, à obtenção rápida do maior volume possível de informação, ainda que superficial.

Wolf questiona o que acontecerá à medida que as crianças começarem a realizar mais e mais de suas primeiras leituras online. Os cérebros delas responderão contornando certas porções dos percursos normais de leitura, exatamente as que conduzem à compreensão profunda mas requerem mais tempo? E isso prejudicará a capacidade delas de compreender o que leram?

As questões merecem estudo, acredita Wolf. Em sua opinião, as crianças precisam de instrução adaptada a obter compreensão das leituras que fazem no mundo digital.

Alguns pesquisadores sugerem que o cérebro na verdade se beneficia de um uso intenso da Internet.

Um grande estudo conduzido por Mizuko Ito, da Universidade da Califórnia em Irvine, concluiu recentemente que o tempo investido em conversas online com amigos - por exemplo, no envio de mensagens instantâneas - oferece aos adolescentes lições importantes de que precisarão para o trabalho e a vida social na era digital. Isso inclui lições sobre questões como a privacidade online e o que é apropriado postar e comunicar na Internet, diz Ito.

Rowe diz que ele e seus amigos muitas vezes discutem se a tecnologia não é prejudicial. Isso envolve debater o argumento de que usar muito o computador torna as pessoas ineptas em termos sociais.

Ele diz, evidentemente, que "nós passamos muito tempo no computador e ainda assim temos vidas sociais normais e perfeitas".

Tradução: Paulo Migliacci ME

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