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Segunda, 26 de outubro de 2009, 12h44 Atualizada às 12h56

Pais temem violência com crianças que são expostas na web

Douglas Quenqua

Para Jessica Gwozdz, fotógrafa profissional e mãe de duas crianças, o o serviço de postagem de fotos oferecido pelo Flickr foi uma benção. Permitiu que ela mostrasse fotos de seus filhos a parentes que moram longe e não se entendem muito bem com a tecnologia, e para os quais a ideia de usar um nome de usuário e senha seria um obstáculo.

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O serviço permitia até mesmo que potenciais clientes vissem uma galeria com amostras de seu trabalho. Mas então uma amiga lhe enviou uma mensagem de e-mail com uma referência de assunto que nenhum pai gostaria de ler -"Oh, não - é a Gracie".

A mensagem continha um link para o Orkut, um site de redes sociais popular no Brasil. Alguém havia criado um perfil falso, usando fotos da filha de Gwozdz, uma menina de quatro anos.

"Eles deram um nome falso a ela, Melanie Cuthbert, e em seu status de relacionamento o perfil dizia que ela queria fazer amigos e conhecer homens", recordou Gwozdz em recente entrevista por telefone.

Outros usuários do Orkut haviam dado uma classificação "sexy" para a o pefil.

A descoberta provou ser mais séria que uma simples brincadeirinha repulsiva. De acordo com um porta-voz do Flickr, jovens adolescentes brasileiras costumavam copiar fotos de crianças do site de fotos para criar perfis em estilo "boneca de papel", e depois davam notas umas aos trabalhos das outras por meio do sistema de classificação de "sex appeal" do serviço de redes sociais.

Gwozdz contatou o Flickr e o Orkut, que imediatamente apagou os perfis envolvidos. E a fotógrafa começou a usar de maneira mais rigorosa os controles de privacidade do Flickr. Porém, até hoje recebe e-mails via conta do Flickr em que desconhecidos dizem coisas como "família muito bonita" ou pedem autorização para utilizar fotos de sua filha.

Esse é o tipo de assunto que causa pesadelos aos pais, na era das redes sociais, em que o Facebook cada vez mais exerce o papel antes reservado aos álbuns de bebês. Os jovens pais inundam os sites de fotos e redes sociais - Snapfish, Twitter, YouTube, e até Match.com - com imagens de seus filhos dançando, cantando e tomando banho.

Nem todo mundo está seguro de que todo esse impulso de compartilhar imagens seja uma boa ideia. Diversos grupos de usuários do Facebook protestam contra a ideia de pessoas que postam fotos de crianças.

No site Parenting.com, a editora, Susan Kane, disse que o debate "é incessante". E nos blogs, nas listas de discussão escolares e nas residências familiares, é comum que surjam discussões sobre o assunto: será que fotos de crianças pequenas devem mesmo ser postadas online?

Considere algumas das mensagens recentes postadas nos sites UrbanBaby.com e Momversation.com, dois serviços que promovem o contato entre jovens mães:

- "Ninguém deveria postar fotos de crianças na Internet, em caso algum!"

- "As crianças têm três anos de idade, não é nada assim tão grave".

- "Se alguém deseja postar imagens de minhas crianças online, deveria primeiro me pedir permissão (e eu diria não)".

- "Por que mostrar as crianças nuas?"

Como outros debates sobre questões referentes à criação de filhos ¿ se os pais devem ou não bater nas crianças para discipliná-las, se devem ou não permitir que elas viajem sem a companhia deles -, a questão parece dividir as famílias em dois partidos já conhecidos: os vigilantes e os acomodados.

Alguns pais querem proteger seus filhos contra problemas improváveis mas ainda assim tragicamente possíveis. Outros dizem que as crianças se sairão melhor caso sejam ensinadas a conviver com as realidades da web.

Comprimidos entre os dois extremos estão os pais que adotam regras pessoais não muito ordenadas: postar apenas em sites cujo acesso requer senhas. Não revelar nomes. Usar o Flickr, mas não o YouTube. E nada de fotos de banho.

Os pais tentam determinar o que é seguro, e quais de seus temores são irracionais. Como na maior parte dos debates quanto à segurança de crianças, os riscos não são tão severos como muitos deles talvez imaginem. Por outro lado, postar fotos de crianças online tampouco é tão seguro quanto muita gente parece presumir.

Elizabeth Hunter, de Arlington, Massachusetts, mantém um blog e frequentemente posta fotos de sua filha de dois anos de idade no site. Para ela, não há como evitar a convivência com as realidades da web.

"Centenas de crianças morrem afogadas em piscinas a cada ano, mas nem por isso fechamos todas as piscinas", ela diz. "Nós as ensinamos as crianças a nadar".

"Não posto fotos que a mostrem completamente nua ou que mostrem seus órgãos genitais, obviamente, mas já postei fotos que a mostram na banheira", acrescentou. "As pessoas decerto poderiam descobrir onde moramos, e nos perseguir, mas sequestros de crianças por desconhecidos são ocorrência das mais raras, na verdade".

