Flick Bowling é um dos aplicativos para iPhone mais populares da Freeverse
Foto: The New York Times
Ian Lynch Smith, um homem descabelado e enérgico com idade próxima aos 40 anos, sorri enquanto enumera alguns dos jogos que a Freeverse, sua pequena produtora de software sediada no Brooklyn, em Nova York, conseguiu colocar na cobiçada (e sempre mutável) lista de mais vendidos da iPhone App Store: Moto Chaser, Flick Fishing, Flick Bowling e Skee-ball.
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O desenvolvimento de Skee-ball demorou dois meses, diz Smith, e rendeu US$ 181 mil em receita à Freeverse em seu primeiro mês de vendas. O mais recente projeto da empresa para a App Store é um jogo no qual uma heroína de Jane Austen, de vestido rendado, derruba legiões de zumbis com golpes de caratê. "Nunca havia surgido uma experiência assim no software para celulares", disse Smith sobre o boom da App Store. "Trata-se do futuro da distribuição digital de todas as coisas: software, jogos, entretenimento, toda espécie de conteúdo".
Enquanto a App Store evolui de uma bizarra coleção de novidades brincalhonas para o que analistas e adeptos definem como plataforma que está trazendo rápida transformação à computação e telefonia móvel, seus objetivos estão mudando, a paciência dos programadores independentes está sendo testada, as vendas das plataformas Apple de que os aplicativos precisam -iPhone e iPod Touch- estão disparando e os concorrentes da empresa se veem forçados a reformular modelos de negócios e linhas de produtos. O sistema ameaça até romper a blindagem empresarial da própria Apple.
Graças em larga medida ao iPhone, lançado em 2007, e à App Store, inaugurada no ano passado, os celulares inteligentes se tornaram o canivete suíço da era digital. Oferecem uma variedade espantosa de funções e ferramentas, ao comando de um dedo: mensagens de texto e e-mail, vídeo e fotografia, mapas, sistemas de navegação, mídia e livros, música e jogos, compras móveis e até mesmo chaves sem fio para acionar carros a distância.
"A Apple mudou a visão sobre o que você pode fazer com aquele pequeno celular que carrega no bolso", disse Katy Huberty, analista do Morgan Stanley. "Os aplicativos fazem do celular inteligente uma tendência revolucionária -como há anos não se via na tecnologia dos bens de consumo".
Huberty compara o advento da App Store e iPhone ao papel pioneiro que a America Online assumiu ao promover a adesão em larga escala dos consumidores à internet, nos anos 90. Também faz comparações com a forma pela qual os laptops reverteram as expectativas setoriais sobre as preferências dos consumidores e os computadores de mesa. Mas ela aponta que pode haver algo de ainda mais profundo em jogo.
"O iPhone é algo de diferente. Está mudando nosso comportamento", ela diz. "O jogo que a Apple vem jogando tem por objetivo fazer dela a Microsoft no mercado dos celulares inteligentes".
A popularidade do modelo Apple de aplicativos cresce de forma febril. Dezenas de milhares de programadores independentes disputam espaço para produzir programas para a empresa, e a App Store já oferece mais de 100 mil aplicativos. A Apple recentemente anunciou que os consumidores já haviam baixado mais de dois bilhões de programas da loja.
Importantes concorrentes como a Research in Motion (fabricante do BlackBerry), Palm (fabricante do Pre), Google (produtora do sistema operacional Android para celulares) e Microsoft (produtora do Windows Mobile) estão correndo para reproduzir em seus sistemas o frenesi causado pela App Store.
A febre dos aplicativos levou cidades como Nova York e San Francisco a abrirem bancos de dados municipais ao público, a fim de estimular programadores a desenvolver aplicativos ultralocalizados para computadores e celulares.
Não é preciso ir além do saguão da sede da Apple, em Cupertino, Califórnia, para perceber que o iPhone e os aplicativos que operam nele são peças centrais da estratégia da companhia para a telefonia móvel. Bem no meio do saguão fica uma imensa montagem formada por 20 telas LED povoadas por 20 mil ícones brilhantemente coloridos.
Enquanto Philip Schiller, vice-presidente mundial de marketing de produtos na Apple, explica como funciona o telão -a cada vez que um aplicativo é comprado, o ícone que o representa na tela se move, causando um tremor nos ícones vizinhos-, ele também se agita.
Normalmente reservado e lacônico, Schiller move as mãos rapidamente e permite que sua voz ganhe tom de intensa animação ao falar sobre o potencial que a App Store desencadeou. "Creio com certeza que esse seja o futuro do desenvolvimento e distribuição do melhor software", ele afirma. "A ideia de que qualquer um, de uma pessoa isolada a uma grande empresa, possa criar um software inovador e passível de ser carregado no bolso de um usuário está simplesmente explodindo. É uma verdadeira inovação, e o futuro será assim; todos os criadores de software percebem".
