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Tecnologia

 
 

Apple encara a possibilidade de um futuro sem Jobs

17 de janeiro de 2009 11h42 atualizado às 12h07

Jobs anunciou afastamento temporário da Apple: ficará fora até junho. Foto: EFE

Jobs anunciou afastamento temporário da Apple: ficará fora até junho
Foto: EFE

A pergunta está no ar já há algum tempo, e agora a Apple não tem mais como evitá-la. Qual é a importância de Steve Jobs para o futuro da empresa? Todos os observadores concordam em que o perfeccionismo, o estilo de gestão autocrático e o desdém que Steve Jobs sempre demonstrou pela opinião dominante ocupam posição central na notável sequência de sucessos que a Apple vem registrando nos últimos anos.

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Desde que ele voltou à companhia, em 1996, a Apple estabeleceu novos paradigmas para o projeto de computadores pessoais, criou uma rede de lojas sofisticadas e sempre repletas de consumidores, ajudou a revolução da música digital a encontrar um caminho comercial e transformou o celular em um computador divertido e flexível.

Tudo isso serve claramente como base para uma posição lendária no mundo dos negócios. Mas agora a empresa enfrenta uma possibilidade real de que seu líder e inspirador termine por sair de cena. Jobs, co-fundador e presidente-executivo da Apple, anunciou na quarta-feira que tiraria licença de suas funções na empresa até junho porque seus problemas de saúde - ele sobreviveu a um câncer pancreático - são "mais complicados" do que ele havia estimado inicialmente.

A sucinta carta em que ele comunicava o fato, depois de ter afirmado ainda na semana passada que sua situação de saúde não era problemática, faz com os observadores da Apple se perguntem o que poderia acontecer na empresa caso Jobs não seja capaz de retomar seu posto em junho, como planejado.

Os analistas não demoram a apontar para a força dos quadros executivos da companhia. Timothy Cook, vice-presidente de operações do grupo há muito tempo, assumirá o comando ao menos temporariamente, e manterá o controle das operações industriais e de vendas da Apple, que causam inveja a todo o setor de eletrônica.

Jonathan Ive, o vice-presidente de design da Apple, comanda a equipe que criou boa parte do apelo emocional, visceral e funcional dos produtos da companhia, que estende suas preocupações de design até mesmo à criação de embalagens elegantes.

Mas alguns observadores e antigos funcionários da Apple demonstram ceticismo quanto ao futuro da empresa caso ela se veja forçada a seguir adiante sem Jobs ao leme.

"Se considerarmos a história da companhia, podemos presumir que ela poderá funcionar sem uma liderança vigorosa por alguns anos e ainda assim se sair bem", diz Paul Mercer, que trabalhou para a Apple nos anos 80 e subsequentemente criou um software que foi usado para projetar a interface de usuário para o primeiro iPod. "Mas seria uma situação muito arriscada, e sem Steve eles estariam em posição insustentável, em longo prazo".

As histórias sobre Jobs são bem conhecidas, por exemplo sua insistência para que o computador Macintosh tivesse um projeto interior bonito, ainda que a maioria dos usuários jamais veja um computador aberto. A obsessão dele quanto a detalhes permeia tudo que a Apple faz, e esse princípio certamente não desaparecerá da companhia caso ele tenha de se afastar em definitivo.

Mas existem outros aspectos no papel que ele exerce, que não recebem tanta atenção e podem ser ainda mais difíceis de substituir. Em muitas empresas de tecnologia, as diversas divisões muitas vezes trabalham de maneira descoordenada ou até mesmo antagônica, concorrendo umas com as outras para desenvolver produtos parecidos. Isso pode resultar em aparelhos e software ocasionalmente incompatíveis, o que gera frustração entre os consumidores.

Jobs, dizem antigos funcionários da Apple, tem a autoridade e a visão de longo prazo necessárias a unir todos os executivos e trabalhadores da Apple em torno de uma causa comum.

"Steve é excelente no que tange a atrair e reter pessoal, criar um plano de trabalho e conseguir convencer o grupo a se manter concentrado nele", disse Stephen Perlman, um empresário do Vale do Silício que foi vice-presidente de ciência da Apple nos anos 80. "É muito difícil encontrar alguém que disponha de tamanha credibilidade, e que conte com lealdade suficiente entre seus subordinados para contornar os obstáculos impostos pela política interna de uma empresa."