Rebecca Woolf, uma redatora que vive em Los Angeles, menciona os filhos pelo nome real em seu site, e posta fotos que mostram seus rostos. Mas declarou em entrevista que "não postaria uma foto que mostre meu filho sem roupas, mesmo de costas".

Nem sempre é fácil determinar qual seria a coisa certa a fazer. "Sinto-me dividida com relação a isso", ela diz. "Há pessoas que me dizem que, ao postar as fotos, estou explorando meus filhos. Mas é uma mídia tão nova; nenhum de nós sabe o que vai acontecer".

E nem mesmo os pais mais severos são capazes de impedir que o mundo externo invada as vidas de seus filhos. Kathryn Murray, que vive no Upper East Side de Manhattan e pediu que seu sobrenome real não fosse usado para proteger a privacidade de sua família, diz que só posta fotos de seu filho no Picasa, um site que só permite acesso a convidados.

Porém, ela passou recentemente por um momento complicado quando um amigo contou que havia postado imagens do filho dela no Facebook. Murray estava tentando descobrir uma maneira educada de pedir a remoção das fotos quando o amigo, percebendo a tensão, disse espontaneamente que o faria.

"A expressão que eu tinha no rosto bastou", recordou Murray.

O que alimenta as tensões de pais como Murray são cenários catastróficos: um predador encontra fotos de uma criança bonita na internet, descobre onde a família vive e consegue sequestrar a criança na escola.

"Não é muito difícil, olhando as nossas fotos, descobrir que vivemos no Upper East Side", disse Murray. "As pessoas batem os olhos e lembram que já foram àquele parque, ou conhecem aquela rua. Como impedir que um pedófilo some dois e dois?"

Os medos dela são exagerados, afirmam especialistas em questões de segurança online.

"Pesquisas demonstram que não há virtualmente risco algum de que pedófilos apareçam para sequestrar uma criança cujas fotos tenham visto na internet¿, disse Stephen Balkam, presidente-executivo do Family Online Safety Institute. Embora os debates façam com que esses crimes pareçam comuns, disse ele, os rumores são na verdade resultado de um "tecnopânico".

O professor David Finkelhor, diretor do Centro de Pesquisa de Crimes contra a Criança, na Universidade de New Hampshire, diz que programas de televisão como "To Catch a Predator", da rede de televisão NBC, exageraram indevidamente os perigos da internet.

"Há essa caracterização de que pedófilos usam a internet como uma espécie de catálogo gigante de reembolso postal, mas não é assim que as coisas funcionam", ele disse. Os predadores usualmente concentrarão suas atenções em salas de chat e outros sites nos quais adolescentes sugiram estar abertos a atividades sexuais.

O verdadeiro risco é de que uma foto seja copiada indevidamente, e usada de maneira inapropriada.

Gretchen White, de Westminster, Colorado, tem um blog no qual posta fotos de seus filhos, e descobriu que uma jovem usuária do Facebook estava exibindo fotos de seu bebê como se fosse filho dela. "Ao que parece, ela havia mantido na internet e dito que estava grávida, e precisava de fotos de bebê para provar a história", diz White.

Amigos da jovem que desconfiavam de sua história terminaram por descobrir que a foto provinha do blog de White, e a alertaram. "Minha reação inicial foi a de que nunca mais postaria no blog", disse White, mas em lugar disso ela preferiu usar uma marca d'água com o endereço de seu blog nas fotos que posta, uma tática cada vez mais comum entre as mães que mantêm blogs com imagens dos filhos.

Rachel Sarah, autora do livro "Single Mom Seeking", recentemente encontrou um site de um grupo da Califórnia que usava como publicidade uma foto dela com sua filha. O site removeu a foto, a seu pedido, mas ela diz que a experiência foi "perturbadora".

Sempre existe a possibilidade de que pedófilos estejam roubando fotos como essa, disse Finkelhor, mas não é algo que ele tenha visto. E ele afirma que esse tipo de uso é improvável por uma razão incômoda: pornografia infantil real está disponível com tanta facilidade que pedófilos não perdem seu tempo em busca de fotos menos explícitas em redes sociais.

Não importa o quanto ou quão pouco perigoso seja postar fotos de filhos na internet, existe um risco cuja existência ninguém questiona: outros pais. E a ira deles diante de algumas fotos pode levar qualquer pessoa a pensar duas vezes antes de postar as fotos de aniversário de uma criança.

Aaron Barr, um redator freelancer de Chicago, no ano passado postou no YouTube um vídeo que mostrava uma apresentação musical de seu filho em um show da escola, para que os avós pudessem assistir.

Meses mais tarde, ele recebeu um e-mail da mãe do menino posicionado ao lado de seu filho no vídeo, pedindo que removesse o vídeo. A mãe também enviou cópia do e-mail a pais de outras crianças da classe dos meninos, o que resultou em uma pequena avalanche de posts críticos à competência paterna de Barr em uma lista de discussões locais.

"Até hoje não me sinto confortável quando penso em fotografar uma peça da escola", ele diz.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

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