
Atualizada às 11h16 Mark Landler e Brian Stelter
O governo Obama afirma que tentou evitar palavras ou ações que possam ser interpretadas como interferência norte-americana nas eleições presidenciais do Irã e nos tumultos que se seguiram ao pleito.
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Mas na tarde da segunda-feira, Jared Cohen, 27 anos, funcionário do Departamento de Estado, solicitou por e-mail que o site de redes sociais Twitter tomasse uma decisão sem precedentes e adiasse a pedido do governo a manutenção pré-programada de sua rede mundial, que teria cortado o acesso dos iranianos que estão empregando o Twitter para trocar informações e informar ao mundo externo sobre a expansão dos protestos em Teerã e nas cercanias.
O pedido, feito a Jack Dorsey, um dos cofundadores da empresa, representa mais um marco para as novas mídias: o reconhecimento pelo governo norte-americano de que o serviço de microblogs, criado menos de quatro anos atrás, tem o potencial de mudar a História, no país islâmico milenar.
"Foi apenas um pedido no sentido de que, já que o Twitter estava aparentemente desempenhando papel importante em um momento crucial para o Irã, será que a empresa poderia mantê-lo em operação?", disse P. J. Crowley, secretária assistente de Estado para assuntos públicos.
O Twitter acedeu ao pedido, informando em post em seu blog, na segunda-feira, que adiaria a manutenção até a noite da terça - 1h30min da quarta, no horário de Teerã -, porque seus dirigentes reconheciam "o papel que o Twitter vem desempenhando nesse momento como uma importante ferramenta de comunicações no Irã". O serviço voltou a funcionar normalmente uma hora depois da parada de manutenção, na noite de terça. O Departamento de Estado afirmou que o pedido não equivalia a uma interferência nos assuntos internos iranianos. Cohen, dizem as autoridades, só contactou o Twitter três dias depois da eleição e bem depois do início dos protestos.
"Foi uma ação compatível com nossa política nacional", disse Crowley. "Propomos a liberdade de expressão. A informação deveria ser usada como maneira de promover a liberdade de expressão".
O episódio demonstra em que medida o novo governo norte-americano considera os sites de redes sociais como uma nova ferramenta em seu arsenal diplomático. A secretária de Estado Hillary Clinton costuma se referir ao poder da diplomacia eletrônica, especialmente em lugares nos quais a mídia de massa opera sob censura.
Cohen, formado pela Universidade Stanford e o mais jovem dos membros da equipe de planejamento político do Departamento de Estado, vem trabalhando com o Twitter, YouTube, Facebook e outros serviços a fim de aproveitar o alcance destes para promover iniciativas diplomáticas no Iraque, Afeganistão e outras partes.
No mês passado, ele organizou uma visita a Bagdá por Dorsey e outros executivos do Vale do Silício e do Beco do Silício, o polo do setor de computação na cidade de Nova York. Eles participaram de uma reunião com o primeiro-ministro assistente do Iraque sobre como reconstruir as redes de informação do país, bem como para divulgar as virtudes do Twitter.
Em referência a Mir Hussein Moussavi, o principal candidato da oposição iraniana, Crowley diz que "acompanhamos com atenção a forma pela qual ele utilizou o Facebook a fim de manter seus partidários informados sobre suas atividades".
Teerã está fervilhando com mensagens do Twitter, ou tweets, que trocam notícias sobre comícios, ações de repressão da polícia contra manifestantes e análises da resposta da Casa Branca ao drama.
Com as autoridades bloqueando o uso dos serviços de mensagens de texto dos celulares, o Twitter se tornou uma alternativa conveniente para os iranianos famintos de informação. Embora as autoridades iranianas tenham tentado bloquear também os posts no Twitter, os iranianos são experientes no uso de sites de camuflagem de acesso e outros métodos que permitem contornar as barreiras oficiais.
Um assinante do Twitter que opera com o nome IranNewsNow enviou uma mensagem à conta da CNN no Twitter, afirmando: "Não ouçam o que o governo do Irã diz sobre o que podemos e não podemos fazer. É possível informar com vídeos e imagens no Twitter".
Outro usuário, que usa o apelido StopAhmadi, escreveu na noite de terça-feira que "precisamos que pessoas de todo o mundo ajudem a divulgar as questões e pressionar o governo iraniano". A mensagem trazia links para fotos dos protestos em Teerã, entre as quais uma que mostrava um homem sangrando profusamente de um ferimento no peito, cercado por manifestantes.
Também havia suspeitas de que forças favoráveis ao governo estivessem empregando novos veículos de mídia para disseminar falsidades. Um popular site da oposição, o Persiankiwi, alertou seus usuários na terça-feira que estes deveriam ignorar comunicações vidas de pessoas que não tivessem um histórico confiável de posts.
Além do Twitter, o YouTube vem sendo uma ferramenta essencial para veicular os vídeos que registram a situação no Irã, enquanto os veículos tradicionais de mídia enfrentam dificuldades para gravar imagens dos protestos e da repressão subsequente. Uma conta do YouTube, que leva o nome "wwwiranbefreecom", mostrava imagens perturbadoras de policiais iranianos espancando pessoas nas ruas. Na segunda-feira, Lara Setrakian, uma repórter da rede de televisão ABC, fez um apelo por vídeo no Twitter, escrevendo "por favor, nos enviem imagens às quais não temos acesso".
O canal em farsi da rede de TV britânica BBC informou que por algum tempo, na terça-feira, recebeu cerca de cinco vídeos amadores por minuto, ainda que o acesso ao canal seja em geral bloqueado no Irã. Um dos vídeos mostrava membros de uma milícia favorável ao governo disparando suas armas durante uma manifestação.
"Nós ficamos impressionados com o número de vídeos e de depoimentos de testemunhas oculares", disse Jon Williams, editor de notícias internacionais da BBC. "Os dias em que governos eram capazes de controlar o fluxo de informações são coisa do passado". Com a proliferação de novas mídias, porém, os jornalistas tradicionais enfrentam mais e mais dificuldades.
Na terça-feira, os jornalistas iranianos foram informados de que não estavam autorizados a cobrir protestos sem que obtivessem licença prévia. Essas restrições "na prática confinam os jornalistas às suas redações", afirmou um porta-voz da BBC.
Ainda assim, muitos deles se aventuraram nas ruas a fim de testemunhar as manifestações de oposição e apoio ao governo, sob risco considerável. No Hotel Laleh, no centro de Teerã, Joe Klein, colunista da revista norte-americana Time, disse que "diversos jornalistas estavam voltando das ruas depois de sofrer graves agressões".
Os jornalistas cujos vistos estão expirando saíram à procura de qualquer oportunidade de reportar. Jim Marshall, o último dos jornalistas na sucursal da Sky News em Teerã, foi proibido de sair às ruas para cobrir as manifestações, e então saiu às compras. Por acaso, encontrou uma manifestação de milhares de pessoas em favor do presidente Mahnoud Ahmadinejad.
"Continuei minhas compras, e eles continuaram sua manifestação", ele escreveu em um post em seu blog. "A coisa toda estava se transformando em um teste da minha força de vontade. Por quanto tempo mais eu poderia ficar consumindo sem incorrer em jornalismo involuntário?" Quando Marshall percebeu que tinha um bloco de anotações no bolso, ele saiu rapidamente do local.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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Reuters
Uma foto publicada no Twitter mostra um protesto nas ruas de Teerã
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