Jobs também é o principal negociador estratégico da Apple. Depois de introduzir a loja de música digital iTunes, em 2003, ele persuadiu as companhias de entretenimento a colocar versões digitais de seus produtos à venda na loja, superando a forte resistência das gravadoras que estavam tentando erguer muralhas contra a pirataria.

Em larga medida como resultado dos esforços de Jobs, essas barreiras foram demolidas, ainda que restem desafios como o de convencer os estúdios de Hollywood a relaxar suas restrições quanto à locação ou venda de filmes em formato digital na internet.

Nos seus momentos de maior ansiedade, os fãs da empresa tentam recordar a situação da Apple no final dos anos 80 e começo dos anos 90, quando Jobs esteve afastado. Depois de ele ser derrubado em um golpe no conselho, em 1985, a Apple inicialmente prosperou muito durante alguns anos, lançando o primeiro Macintosh dotado de tela colorida, o laptop PowerBook e o software QuickTime, que abriu novos caminhos para a exibição de vídeos em computadores pessoais.

Mas então, para horror de seus entusiastas mais dedicados, a Apple começou a definhar. As ações da empresa caíram em 68% entre o pico registrado em 1991 e o triunfante retorno de Jobs cinco anos mais tarde. Nesse meio tempo, três presidentes-executivos passaram pelo comando da empresa e seu principal produto, o Macintosh, não evoluiu com rapidez semelhante à dos computadores equipados com o Microsoft Windows.

Parte do problema, disseram pessoas que trabalharam na Apple durante esses anos de declínio, era responsabilidade de Jobs, por não ter permitido que pessoa alguma com talentos semelhantes aos seus ascendesse na empresa.

"A personalidade de Steve impede que ele promova outras pessoas que poderiam fazer o que ele faz. Ele é a espécie de sujeito que termina por afastar as pessoas que seriam mais parecidas com ele", diz Ted Kaehler, que trabalhou na equipe original que desenvolveu a primeira interface gráfica de usuário no centro de pesquisa Xerox Parc, e posteriormente trabalhou para a Apple, nos anos 80.

Mas alguns dos observadores da Apple relutam em usar o passado como referência para a situação atual. Andrew Hetzfeld, que ajudou a desenvolver o Macintosh original e hoje trabalha no Google, diz que a Apple agora teve mais 12 anos sob a liderança de Jobs, e pôde absorver mais de seus valores singulares.

Ele também apontou que os produtos que já estão em desenvolvimento -entre os quais iMacs novos e iPhones menores, de acordo com os analistas - já portam a marca de Jobs, e podem sustentar o vigor da Apple por muitos anos. "Demoraria meia década para que a ausência de Steve realmente começasse a se fazer sentir nos produtos", diz Hertzfeld.

Alguns observadores acreditam que a marca que Jobs deixou na Apple persistirá por décadas, mesmo que ele não possa retornar à empresa na metade do ano. James Breyer, um influente executivo de capital para empreendimentos no Vale do Silício, é parte do conselho da Wal-Mart e diz que os valores do fundador, Sam Walton, ainda orientam a cadeia de varejo 17 anos depois que ele morreu.

"Não me recordo de uma reunião de conselho na qual o espírito e a contribuição de Sam não tenham sido citadas de alguma maneira", disse Breyer. "Da mesma forma, espero que Steve Jobs, o seu gênio, sempre represente o DNA da Apple."

Depois do choque inicial da carta de Jobs, que causou queda severa nas ações da Apple em operações posteriores ao fechamento do pregão, quarta-feira, na quinta os investidores se acalmaram um pouco e as ações registraram queda de 2,3%, para US$ 83,88. Mas ainda existem aqueles que se preocupam com a possibilidade de que a ausência de Jobs tenha impacto muito mais amplo do que apenas sobre a Apple.

"O mundo todo está preocupado com a Apple, mas eu estou preocupado com o Vale do Silício", diz Perlman. "Precisamos da Apple para incomodar a Microsoft. Precisamos de alguém que mexa no vespeiro. Deus nos ajude se não houver mais quem o faça. Nós nos transformaríamos em uma nova Detroit".

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
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