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Tecnologia

 
 

Pequenas doações ajudam a sustentar arte na web

26 de agosto de 2009 09h55

Earl Scioneaux não é um produtor musical famoso como Quincy Jones. É um simples engenheiro de som que vive em Nova Orleans, mixando álbuns de músicos locais de jazz durante o dia e criando música eletrônica à noite. Ele há muito desejava realizar o sonho de gravar um disco que combinasse jazz e electronica, mas não tinha como levantar os US$ 4 mil de que necessitaria para a produção.

Foi então que descobriu a Kickstarter, uma empresa iniciante de Nova York que usa a web para permitir que os aspirantes a Da Vinci ou Spielberg encontrem patronos das artes em escala modesta, dispostos a doar alguns dólares para apoiar propostas que os interessem. Ao contrário de sites semelhantes que simplesmente solicitam doações, os usuários do Kickstarter ganham acesso privilegiado aos projetos que ajudam a bancar, e na maioria dos casos recebem uma recordação tangível de sua contribuição. Os artistas e inventores, enquanto isso, podem avaliar em tempo real os atrativos comerciais de suas ideias, antes que invistam tempo ou dinheiro demais nelas.

"Não é um investimento, um empréstimo ou caridade", diz Perry Chen, co-fundador da Kickstarter e amigo de Scioneaux. "Ficamos no meio do caminho, como um mercado sustentável no qual as pessoas trocam bens por serviços ou algum outro benefício, e recebem algo de valor em troca".

Scioneaux, que conseguiu levantar US$ 4,1 mil para seu projeto, oferece diversas formas de recompensa aos seus patrocinadores: quem entrar com US$ 15 recebe uma cópia do disco antes do lançamento oficial; com US$ 30, a pessoa ganha uma aula personalizada de música. Contribuição de US$ 50 ou mais recebe as duas coisas, e um jantar com Scioneaux no qual ele servirá seu famoso gumbo e mostrará aos convivas suas gravações em estúdio. "Eu não imaginava que essa última alternativa atraísse muito interesse, mas essas cotas não demoraram a se esgotar".

O senso de participação é parte importante do atrativo para os participantes do Kickstarter, que não recebem créditos tributários por suas doações. Os cerca de 12 convidados que Scioneuax recebeu para seus jantares incluem o engenheiro Mark Barrilleaux, de Houston, e sua mulher, Janet, enfermeira aposentada, que contribuíram com US$ 100. "Decidimos que valia a pena pela diversão e pela oportunidade de participar de uma produção musical", disse Barrilleaux. ¿Sou engenheiro petroleiro. De que outra forma eu poderia me envolver com música?".

Até agora, os projetos do Kickstarter incluíram uma capela temporária para casamentos em Manhattan, a transformação de um ônibus velho em um restaurante tailandês sobre rodas, uma viagem de veleiro ao redor do mundo e um projeto que envolvia fotografar cenas nos 50 Estados americanos.

Chen começou a desenvolver o conceito em 2002, depois de cancelar relutantemente um show que planejava promover durante o JazzFest de Nova Orleans, porque o investimento requerido, US$ 20 mil, era salgado demais para que ele o fizessem sozinho. "Compreendi que existia um problema subjacente que precisava de solução", disse. "E poderia existir uma maneira de descobrir se as pessoas estavam interessadas em um evento, e até mesmo em financiá-lo, como forma de administrar os riscos envolvidos".

A ideia não avançou até 2005, quando Chen fez amizade com Yancey Strickler, antigo diretor editorial da eMusic, um site de varejo eletrônico, e os dois decidiram ver se o conceito tinha chance de funcionar.

"O dinheiro foi sempre um obstáculo para a criatividade", diz Chen. "Todos temos muitas ideias que gostaríamos de realizar, mas se você não tiver um tio rico não vai poder experimentar com elas". Depois de obter US$ 300 mil em capital inicial de parentes e amigos, a Kickstarter lançou sua plataforma online em abril. A empresa ainda não está operando com lucro - todo o dinheiro arrecadado vai para os projetos. Até o momento, quase 400 ideias receberam mais de US$ 400 mil.

Os fundadores escolheram os projetos oferecidos até agora, mas o plano é abrir o site a todos os interessados. Quando isso acontecer, dizem, eles estudarão cobrar uma comissão pelo processamento de transações.

No mundo do financiamento de pequenos projetos, a Kickstarter é pioneira de seu nicho de mercado. Não é uma organização de caridade como a DonorsChoose.org, que angaria doações dedutíveis de impostos para projetos educativos. E tampouco é uma operação de microcrédito como a Prosper ou Lending Club, nas quais as pessoas relatam suas necessidades de empréstimo e indivíduos oferecem financiamento para determinadas porções dessas necessidades.

"Vejo a Kicskarter como site para micropatronos", diz Lewis Winter, 27 anos, designer gráfico australiano que doou verbas para cinco projetos. "Se eu fosse rico, bancaria projetos inteiros, mas isso me permite contribuir tanto ou tão pouco quanto posso".

Patrick Rooney, do centro de filantropia da Universidade de Indiana, diz que o modelo pode atrair mais os jovens. "É bem mais pessoal do que doar para a Universidade de Indiana, por exemplo", ele diz.

Emily Grenader, 24 anos, uma artista de Houston, envolveu diretamente os seus patronos em seu projeto, por exemplo. A ideia dela era enviar cartões postais todos os dias durante um ano. "Eu precisava do dinheiro, mas também de endereços, de pessoas, para que tudo funcionasse", diz.

Ela pedia contribuições de US$ 5, e logo levantou o dobro de sua meta de US$ 365. Mas continua a entrar dinheiro vindo de pessoas que querem receber um de seus postais. "Funciona porque as pessoas querem apoiar os artistas, mas também querem as coisas que são oferecidas", ela disse.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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