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Garota canadense narra em blog "o fim da vida"

28 de abril de 2010 15h23 atualizado às 15h51

Eva Markvoort expôs na web o dia a dia de um paciente com fibrose cística e chamou atenção para a doença. Foto: 65redroses/Reprodução

Eva Markvoort expôs na web o dia a dia de um paciente com fibrose cística e chamou atenção para a doença
Foto: 65redroses/Reprodução

Na foto, uma garota frágil com o cabelo amassado, uma menina que já foi rainha de concurso de beleza, mostra um sorriso fraco para a câmera. "Olá mundo", diz Eva Markvoort no vídeo. "Para o meu blog, aos meus amigos, a todos. Tenho uma notícia. É meio difícil de ouvir, mas eu posso contar com um sorriso". Em uma cama de hospital, Eva aparecia sentada, cercada por sua família. "Minha vida está acabando".

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Eva Markvoort tinha fibrose cística, uma doença incurável que provoca o acúmulo de muco nos pulmões. Ela narrou em um blog ("65_RedRoses") a vida de uma pessoa com uma doença terminal, entre fotos engraçadas com os amigos e com a família.

Eva chegou a receber um transplante em 2007 - há um documentário, também chamado "65 Red Roses", exibido internacionalmente, que fala de sua história, da doença e do transplante - mas menos de dois anos depois seu corpo começou a rejeitar o órgão. Após o documentário - que também foi premiado - ser veiculado, o número de doadores de órgãos aumentou consideravelmente, de acordo com artigo no jornal Vancouver Sun.

E até o fim ela lutou para informar as pessoas sobre a doença e a importância da doação de órgãos. Recebeu inclusive prêmios, entre eles o Summerhayes Award 2010, da Fundação Canadense para a Fibrose Cística no Canadá.

Morte e a era da internet
Médicos especialistas que trabalham com doentes terminais dizem que compartilhar os últimos pensamentos é uma forma de reconhecer que o fim está próximo, mas também desmistifica a morte para os outros. E na era da internet, muitas pessoas aproveitam as redes sociais para refletir online sobre suas vidas.

"O que estamos vendo nesta última década é uma mudança de cultura, que fala abertamente sobre a morte", disse o Dr. Chris Feudtner, diretor de pesquisa do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital Infantil da Filadélfia, na Pensilvânia, em reportagem no site da CNN.

"A linha de pensamento é 'Eu ainda estou vivo. Não quero ficar fechado. Quero poder dividir o que estou aprendendo nesta jornada'", afirmou.

Outro médico, David Cassarett, diz que "muitos destes blogs contam o dia a dia das pessoas e são bem honestos, sem mascarar as dificuldades e medos". Trazem desespero, "trazem o que precisamos ouvir", ele diz, mas também falam de esperança.

Eva Markvoort começou seu blog em 2006. Sozinha no quarto - os portadores de fibrose cística ficavam isolados por causa da infecção - ela começou a conversar online com outros pacientes. Quando estava muito frágil, ela ditava para que algum amigo ou familiar escrevesse. "A atividade online, o retorno que ela recebia, tudo tornou-se um foco muito importante para ela", disse sua mãe Janet Brine.

O blog se chama "65_RedRoses" porque, quando criança, Eva não conseguia pronunciar o nome certo da doença (em inglês "cystic fibrosis"). Então fez um trocadilho com 65 ("sixty five", em inglês) e adicionou "red roses" (vermelho era sua cor predileta, e rosa sua flor preferida).

Nos últimos dois anos, o blog conectou-a a mais de um milhão de internautas do mundo todo. O vídeo em que ela aparecia cercada pela família, dizendo estar perto de morrer (gravado cerca de um mês antes da morte), atraiu imediatamente mais de 150 mil page views, e dezenas de milhares nos dias seguintes.

Celebrando a vida
Mas para além da dor, do desconforto e da doença, o tema recorrente do blog era o amor. No vídeo em que fala sobre a morte iminente, ela diz: "Acho que sou muito afortunada, porque eu amei mais do que vocês poderiam pensar, mais do que vocês poderiam imaginar. Então, eu estou comemorando isso: celebrando minha vida".

A menina cresceu em um subúrbio de Vancouver, no Canadá. Gostava de moda e chegou a frequentar a Universidade de Victoria. Usava os cabelos vermelhos e queria ser atriz, mas a doença impediu a continuação da carreira. "Eva encontrou outras maneiras de utilizar essa veia artística, como escrever o blog, por exemplo", afirmou a mãe.

A triste realidade das últimas seis semanas era exposta em seu blog, em posts que falavam de "episódios de horas ofegantes, ondas de náuseas e falta de sono". "Eu estou me afogando nas medicações", ditou ela para que a irmã escrevesse no dia 25 de março último. "Não consigo respirar".

"Este é o fim da minha vida, mas não é o fim do meu amor", disse. Eva Dien Brine Markvoort morreu na manhã de 27 de março, aos 25 anos.

No endereço http://65redroses.livejournal.com/ encontram-se vídeos, os posts de Eva, fotos e relatos da família e amigos sobre o trabalho e a vida da garota. Nesta sexta-feira, dia 30, família e amigos farão uma "Celebração do Amor", um memorial para Eva, em Vancouver, que será transmitido também em seu blog.

Redação Terra