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Escritores e editores enfrentam a pirataria digital

13 de maio de 2009 17h44

Ursula K. Leguin encontrou cópias digitais não autprozadas de seus romances na web. Foto: Marian Wood Kolisch/The New York Times

Ursula K. Leguin encontrou cópias digitais não autprozadas de seus romances na web
Foto: Marian Wood Kolisch/The New York Times

Ursula K. Le Guin, escritora de ficção científica, estava navegando pelo site Scribd no mês passado quando deparou com cópias digitais de alguns livros que lhe pareciam bem familiares. Não era para menos. Eles haviam sido escritos por ela, inclusive uma cópia gratuita de um de seus romances mais reconhecidos, A Mão Esquerda da Escuridão.

Nem Le Guin nem sua editora haviam autorizado as edições eletrônicas. Para Le Guin, foi uma introdução dura ao problema da pirataria digital, que silenciosamente prolifera no mundo literário. "Pensei, quem essas pessoas pensam que são?" disse Le Guin. "Por que pensam que podem violar meus direitos autorais e sair ilesos?"

Isso soaria familiar a cineastas e músicos que travaram batalhas similares - com graus variados de sucesso - ao longo da última década. Mas para escritores e suas editoras na era do Kindle, esse é um território novo e assustador.

Já faz algum tempo que determinados leitores são capazes de encontrar cópias digitais errantes de títulos tão variados quanto a série Harry Potter e best-sellers de Stephen King e John Grisham. Mas, agora, algumas editoras dizem que o problema aumentou nos meses recentes devido a um apetite crescente por e-books, o que gerou diversas edições piratas em sites como Scribd e Wattpad e em serviços de compartilhamento de arquivos como RapidShare e MediaFire.

"Aumentou exponencialmente", disse David Young, chefe-executivo do Hachette Book Group, cuja divisão Little, Brown publica a série Twilight de Stephenie Meyer, um favorito entre os piratas digitais. "Nosso departamento jurídico está passando um tempo cada vez maior policiando sites onde material protegido por direitos autorais está sendo divulgado."

A John Wiley & Sons, editora de livros didáticos que também publica a série Dummies, emprega três funcionários em tempo integral para buscarem cópias não autorizadas. Gary M. Rinck, conselheiro-geral, disse que no mês passado a empresa havia enviado avisos sobre mais de cinco mil títulos, pedindo a vários sites que retirassem versões digitais de livros da editora Wiley, um número cinco vezes maior em comparação ao ano passado.

"É uma caça interminável", disse Russell Davis, autor e presidente da Escritores de Ficção Científica e Fantasia da América, uma associação comercial que ajuda escritores a perseguir piratas digitais. "Você acaba com um e outros cinco aparecem".

Várias editoras se recusaram a se pronunciar para este artigo, temendo que a atenção pudesse gerar mais roubos. Por enquanto, a pirataria eletrônica de livros não parece estar tão difundida quanto a que atingiu o mundo da música, quando serviços de compartilhamento de arquivos como Napster ameaçaram acabar com todo o setor.

Editoras e escritores dizem que podem aprender com seus colegas da música, que se indispuseram com fãs usando tribunais para perseguir agressivamente estudantes universitários e o Napster antes deste virar uma loja online legítima.

"Se o iTunes tivesse começado há três anos, acho que o Napster e outros ambientes de pirataria subseqüentes não teriam sido tão populares,¿ disse Richard Sarnoff, presidente da Bertelsmann, dona da Random House, a maior editora do mundo de livros para o consumidor final. ¿Porque as pessoas já teriam o hábito de comprar legitimamente a preços que não fossem considerados abusivos".

Até recentemente, as editoras acreditavam que os livros estavam relativamente livres da pirataria porque era trabalhoso demais para leitores digitalizarem cada página com o intuito de converter um livro em um arquivo digital. Além disso, ler livros no computador não era muito atraente em comparação à versão impressa.

Agora, com editoras produzindo mais edições digitais, é potencialmente mais fácil para hackers copiarem os arquivos. E a popularidade crescente de aparelhos de leitura eletrônica como o Kindle da Amazon ou o Reader da Sony facilitam a leitura em forma digital. Muitas edições não autorizadas são carregadas como PDFs, que podem ser facilmente enviados por e-mail a um aparelho Kindle ou da Sony.

Sites como Scribd e Wattpad, que convidam os usuários a carregar documentos como teses de faculdade e romances independentes, têm sido o alvo das queixas do setor nas semanas recentes, com reproduções ilegais de títulos populares aparecendo em tais sites. Trip Adler, chefe-executivo do Scribd, disse que tinha a "intuição" de que edições não autorizadas representavam apenas uma pequena fração do conteúdo do site.

Um exemplo de material protegido disponível no Scribd recentemente incluía a versão digital de Os Contos de Beedle, o Bardo uma coletânea de contos de fadas de J.K. Rowling. Um comentário, postado com o apelido vicious-9690, dizia "obrigado por postá-lo, vocês são como o Robin Hood dos e-books".

As empresas também instalaram filtros para identificar a submissão de material protegido por direitos autorais. "Estamos trabalhando duro para manter conteúdo não autorizado fora do site," Adler disse."

Para alguns escritores, rastrear e-books ilegais não vale a pena. "A questão é quanto tempo e energia quero gastar perseguindo esses caras", Stephen King escreveu em mensagem de e-mail. "E com que fim? Sinto que a maioria deles mora em porões cobertos por retalhos de carpetes, vivendo de salgadinho e cerveja barata".

As vendas de livros estão significativamente baixas e as editoras dizem que é difícil determinar o impacto da pirataria eletrônica. Alguns dos livros postados no site com mais freqüência, como a série Twilight, também são grandes best-sellers.

Alguns escritores dizem que apenas querem proteger o princípio de remunerar os escritores. "Não peço para ficar rico com isso", disse Harlan Ellison, escritor e roteirista de cinema. "Só peço para ser pago".

Há nove anos, Ellison processou provedores de internet por não impedirem um usuário de postar quatro de suas histórias em um fórum de notícias online. Desde que o processo foi resolvido, ele já perseguiu mais de 240 pessoas que postaram seu trabalho na internet sem permissão. "Se você coloca a mão no meu bolso, você sai com um toco sangrando", ele disse.

Outros consideram a pirataria digital uma maneira para novos leitores descobrirem escritores. Cory Doctorow, romancista cujo livro infanto-juvenil Little Brother passou sete semanas na lista de best-sellers de séries infantis no ano passado, oferece versões eletrônicas gratuitas de seus livros no mesmo dia em que são publicados em capa dura.

Ele acredita que as versões gratuitas, mesmo as não autorizadas, atraem novos leitores. "Realmente sinto que meu problema não é a pirataria", Doctorow disse. "É a obscuridade".

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
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