A Apple costuma envolver suas decisões internas em um manto de segredo -tática que ajudou a preservar a mística da empresa e a gerar intenso interesse pelo lançamento de seus produtos. Mas a App Store depende de imensos quadros de programadores externos para povoar suas prateleiras virtuais com produtos, o que deixa a Apple na posição incomum e ocasionalmente desconfortável de colaborar com profissionais que não estão enquadrados à metodologia da empresa.
Isso fez com que a Apple conferisse grande apoio aos programadores independentes que por muito tempo se viram rejeitados pelas grandes empresas de telecomunicações, mas também gerou frustrações entre eles devido ao que os programadores entendem como processo inescrutável e arbitrário de seleção de software pela empresa para venda na App Store.
A Apple prefere retratar essa questão de outra maneira. "Acredito que, em linhas gerais, façamos um bom trabalho aqui", disse Schiller. "Ocasionalmente, temos de decidir pró ou contra alguma coisa com base em nosso juízo, e nas reações das pessoas a isso, rejeitando algo que não deveríamos ter rejeitado, ou aceitando algo que não deveríamos ter aceitado".
Para a Apple, esse processo é um mal necessário. A empresa valoriza muito o que define como "confiança do consumidor", ou a ideia de que os usuários têm fé em que um aplicativo distribuído para o iPhone não travará o aparelho, roubará seus dados pessoais ou carregará conteúdo ilegal. Schiller diz que a maioria dos aplicativos passa sem dificuldade pelo processo de revisão, e aqueles que requerem mais atenção o fazem em larga medida devido a defeitos ou lacunas no código.
"Nós damos muita importância à reação dos usuários, positiva ou negativa", ele diz. "Embora existam algumas queixas, elas são apenas uma pequena parte daquilo que acontece no processo".
A Apple recebe mais de 10 mil pedidos de inclusão de aplicativos por semana. A maioria dos programas chega à App Store em prazo de duas semanas (o que cria ainda outro problema: a dificuldade que os usuários sentem para selecionar, em meio a um acervo de 100 mil aplicativos, as pérolas que desconhecem). Ainda assim, a App Store funciona muito melhor do que qualquer alternativa já tentada, diz Peter Farago, executivo de marketing da Flurry, uma companhia de análise do setor de comunicação e computação móvel, de San Francisco. Os dias em que os criadores de software para celulares precisavam negociar com as grandes empresas do setor de telecomunicações, se desejavam manter a esperança de incluir seus aplicativos nos celulares, se tornaram coisa do passado.
"Para criar um relacionamento com uma operadora de telefonia móvel eram necessários seis a nove meses de esforço, e investimentos de talvez US$ 250 mil para criar a infraestrutura requerida; além disso, a operadora tendia a abocanhar 50% ou mais do valor das vendas", diz Farago, um processo que ajudava a limitar o acesso às plataformas móveis. "A Apple ajudou a criar uma classe média muito mais saudável de programadores de aplicativos, e fez com que o bolo crescesse para todos".
A Apple embolsa 30% do valor das vendas de qualquer programa comercializado na App Store, e o restante fica para os programadores. Ainda que as barreiras à adesão de programadores tenham sido substancialmente reduzidas, Farago reconhece que "ainda existem pontos de fricção, se bem que tenham mudado".
Os criadores de software mencionam exemplos de aplicativos que desapareceram no limbo do processo de aprovação, e passaram meses sem aprovação ou rejeição. E à medida que as empresas de software de maior porte começaram a produzir aplicativos, os programadores de garagem, com suas empresas de menor porte, começaram a se preocupar com a possibilidade de que sejam excluídos do mercado.
A FreedomVoice Systems, de San Diego, mal podia esperar para lançar uma versão de seu software de telefonia adaptada ao iPhone. Ela submeteu a ideia à Apple no ano passado, entusiasticamente, e esperou por uma resposta. E esperou. E esperou ainda mais. "Já são 396 dias sem resposta da Apple", diz Eric Thomas, presidente-executivo da FreedomVoice. "O aplicativo é mostrado como 'pendente de aprovação' na App Store há um ano". Thomas diz compreender que a Apple tem o direito de decidir se aceita ou não o seu produto. "Mas a ideia de que não nos informem sobre a rejeição, e o seu motivo, para que possamos tentar corrigir qualquer problema, é uma abordagem muito estranha e nada amistosa", diz.
A Freeverse, criada por Smith em 1994, desenvolve jogos e programas para computadores. Mas como muitas outras companhias de software, a empresa decidiu transferir suas atenções ao iPhone dada a disparada em sua popularidade. O que não significa que o caminho do sucesso se tornou fácil. "Apesar de nosso tamanho e seriedade, somos tratados como um calouro universitário que está fazendo um bico", diz Smith. "A vantagem, por outro lado, é que entrar no sistema é muito mais fácil. Todo mundo tem chance".
Tradução: Paulo Migliacci ME

- The New York Times


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