Vem sendo desanimador testemunhar que os bancos dos Estados Unidos aparentemente não aspiram a nada mais elevado que a rapina. E foi desmoralizante ver o presidente Barack Obama se escondendo do Dalai Lama por medo de ofender os governantes chineses. Assim, isso torna a decisão do Google de resistir à ciberopressão chinesa positivamente deslumbrante.
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Ao anunciar que não pretende mais censurar seus resultados de busca na China, mesmo que isso signifique que precisará deixar o país, o Google está demonstrando retidão ¿ e de uma espécie que poucas outras empresas ou governos já exibiram com relação a Pequim. Um resultado foi imediato: jovens chineses têm visitado a sede do Google em Pequim para deixar flores e prestar sua homenagem.
A China tentou imediatamente censurar o debate sobre suas práticas de censura que o anúncio do Google causou, mas muitos usuários chineses do Twitter fizeram o máximo para elogiar o Google. Um deles, de Guangdong, declarou que "não é o Google que está se retirando da China; é a China que está se retirando do mundo".
Os cínicos dizem que o Google tentou transformar um revés de negócio (a empresa está atrás da lider local, Baidu, no mercado chinês de buscas) em oportunidade de melhorar sua imagem. Quaisquer que sejam os motivos, a decisão representa um contraste refrescante com relação ao Yahoo, que auxiliou o governo da China a enviar quatro dissidentes - Shi Tao, Li Zhi, Jiang Lijun e Wang Xiaoning - à prisão, com sentenças de até 10 anos.
"Nos 20 anos em que venho realizando esse tipo de trabalho, não consigo encontrar exemplo comparável", disse John Kamm, fundador da Fundação Dui Hua, que desfrutou de notável sucesso em seus esforços para encorajar a China a libertar dissidentes. Kamm, ele mesmo um antigo empresário de sucesso, argumenta que as empresas ocidentais poderiam fazer mais para projetar os seus valores.
O Google anunciou sua decisão depois de uma sofisticada tentativa chinesa de invadir as contas de dissidentes políticos no Gmail. O episódio, e a discórdia resultante, destacam dois pontos importantes quanto à China.
O primeiro é que Pequim vem se dedicando cada vez mais à guerra computadorizada. Essa é uma maneira barata de combater o domínio norte-americano na tecnologia militar convencional. Caso os Estados Unidos e a China algum dia se defrontem militarmente, Pequim pode nos atacar não com mísseis, mas com infiltrações cibernéticas que desativariam a rede elétrica, prejudicariam as comunicações e tomariam o controle de comportas de represas.
Além disso, os líderes chineses não estão mantendo na reserva o seu arsenal de guerra eletrônica, mas parecem já estar a usá-lo agressivamente.
Um grande ataque coordenado aos computadores do Dalai Lama, de embaixadas estrangeiras e até mesmo a ministérios de outros países foi descoberto no ano passado, e rastreado até origens chinesas. A operação tomava por alvo computadores em mais de 100 países, e teve alcance tão amplo que especialistas ocidentais em assuntos de inteligência imaginam que tenha sido organizada pelo governo chinês, ainda que não exista prova definitiva disso. (Caso esta coluna termine substituída, no site do New York Times, por um texto sob minha assinatura contendo elogios à gloriosa coragem do Partido Comunista chinês em seu combate aos imperialistas burgueses do Google ¿ bem, meu argumento estaria provado.)
Um segundo ponto é que a China está reordenando o equilíbrio que costumava existir entre abertura e eficiência econômica. O arquiteto das reformas econômicas espantosamente bem sucedidas que mudaram a China, Deng Xiaoping, decidiu ranger os dentes e aceitar fotocopiadoras, máquinas de fax, celulares, computadores e advogados em seu país porque isso tudo era parte da modernização.
No entanto, nos últimos anos o presidente Hu Jintao vem reprimindo as liberdades da internet e a ação dos jornalistas e dos advogados independentes. Hu é brilhante intelectualmente, mas não parece ter visão quanto à China daqui a 20 anos. Trata-se do lider chinês mais fraco desde que Hu Guofeng perdeu o poder em 1978.
Em lugar disso, a visão e a liderança, na China, dependem cada vez mais de seus internautas, que não demonstram em grau algum a tosca subserviência de alguns estrangeiros. Em suas fotos no Twitter, muitos ostentam as fitas amarelas que demonstram solidariedade a Liu Xiaobo, escritor chinês recentemente sentenciado a 10 anos de prisão. Isso requer coragem!
Os internautas chineses escalam o Grande Firewall da China usando redes virtuais privadas e servidores americanos protegidos como o Freegate. (Os Estados Unidos deveriam apoiar esses esforços provendo capacidade adicional a esses servidores como forma de promover a livre informação e de solapar a censura na China e no Irã.)
Os jovens chineses também são infinitamente criativos. Quando o governo bloqueou referências ao 4 de junho, a data do massacre da praça Tiananmen, os internautas escaparam às restrições usando a data "35 de maio".
Quando vivi na China, nos anos 90, um dos primeiros vírus de computação que encontrei aparecia na tela para perguntar: "Você gosta de Li Peng?" (Ele era o primeiro-ministro linha dura, naquela época, e o povo não o apreciava muito.) Se você dizia que não gostava de Li Peng, o vírus desaparecia sem causar danos. Se você expressava apoio a ele, o vírus tentava destruir seus dados.
Creio que no futuro uma combinação de tecnologia, educação e informação porá fim à paralisia atual na China. Em um conflito entre o Partido Comunista e o Google, o partido pode sair vitorioso em curto prazo, mas em longo prazo eu aposto no Google.
Tradução: Paulo Migliacci ME

- The New York Times


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