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 "Leis" da internet confundem tribunais britânicos
30 de março de 2009 18h13 atualizado às 18h18

Em 17 de março, horas depois de publicar em seu site documentos confidenciais que mostravam até que ponto o banco Barclays havia ido em seus esforços para reduzir os impostos que paga no Reino Unido, o jornal The Guardian foi instruído por um juiz a remover o material. O argumento era o de que o banco tinha direito a confidencialidade.

Na decisão, o juiz Nicholas Blake, de Londres, também acrescentou uma cláusula peculiar: o Guardian estava proibido de informar aos seus leitores como era fácil encontrar os documentos publicados em sites fora do país. Esse foi apenas o mais recente exemplo do esforço dos tribunais britânicos para preservar o que vêem como direitos dos litigantes diante do maremoto de informações da internet. Para alguns esse pode ter sido o último desses esforços, e fútil como todas as tentativas precedentes.

Infelizmente para o tribunal, o material estava disponível, entre outros locais, no site wikileaks.org, que também está veiculando cópias dos documentos do Barclays.

No caso anterior, jornais britânicos como o Guardian fizeram questão de informar aos leitores onde poderiam encontrar online a lista que estavam proibidos de publicar. O mais absurdo veio quando os jornais publicaram em seus blogs posts de jornalistas que relatavam a experiência de ler o material proibido no wikileaks.

"A internet está expondo de forma clara a natureza ilógica de nosso sistema", disse Alan Rusbridger, editor do Guardian. "A tecnologia está muito adiante da lei, e a lei claudica atrás, tentando organizar uma resposta sensata".

O efeito da internet sobre as decisões judiciais não é questão exclusivamente britânica, diz Jonathan Zittrain, professor de Direito em Harvard e antigo professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Existe pelo menos um exemplo, ele diz, de um tribunal norte-americano que ordenou que um site não instalasse links para o conteúdo que havia sido instruído a remover. Mas ele acrescentou que "os tribunais britânicos talvez confiem um pouco mais em seu poder e se mostrem menos dispostos a ceder aos imperativos práticos".

O caso do Barclays representa um embate entre dois interesses, diz James Edelman, professor de Direito em Oxford e advogado especialista em leis de imprensa. Desde 1988, diz Edelman, a lei britânica vem conferindo forte proteção ao direito de confidencialidade, aplicando-o a terceiros, como o Guardian, que recebeu os documentos de outrem. Mas o "interesse público" de obter informações sobre o conteúdo dos documentos, ele afirmou, pode muitas vezes sobrepujar as considerações de confidencialidade.

Por fim, existe uma questão factual básica: o material já é de domínio público? E é quanto a isso que a internet complica o processo.

Os tribunais reconhecem, diz Edelman, que não faz sentido proibir a publicação de algo que já tenha sido amplamente disseminado. No caso do Barclays, o tribunal conduziu uma sessão fechada para determinar se o conteúdo já havia passado desse limite.

Rusbridger, que disse que ele também foi despertado de madrugada com a ordem de remover o material, caracterizou a cena: "Nós estávamos fingindo que, enquanto discutíamos aqueles segredos em um tribunal de Londres, ninguém mais os discutia em outros lugares".

A situação toda, ele disse, coloca os jornais "em uma posição de desvantagem única, da qual não nos é permitido discutir o que está sendo discutido alhures". Mas há razões para esperança, diz Rusbridger. Para a audiência, ele escreveu uma declaração de depoimento que inclui sumários do que os memorandos e a análise de um especialista em impostos contratado pelo Guardian continham, com o objetivo de explicar ao juiz por que a publicação dos memorandos servia ao interesse público. Esse material não foi afetado pela ordem.

O sumário de Rusbridger foi posteriormente publicado pelo Guardian.

Os memorandos que chegaram à imprensa vêm da divisão de mercados estruturados da Barclays, e foram enviados a um membro do Parlamento. Explicam arranjos complexos - com nomes como Project Berry e Project Knight - que envolvem, por exemplo, transações entre uma subsidiária do banco na Ilha de Man e a filial de um banco alemão no Luxemburgo. Tomados em conjunto, escreveu o Guardian, os documentos demonstram que a divisão está "envolvida há anos na criação de numerosos e engenhosos esquemas para evitar o pagamento de pesadas quantias em impostos".

John Varley, o presidente-executivo do Barclays, respondeu com um comunicado no qual afirma que o banco "cumpre as leis tributárias do Reino Unido e de todos os países nos quais operamos". Ele escreveu que sua empresa enfatizava o cumprimento de suas obrigações para com as autoridades tributárias britânicas.

Ele conclui afirmando que "estamos confiantes em que o vazamento de documentos não exporá nenhuma deficiência em nossas declarações e explicações às autoridades tributárias".

Ainda assim, de acordo com a agência de notícias Reuters o Barclays teria alegado que a publicação dos documentos poderia danificar seus negócios.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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