O Palm Pre tem uma tela sensível ao toque, um teclado deslizante e uma rápida navegação da Web. A Palm também gosta de salientar que outro destaque do smartphone é sua capacidade de se conectar ao iTunes, a loja virtual de mídia e música da Apple.
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O problema é que a Apple quer que o iPhone seja o único celular capaz de fazer isso. Por isso, a empresa mudou seu software para bloquear o acesso do Palm Pre ao iTunes.
Agora a Palm está alegando que a medida é injusta e tentando mobilizar em sua defesa o setor de eletrônicos para o consumidor. A Palm diz que a Apple, ao permitir apenas que seus próprios aparelhos se conectem diretamente ao software do iTunes, está usando indevidamente os padrões de estímulo à interoperabilidade entre computadores e aparelhos que usam uma conexão USB.
A Palm apresentou uma reclamação ao USB Implementers Forum, um grupo do setor formado por empresas tecnológicas que desenvolveram a tecnologia que conecta computadores a outros aparelhos eletrônicos, alegando que a Apple está restringindo o comércio. Prever o resultado dessa ação é complicado, disse Mike Abramsky, analista da firma de investimento RBC Capital Markets.
"Não há muitos precedentes para esse caso", disse ele. "Ele está entrando em novo terreno. A meu ver, os usuários irão acabar sendo os árbitros do resultado de situações assim". O fórum se recusou a comentar sobre quando responderia à reclamação da Palm.
No momento, a Palm recuperou a compatibilidade do Pre com o iTunes, enganando o software para reconhecer o telefone como um aparelho Apple e, assim, permitir a sincronia e a transferência de arquivos entre o telefone e um computador pessoal. A tática deu o que falar entre aqueles que acreditam que essa abordagem da Palm fere os padrões estabelecidos pelo conselho diretor do fórum.
Mas a Palm alega que sua estratégia de fazer seu aparelho se passar por um iPod é aceitável porque representa uma resposta à restrição da Apple. "Acreditamos estar consistentes com nossos padrões", disse Douglas B. Luftman, conselheiro associado geral da Palm. "Não estamos tentando parecer ser algo que não somos - exceto para propósitos de interoperabilidade com o iTunes".
Outros aparelhos não fabricados pela Apple funcionam com iTunes, mas geralmente exigem um download adicional ou um passo intermediário para isso. A estratégia da Palm, que permite uma conexão direta entre o smartphone e o iTunes, é algo inédito no setor.
No mínimo, a disputa da Palm com a Apple enfatiza "como o ecossistema do iTunes se tornou crítico para os consumidores", disse Michael Gartenberg, vice-presidente de estratégia e análise da Interpret, uma firma de pesquisa de mercado com sede em Los Angeles e Nova York. "O iTunes é o centro de gravidade onde os consumidores mantêm seu conteúdo".
A Palm não é a única empresa brigando com a Apple por causa de políticas de hardware e software. Google e Apple estão em batalha devido à recusa da Apple em permitir certos aplicativos do Google em seu telefone. Na sexta-feira, a Comissão de Comunicações Federal dos EUA anunciou que está examinando tais ações.
Para Palm e Apple, a batalha sobre o iTunes é parte de uma rivalidade maior. O Palm Pre, lançado em junho com críticas entusiasmadas, foi enaltecido como um competidor forte do iPhone. A competição também existe pelo fato da Palm ter fisgado alguns dos executivos seniores da Apple. Jonathan J. Rubinstein, chefe-executivo da Palm, supervisionou o desenvolvimento do iPod na Apple, e Mike Bell, vice-presidente sênior de desenvolvimento de produtos, também fazia parte da Apple.
"É possível que a Apple tema que os consumidores comecem a comprar os telefones da Palm ao invés de iPhones ou iPods", disse J. Gerry Purdy, analista-chefe de aparelhos portáteis e sem fio da firma de pesquisa Frost & Sullivan.
Gartenberg, o analista da Interpret, concordou. "A Apple entende a relação perfeita entre iPod, iPhone e iTunes", ele disse. "Ela é um grande incentivo para os consumidores comprarem seus aparelhos e a empresa vai tentar proteger isso".
Segundo Tom Neumayr, porta-voz da Apple: "Como dissemos anteriormente, novas versões do software do iTunes talvez não forneçam mais a funcionalidade de sincronização com players de mídia digital incompatíveis".
Há muito em jogo especialmente para a Palm, que já dominou o mercado de smartphones com seu aparelho Treo. A empresa, que tem perdido participação de mercado gradualmente desde 2007, está contando com o Pre para reverter sua sorte. Paul Coster, analista da J.P. Morgan que acompanha a empresa, estima que a Palm tenha vendido cerca de 180 mil aparelhos nas primeiras duas semanas e poderia chegar a 2,5 milhões no ano fiscal que terminará em maio de 2010.
Para donos de um Palm Pre, o acesso ao iTunes é importante, disse Katie Mitic, vice-presidente sênior para marketing de produtos da Palm. "Valorizamos o fato de muitos de nossos consumidores usarem o iTunes como seu sistema de gerenciamento de música ou foto", ela disse. "Só queremos facilitar ao máximo seu uso no Palm Pre".
O Palm Pre também sofre com restrições de software para a sincronização com o Zune, o player portátil que é a resposta da Microsoft ao iPod, mas, com tão poucos usuários, a Palm não está reivindicando acesso a ele. "O Zune tem uma participação de mercado muito menor", disse Gartenberg. "Existem menos pessoas que o usam para controlar sua mídia, por isso poucos aparelhos afirmam querer se conectar ao software do Zune".
A desavença da Palm com a Apple também faz alguns questionarem por que a Apple se dá ao trabalho de restringir o software. Purdy, o analista, descreveu a decisão da Apple de impedir o uso do iTunes nos aparelhos da Palm como "dar um tiro no pé".
"Tudo que isso significa é que os consumidores da Palm poderiam comprar músicas através do iTunes", disse Purdy. "Isso ofereceria uma oportunidade de receita maior para a Apple".
Tim Wu, professor da Universidade de Colúmbia, especializado em direito das telecomunicações, direitos autorais e comércio internacional, disse: "Existe algo muito inapropriado sobre o que a Apple está fazendo". Ele acrescentou, "vai muito contra os ideais de abertura, que é um conceito pelo qual a Apple foi pioneira na computação". Em 2007, Steve Jobs, chefe-executivo da Apple, divulgou um apelo por abertura à indústria da música, intitulado ¿Pensamentos sobre Música". Quanto à Palm, Wu disse: ¿Parece uma batalha árdua tentar impedir a Apple de fazer isso.¿
Mas a Palm pode ter uma chance. "A história sugere que a abertura vence", disse Wu, citando como exemplos as tentativas da AT&T de restringir os aparelhos atrelados a suas linhas telefônicas e as primeiras tentativas da Apple de vender impressoras que funcionavam apenas com Macs.
Não ficou imediatamente claro por quanto tempo a Palm planeja combater futuras restrições de compatibilidade da Apple. A empresa não disse se iria entrar com processo ou requerer a ajuda do governo com base na restrição comercial.
"Esse é um clássico jogo de gato e rato tecnológico", disse Gartenberg. "A resolução muitas vezes depende de quem se cansar primeiro".
Tradução: Paulo Migliacci ME

- The New York Times


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