
Madeline Drexler
A fonte de calor vem de um par de faróis. O alarme do carro sinaliza emergências. Um filtro de ar e um ventilador fornecem o controle climático. Mas esse dispositivo nada tem a ver com transporte. Trata-se de uma robusta incubadora de baixo custo, desenvolvida para manter aquecidos recém-nascidos vulneráveis durante seus primeiros frágeis dias de vida.
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Diferente das incubadoras encontradas em unidades neonatais de terapia intensiva dos Estados Unidos, conhecidas por exigir grande manutenção, essas são de reparo fácil, porque todas as suas partes operacionais vêm de carros. E enquanto as incubadoras podem chegar a custar US$ 40 mil ou mais, essa pode ser construída por menos de US$ 1 mil.
Os criadores da incubadora feita com partes de carro - um projeto promovido pela Global Health Initiative no Centro de Integração de Medicina e Tecnologia Inovadora, ou Cimit, uma sociedade sem fins lucrativos de escolas de engenharia e hospitais-escolas de Boston - dizem que ela poderia prevenir milhões de mortes de recém-nascidos nos países em desenvolvimento.
As principais causas de morte de recém-nascidos - infecções, parto prematuro e asfixia - são prontamente tratáveis com técnicas e equipamento corretos, disse o doutor Kristian Olson, principal pesquisador do projeto. Segundo ele, essas eram causas "de fácil solução" dentre as intervenções de saúde global.
"É tão frustrante ver mortes que podiam ser prevenidas," ele disse. "Não se dá nomes a bebês em Aceh, Indonésia, até eles completarem dois meses de vida. É uma adaptação cultural à expectativa da morte."
Mecanicamente, as incubadoras são aparelhos simples, que fornecem um ambiente aquecido e limpo, semelhante ao útero, no qual o bebê pode amadurecer (embora modelos de última geração possam também ter acessórios como máquinas de raio-X embutidas e colchões giratórios). Baixo peso e outros problemas fazem com que recém-nascidos tenham dificuldade especial em regular sua temperatura corporal, uma condição que pode levar à falência de órgãos.
Na incubadora feita com partes de carros, os bebês nascidos de uma gestação de 32 semanas ou mais podem receber oxigênio suplementar enquanto seus pulmões ganham força, antibióticos para infecções e silêncio com baixa luminosidade para dormirem se suas mães estiverem longe ou não puderem segurá-los. Em uma emergência, o berço da incubadora pode ser removido e carregado para outra parte do edifício ou até mesmo para outro hospital.
Na verdade, especialistas dizem, os países em desenvolvimento não precisam de mais incubadoras. Eles precisam de incubadoras que funcionem. Ao longo dos anos, nações ricas doaram milhares de unidades que acabaram em "cemitérios de incubadoras" - a maioria quebrada, algumas sequer abertas.
Segundo um estudo de 2007 da Universidade Duke, 96% dos equipamentos médicos doados por nações estrangeiras quebram dentro de cinco anos ¿ a maioria por causa de problemas elétricos, como oscilações de voltagem, queda de energia e botões quebrados, ou por causa de problemas no treinamento, como negligência no envio de manuais com os aparelhos.
Para compensar essa miopia filantrópica, equipes médicas aumentam a temperatura das "salas das incubadoras" para 37°C ou mais, ou embrulham os bebês em plástico para manter o calor corporal. Tais soluções improvisadas levaram a equipe de Boston a se perguntar: como fazer uma incubadora para o mundo em desenvolvimento que possa ser consertada?
Uma pessoa que ponderou sobre a questão em 2006 foi o doutor Jonathan Rosen, então diretor do programa de implementação de tecnologia do Cimit. Um defensor da tecnologia biomédica sustentável, Rosen, agora parte da Escola de Administração da Universidade de Boston, usa o termo "recurso orgânico" para descrever o princípio de desenvolver aparelhos médicos a partir de qualquer material encontrado em abundância localmente.
Em suas discussões com médicos que atuam em ambientes carentes, Rosen aprendeu que não importava quão remoto o local, parecia sempre haver um Toyota 4Runner funcionando. Foi seu momento de epifania, recordou posteriormente: por que não fazer incubadoras com partes de carros novos e usados, ou ensinar mecânicos locais a serem tecnólogos médicos?
O Cimit então contratou a Design That Matters, uma empresa sem fins lucrativos de Cambridge, Massachusetts, para desenvolver a máquina. "A idéia era começar com um 4Runner", disse Timothy Prestero, fundador e chefe-executivo da firma, "e retirar todas as partes que não pertenciam a uma incubadora."
Isso resultou em um aparelho cinza de aparência séria que evocava um carrinho de bebê cibernético, mas que se adequava perfeitamente a hospitais e clínicas com poucos recursos. Primeiramente, a oferta de partes para reposição é praticamente ilimitada, porque o protótipo modular pode ser adaptado a qualquer tipo ou modelo de carro.
