Eletrônicos

› Tecnologia › Eletrônicos

Eletrônicos

Quarta, 31 de dezembro de 2008, 15h55 Atualizada às 16h00

Cisco aposta no entretenimento para a CES 2009

Saul Hansell

Seu encanador gostaria de tirá-lo para dançar. A Cisco Systems, principal fornecedora da "tubulação" digital por onde corre a internet, faz uma grande aposta no entretenimento digital. Em janeiro, na mostra Consumer Eletronics de Las Vegas, a empresa planeja apresentar uma nova linha de produtos, como um sistema de som digital que permite distribuir música pela casa sem qualquer fio. Esse é o primeiro pequeno passo de uma estratégia de longo prazo para bater a Apple, a Sony e outros gigantes da eletrônica de consumo.

» O fim das lan houses está próximo, diz Cisco
» Microsoft nega anúncio de Zune Phone na CES

A Cisco trabalha em outros aparelhos que permitirão assistir mais facilmente a vídeos da internet em suas televisões. E sua grande aposta é que as pessoas vão querer usar uma versão de seu sistema de videoconferência corporativo, o Telepresence, para conversar com amigos através de suas televisões de alta definição.

Há anos a companhia demonstra interesse em chegar até os consumidores finais. Na mesma mostra de dois anos atrás, John T. Chambers, chefe-executivo da companhia, expôs uma estratégia para construir redes de entretenimento domésticas. Na mostra do ano passado, prometeu novas tecnologias que ajudariam companhias de mídia a publicar mais vídeos que pudessem passar nessas redes caseiras. Mas após atrasos, mudanças de planos e designação de um novo executivo para supervisionar o processo, a Cisco agora diz que o primeiro de seus produtos chegará às prateleiras, com os sites de vídeo na web, em janeiro.

Apesar de novata no negócio de eletrônicos de consumo, a Cisco afirma que após anos de promessas do setor, só agora esses aparelhos estão tirando proveito das conexões de banda larga e das redes domésticas. "Nesse feriado, a vasta maioria dos eletrônicos de consumo comprados estará conectada," disse Ned Hooper, vice-presidente sênior da Cisco, em entrevista antes do Natal. Hooper foi designado como responsável pelo impulso na eletrônica de consumo há um ano. Muitos tocadores de música, câmeras digitais, consoles de jogos, aparelhos de Blu-ray e uma variedade de conversores se conectam à internet diretamente ou por meio de um computador.

Embora digitais, a maioria das televisões de alta definição vendidas até agora não possui conexão à internet. Mas Hooper sustenta que as televisões logo estarão conectadas às redes domésticas e à internet.

"Estamos todos investindo muito em televisão de alta definição, mas tudo que fazemos é assisti-la da mesma forma," disse Hooper. "Na verdade, elas podem oferecer todo tipo de experiência, seja ver fotos de família ou se conectar à internet para ver vídeos."

A Cisco pode se valer de muitos de seus produtos corporativos para ajudar a criar eletrônicos domésticos. Ela é líder na fabricação de roteadores e comutadores, os aparelhos que desempenham o papel dos semáforos na internet durante uma conexão entre computadores. Em 2005, a empresa comprou a Scientific Atlanta, uma das líderes na fabricação de equipamentos para TV a cabo. E a Linksys, comprada em 2003, é a campeã em vendas de aparelhos para criar redes com e sem fio em residências ou pequenas empresas.

Vendas diretas ao consumidor representaram apenas 2% dos US$ 40 bilhões em vendas da Cisco em seu último ano fiscal. Mas a companhia aposta no entretenimento doméstico, com a Scientific Atlanta e outras novas iniciativas batizadas de "tecnologia avançada," para seu crescimento.

Apesar da dominância da Cisco no mercado corporativo e seus US$ 27 bilhões em caixa, ela enfrenta inúmeros desafios na tentativa de encontrar um lugar nos lares. A marca Cisco não é associada a eletrônicos de consumo. A companhia tem comerciais dinâmicos com a chamada "bem-vindos à rede humana," mas não está claro o que exatamente a Cisco oferece aos consumidores.

"Não acho que, quando as pessoas escutam o nome Cisco, pensem em grandes eletrônicos de consumo," disse John MacFarlane, chefe-executivo da Sonos, que já fabrica sistemas sem fio que distribuem música pela casa.

