Solteiros se divertem com jogos no Nerds at Heart, em Chicago, em busca de um parceiro
Foto: AP
A recessão nos Estados Unidos está levando a culpa por férias passadas em casa e pela opção por mais noitadas domésticas em lugar de programas caros. Mas ela também é a causa de uma alta no número de primeiros encontros românticos entre os solteiros do país.
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Ao que parece, as preocupações econômicas deflagram algo de primordial em muitos de nós que por acaso estejam sem par: um desejo instintivo de companhia amorosa.
Alguns solteiros estão agora procurando envolvimentos românticos com a mesma dedicação que outras pessoas exibem ao procurar empregos. No site de encontros eHarmony.com, o número de membros aumentou em 20% apesar de tarifas mensais que podem chegar a US$ 60, e no OKCupid.com o movimento disparou, com alta de mais de 50% de setembro para cá.
Não se trata apenas de uma mudança na frequência com que as pessoas estão se encontrando para fins românticos, mas também de uma mudança no tipo de parceiro com o qual elas estão optando por passar seu tempo.
"As pessoas estão procurando por alguma coisa de genuíno em um mundo que já não lhes parece assim tão seguro", disse Bathsheba Birman, co-fundadora do Nerds at Heart, um serviço que organiza eventos românticos em Chicago. "Com as manchetes repletas de motivos para que não confiemos nas instituições estabelecidas que sempre vimos como confiáveis, as pessoas estão envolvidas em uma reavaliação de seus valores pessoais".
O número de participantes nos encontros mensais promovidos pela Nerd at Heart, nos quais jovens profissionais pagam US$ 5 dólares por uma bebida e uma oportunidade de passarem a noite em torno de jogos de tabuleiro ou outras diversões amenas, foi duas vezes superior à esperada, em abril, e desde então vem se mantendo elevada.
"As pessoas adoram companhia nos momentos em que estão para baixo, especialmente se isso acarretar fortes perspectivas românticas ou sexuais", disse Criag Kinsley, neurologista da Universidade de Richmond. "Na verdade, encontros desse tipo, em lugar de serem vistos como dispendiosos, podem ser uma distração tanto satisfatória em termos emocionais quanto barata. É como uma noite de embriaguez, mas sem o peso que isso acarreta para a carteira ou a ressaca no dia seguinte".
Kinsley também diz que o friozinho na barriga que um primeiro encontro causa libera no cérebro compostos químicos que ajudam a atenuar preocupações, mesmo que estas girem basicamente em torno de contas de aposentadoria, demissões, queda em carteiras de ações e hipotecas que terminam revertidas.
Ainda assim, Sam Yagan, fundador e presidente-executivo da OkCupid.com, considera que a mudança no clima dos encontros românticos têm causas básicas de ordem econômica.
De acordo com os seus cálculos, um homem pode facilmente gastar US$ 100 em bebidas em um bar para tentar se aproximar de uma desconhecida, e sair de lá apenas com uma sensação de frustração. Enquanto que, se ele estiver namorando, uma noitada de sábado pode se resumir a um bom jantar delivery, alugar um filme e depois proceder a alguns momentos de diversão sob os lençois. Em termos gerais, estima Yagan, isso representa "mais diversão pelo dinheiro investido".
E não é apenas um efeito da recessão. Os especialistas afirmam que as mudanças de comportamento podem estar relacionadas a outros eventos mundiais - e ocorrer com mais intensidade quando as notícias são desfavoráveis.
No final do ano passado, comparando períodos em que a bolsa de valores caiu por mais de 100 pontos e períodos em que ela apresentou alta da mesma ordem, a eHarmony.com descobriu que número maior de seus membros procuravam encontros quando as notícias financeiras eram desanimadoras. A atividade também se intensifica em momentos de tragédia como os assassinatos cometidos na Universidade Tecnológica da Virgínia, enquanto se mantém inalterada por ocasião de eventos mundiais "positivos", como uma Olimpíada.
Ao contrário desses acontecimentos que atraem a atenção por um dia ou uma semana, a recessão em curso já se estende por mais de 18 meses, e seus efeitos devem durar pelo menos mais outro tanto - e isso provavelmente resultará em novas mudanças perceptíveis no comportamento humano.
"Uma situação como a que estamos vivendo atualmente termina por servir como lembrete de que é preciso cuidar das coisas importantes da vida", disse Gian Gonzaga, o principal responsável pela pesquisa científica da eHarmony.com. "Não surpreende tanto que vejamos pessoas gravitando em direção às mais fundamentais das relações humanas".
Mas não se trata de uma tendência uniforme.
As recessões podem fazer com que alguns romances se provem mais desafiadores, alegam os especialistas, especialmente para as pessoas que ainda não tenham casado. O desgaste causado pelo medo, pelos problemas financeiros e pela incerteza econômica pode separar casais.
E os solteiros mais convictos não estão desenvolvendo um impulso súbito de sair em busca do perfeito anel de noivado.
Em lugar disso, as indicações quanto a uma mudança são sutis: um solteiro convicto que começa a participar de mais primeiros encontros; uma pessoa que costuma apenas sair casualmente com alguém decide procurar relacionamento de longo prazo; ou a decisão de dar uma oportunidade a um parceiro que não parecia tão promissor algum tempo atrás - por exemplo uma pessoa muito mais nova ou muito mais velha, ou moradora de uma área "geograficamente indesejável".
No In Fine Spirits, um bar de Chicago que se especializa em vinhos, a mudança na cultura dos encontros românticos resultou em uma alta de cerca de 30% nas reservas de mesas para duas pessoas, de acordo com o gerente geral Brandon Wise.
"Com a situação bastante tênue que estamos vivendo no momento, acredito que as pessoas estejam procurando por estabilidade em um parceiro", ele afirma. "Creio que estejamos vendo menos encontros casuais e mais encontros deliberados, planejados".
Um tom mais delicado também está em ascensão, dizem as pessoas envolvidas nesses encontros e os observadores especializados, e a substância começa a ganhar vantagem sobre o estilo.
Para Mili Thomas, 28, estudante de pós-graduação e moradora de Nova York, isso significa dedicar mais tempo a homens aos quais ela não costumava dedicar atenção antes da recessão. Entre eles estão um sujeito que tem um doutorado mas ela teria rejeitado anteriormente porque ele vive em Nova Jersey, e um funcionário de uma empresa de marketing que ela teria rejeitado anteriormente por ser dois anos mais jovem que ela.
"Eu calculei que um momento como este seria o melhor para explorar outras opções, já que as vidas das pessoas estão viradas de cabeça para baixo", ela disse.
"Acredito que todo mundo esteja mais disposto a contrariar as convenções, agora, já que aquilo que era 'o normal' simplesmente desapareceu".
Tradução: Paulo Migliacci ME
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