"Ferros-velhos são ótimas fontes dessas partes," disse Robert Malkin, diretor do Engineering World Health, um programa sediado na Universidade Duke, não filiado ao projeto da incubadora. "Temos projetos de bombeadores e aspiradores cirúrgicos que se baseiam em partes de carros."
Além disso, o pessoal responsável pelo conserto também estará envolvido. "Os futuros tecnólogos médicos do mundo em desenvolvimento," Malkin disse, "são os atuais mecânicos de carros, técnicos de climatização e de bicicletas. Não existe outra fonte melhor de indivíduos especialistas em tecnologia que poderiam assumir o futuro do reparo e manutenção dos equipamentos médicos."
Nem todo mundo concorda que a incubadora feita com partes de carros seja a melhor solução para combater a morte de recém-nascidos. Os céticos citam uma série de artigos de 2005 do jornal britânico The Lancet, que listava intervenções comprovadas - incluindo visitas de acompanhamento gestacional, cuidados especializados no parto e tratamento de emergência pós-parto - que poderiam erradicar até 72% das mortes neonatais no mundo.
"Mesmo se fizermos apenas o que conhecemos hoje, poderíamos salvar cerca de dois terços dos recém-nascidos que ainda morrem," disse o doutor Stephen Wall, conselheiro de pesquisa sênior da Save the Children, uma organização independente sem fins lucrativos.
Com seu trabalho em países carentes de recursos, Wall promoveu fortemente a estratégia chamada de mãe canguru, na qual o bebê é colocado no peito da mãe imediatamente e continuamente após o nascimento, assegurando calor através do contato de pele e da amamentação.
Foi documentado que o método aumentou a sobrevivência de bebês de baixo peso clinicamente estáveis e Wall disse que os médicos de saúde global deveriam promover a prática com mais vigor antes de apoiarem um novo aparelho. Ele observa que a maioria dos bebês no mundo em desenvolvimento nasce em casa, e não em hospitais.
"Por enquanto," ele disse, "existe uma necessidade urgente de fornecer soluções simples que possam ser empregadas pelas famílias, informações que possam ser compartilhadas através de assistentes de saúde comunitários e grupos de mulheres ou outros mecanismos da comunidade."
Mas outros vêem a questão de modo diferente. "Mães doentes que não podem cuidar dos filhos e mães que não podem amamentar normalmente não realizam o cuidado canguru," disse Malkin, da Duke. Nem as mães que precisam voltar ao trabalho para sustentar a família, ou que culturalmente costumam carregar os bebês nas costas e não no peito.
Além disso, o método canguru em si não é suficiente para ajudar os bebês menores e mais doentes. Embora bebês de baixo peso componham apenas 14% dos recém-nascidos, eles constituem de 60% a 80% das mortes neonatais.
"A conclusão é sim, precisamos de mais tecnologia hospitalar simples para casos complicados," disse a doutora Renee Van de Weerdt, chefe de saúde maternal, de recém-nascidos e crianças da UNICEF. "Ao mesmo tempo, precisamos acelerar os esforços de incentivo ao cuidado por contato mãe-bebê nos casos sem complicações."
A incubadora com partes de carros recebeu um financiamento inicial de US$ 150 mil do Cimit. A equipe do projeto busca apoio de fundações para desenvolver um protótipo funcional. Por não depender de produtos ou processos originais, a incubadora provavelmente não será patenteada, mas o Hospital Geral de Massachusetts (no qual Olson trabalha) e a Design That Matters dividirão os direitos de propriedade intelectual.
Enquanto isso, a equipe está refinando seu modelo de negócio e solidificando as parcerias no exterior. "A tecnologia é a parte menos difícil do problema," disse o senhor Prestero. "Fabricação, financiamento, distribuição e aprovação regulatória: essas são as principais barreiras. Não existem muitos exemplos de sucesso de produtos bem estruturados para servir aos pobres."
Se os órgãos de saúde internacionais como a Organização Mundial de Saúde e o Fundo de População da ONU apoiarem a incubadora, ele disse, isso poderia acelerar a adoção do aparelho em países em desenvolvimento, mesmo sem a aprovação da Food and Drug Administration, órgão regulador de alimentos, medicamentos e equipamentos médicos nos Estados Unidos.
Olson diz que sua determinação para criar uma incubadora barata e confiável - e o treinamento médico para acompanhá-la - foi reforçada por uma visita neste ano ao Hospital Cut Nyak Dhien, um edifício de concreto de um andar, localizado na cidade de Meulaboh, Indonésia, arrasada pelo tsunami.
"Quando entrei na sala das incubadoras," ele disse, "uma família inteira chorava sobre um berço." Seu bebê de sete dias de vida, que nasceu um pouco abaixo do peso e com uma infecção, havia morrido, após ter sido deixado por horas em um berço frio. Com calor e cuidados adequados, ele teria sobrevivido.
Amontoadas na sala, estavam seis incubadoras de alta tecnologia doadas pelo Ocidente. Nenhuma delas funcionava.
Tradução: Amy Traduções
The New York Times
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Design that Matters/The New York Times
Mais barata, a incubadora foi criada para ser usada nos países em desenvolvimento
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