Com exceção da Apple, as outras companhias de computador não tiveram muito sucesso com os eletrônicos de consumo. A Dell e a Gateway têm entrado e saído dos negócios de aparelhos de televisão e música. A Hewlett-Packard ainda tenta vender computadores, servidores e interfaces que levam vídeos a outros lugares da casa, mas, também, desistiu do mercado televisor. A Intel, fabricante de chips de computador, abandonou sua linha Viiv de processadores para aparelhos multimídia após os consumidores desprezarem os dispositivos, que foram promovidos como a chave para transportar conteúdo ao redor da casa.

Hooper diz que a Cisco não tem interesse em vender televisões. Ela vai continuar a fabricar conversores que trazem programas pelo cabo ou pela internet, mas supõe que no futuro todas as televisões estarão integradas diretamente às redes domésticas.

Os consumidores, entretanto, não demonstraram tanto interesse em conversores, apesar de muitas ofertas de companhias como TiVo, Vudu e Roku. O mais bem-sucedido foi o Apple TV, que pode ser usado para assistir a filmes e programas de televisão baixados da internet, mas ainda considerado pelo chefe-executivo da Apple, Steve Jobs, mais um "passatempo" do que um ramo de negócio como o iPod ou o iPhone.

Não está tão claro para os consumidores por que precisariam de vídeos online quando possuem centenas de canais e cada vez mais escolhas pay-per-view em seus sistemas a cabo. "Os consumidores estão relutantes em pagar por outro serviço e encontrar espaço na sala para outro aparelho que oferece muito do que já conseguem com a TV a cabo," disse Ross Rubin, analista de eletrônica de consumo do NPD Group. Ao fortalecer a linha de produtos eletrônicos voltados diretamente a usuários finais, a Cisco tem outras formas de lucrar com o crescimento de redes domésticas. Sua unidade da Scientific Atlanta vende conversores para companhias de TV paga, como um gravador de vídeo oferecido como parte do serviço de televisão Uverse, da AT&T. Ela está dividindo a receita de anúncios com as companhias de mídia cujos sites administra. E quer desenvolver tecnologias possibilitando que provedores de internet e companhias de mídia vendam novos serviços baseados na Web por uma taxa mensal. Um exemplo disso seria possibilitar que as pessoas armazenassem música e vídeo na internet, ao invés de gravarem em discos ou no computador, de forma que pudessem acessá-los de qualquer lugar.

"Hoje seu conteúdo está estreitamente ligado a um aparelho," disse Hooper. "Sua música está ligada a seu iPod. Seus jogos ao PlayStation." A Cisco está pressionando as companhias de mídia para mudar seus modelos de negócio e vender direitos digitais de seu conteúdo mais flexíveis. "Se esqueci de sincronizar meu iPod antes de sair de casa, posso fazê-lo no hotel," disse Hooper.

Por fim, disse Hooper, a companhia espera que a maior parte do dinheiro venha da videoconferência doméstica. Hoje, a Cisco realiza um enorme esforço para vender salas com o Telepresence para corporações, a um custo de US$ 40 mil a US$ 300 mil cada. Elas incluem grandes televisores de alta definição e um poderoso sistema de áudio em cada extremidade, com conexão à internet em alta velocidade para simular reuniões presenciais.

A Cisco prevê lançar uma versão mais barata para consumidores dentro de um ou dois anos. Os consumidores colocariam uma pequena câmera próxima à televisão para conversar com amigos e parentes no sofá de casa. A empresa tenta desenvolver padrões que tornem uma chamada de vídeo tão fácil quanto discar um número de telefone e que permitam que o receptor veja um alerta de ligação em sua televisão.

Hooper disse que essa tecnologia seria tão melhor que conversar por webcams que os usuários estariam dispostos a pagar a suas companhias de cabo uma taxa mensal para isso. "Uma vez que você pode ter a qualidade da alta definição, com manejo simples e experiência de alta qualidade, vale a pena," disse Hooper.

Para a Cisco, no entanto, o maior lucro talvez não esteja nos dispositivos, mas no encanamento. O vídeo é de longe o maior usuário da banda larga, e quanto mais pessoas usam a Web para assistir a programas, mais as redes serão forçadas a comprar roteadores, comutadores e equipamentos.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times

Enquete

  • Você acha que a Cisco pode se tornar uma gigante no negócio de eletrônicos de consumo?
  • Sim
  • Não
  • Busque outras notícias no Terra