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Tecnologia

 
 

"Todos nós adoramos espelhos", diz Fernanda Viégas

05 de maio de 2010 09h03 atualizado às 09h35

Existe um gráfico para todo assunto que você consiga destilar na forma de dados, diz Fernanda. Foto: Divulgação

"Existe um gráfico para todo assunto que você consiga destilar na forma de dados", diz Fernanda
Foto: Divulgação

Deus aparece 4.446 vezes na versão da Bíblia em inglês contra 4.375 na versão em português. Na Rússia, informa o Many Eyes, a maior rede social é o Kontakte e no Irã, o Facebook. É possível criar um gráfico para praticamente tudo que puder ser transformado em dados, afirma Fernanda Viégas nesta entrevista por e-mail. Uma das mulheres mais influentes da tecnologia, recentemente saída da IBM para criar a própria consultoria de dados, a Flowing Media, ela disse ter ficado surpresa com a escolha.

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Numa palestra em novembro, você ressaltou que reunir e analisar dados não é mais uma tarefa disponível apenas a pesquisadores. Para demonstrar, montou um gráfico sobre os personagens da novela Viver a vida. Pode existir um gráfico para tudo?
Existe um gráfico para todo assunto que você consiga destilar na forma de dados. Uma das mudanças mais interessantes dos últimos anos é a percepção de que dados não são somente números. Textos, imagens, sons, vídeos também são dados! Isso significa que estamos abrindo oportunidades de análise computacional sobre aspectos da vida humana que simplesmente não existiam antes. Por exemplo, podemos começar a analisar toda a literatura humana e tentar entender padrões que até agora eram desconhecidos. Podemos começar a estudar como diversas línguas evoluiriam em uma escala inimaginável há alguns anos.

Numa análise prática, o que as pessoas podem querer saber com gráficos pessoais?
Todos nós adoramos espelhos. A visualização de dados pessoais nada mais é que um novo espelho que estamos criando para nos conhecermos melhor. A partir do momento em que tenho uma visualização dos meus dados, fica mais fácil (e divertido) me comparar com os outros: eu tenho 20 amigos enquanto a Maria tem 150! Tenho malhado mais ou saído mais que meus amigos, etc. A parte menos benigna dessa equação acontece quando outras pessoas - ou mesmo instituições - usam esse espelho para monitorar indivíduos sem expressa autorização. Daí você tem a quebra de privacidade e profiling sem que as pessoas envolvidas entendam o que está acontecendo.

Há uma antiga piada de jornalistas sobre um leitor que ligava para jornais - foi antes da popularização da internet - querendo saber quantas vezes a palavra "Deus" aparece na Bíblia. É uma resposta que ele obteria sozinho hoje?
Sozinho e rapidinho. Uma ferramenta como o Many Eyes dá essa resposta em segundos por que deixa o usuário visualizar a Bíblia e procurar por termos de interesse no texto. Para os curiosos: a palavra "Deus" aparece 4.375 vezes na versão da Bíblia em português e 4.446 vezes na versão em inglês. Esses números dependem, é claro, de qual edição da Bíblia estamos falando. Mas parece seguro dizer que a palavra "Deus" aparece em torno de 4 mil vezes na Bíblia. (Português: http://bit.ly/c8tjwT. Inglês: http://bit.ly/cvvzi7).

A revista The Economist falou recentemente que estamos no alvorecer da "revolução industrial das informações". Considerando que os dados muitas vezes estão disponíveis, mas não organizados, como impedir que se percam ou se diluam?
A boa curadoria de dados online é difícil e poucas organizações têm uma abordagem efetiva nesse sentido. Não só é preciso saber agregar e organizar dados mas, na era da internet, também é necessário se pensar estrategicamente em como compartilhar esses dados com o resto do mundo. É importante fazer com que os dados sejam "acháveis" e "amigáveis" ao desenvolvedor. Para que os dados sejam facilmente encontrados, é crucial o uso de metadata - algum tipo de descrição sobre o conteúdo dos dados, de quando são, qual a fonte, etc. Com relação a formatos, arquivos que sejam diretamente legíveis por máquinas - XML, JSON, ou CSV - são sempre preferíveis a arquivos feitos para os olhos humanos - como PDF, por exemplo. Quando pelo menos um dos elementos acima está presente, há uma boa chance de que alguma pessoa ou comunidade começe a fazer bom proveito dos dados (visualizando, publicando artigos sobre o conteúdo), iniciando assim um ciclo virtuoso que incentiva um maior cuidado com a distribuição de dados.

Além de oferecer apresentações visuais, o Many Eyes tem um aspecto de fórum de debates, quase uma rede social, ao permitir que internautas discutam as informações. Era um efeito esperado? Que tipo de futuro se pode esperar dessas interações?
Criamos o Many Eyes para proporcionar às pessoas um ambiente que possibilitasse a conversa e a troca de idéias baseada em dados. Para nós, esse aspecto social é imprescindível, pois faz com que a visualização de dados não seja um fim tecnológico, e sim um meio para o debate social.

O Many Eyes é um projeto colaborativo. A Flowing Media, uma consultoria. Que tipo de diferenças há entre os dois?

O Many Eyes foi um projeto de pesquisa que eu e meu colega, Martin Wattenberg, fizemos quando trabalhávamos na IBM. Há um mês deixamos a IBM para abrir a nossa empresa de consultoria em visualização: a Flowing Media. A idéia é trazer visualização para um público muito maior, com projetos que amplifiquem o potencial dessa tecnologia como meio de comunicação. Queremos ajudar jornais, revistas, a mídia em geral a contar histórias através de dados.

Como foi seu projeto com e-mails?
Quando estava fazendo o meu PhD no MIT, criei visualizações de arquivos pessoais de e-mail para ajudar as pessoas a explorarem esses documentos de uma forma mais interessante e efetiva. Como eu queria testar a tecnologia com usuários e dados de verdade, tive um cuidado grande com a privacidade dos arquivos com os quais estava lidando - várias pessoas haviam carregado décadas de e-mail no sistema que criei. Expliquei aos usuários que, fora eles, ninguém mais teria acesso aos dados nem à visualização. Para minha grande surpresa, uma das primeiras coisas que os usuários tentavam fazer assim que começavam a brincar com o sistema era compartilhar a visualização com outras pessoas! Alguns mandaram imagens da visualização para amigos e familiares enquanto outras pessoas chamaram amigos para sentar junto a elas em frente a visualização. Percebi então que eles estavam usando os gráficos como artefatos sociais da mesma maneira que usamos fotos para contar a história das nossas vidas. Desde então tenho tentado criar visualizações que preencham essa necessidade de comunicação.

Como você recebeu a escolha de ser uma das mulheres mais influentes em tecnologia?

Fiquei bastante surpresa e extremamente honrada de fazer parte de um grupo tão seleto de mulheres. Também fiquei feliz por poder alçar a bandeira da visualização entre tantas outras tecnologias citadas pela revista!

Considerando empresas como Apple, Google, Microsoft e Facebook, são todas gigantes criadas e comandadas por homens, mesmo hoje em dia. A própria lista da FastCompany - embora faça justiça a mulheres realmente inovadoras - afirma que elas estão em desvantagem no setor de tecnologia. Estão?

Infelizmente, sim. Os círculos de alta tecnologia ainda tendem a ser dominados por homens. Ainda há uma percentagem pequena de mulheres em cargos de liderança ou donas de seu próprio negócio. As startups de ponta de hoje ainda são formadas desproporcionalmente por homens. Tenho fé em que as coisas continuarão a mudar para melhor, mas ainda estamos na contramão da história. Em uma época em que as mulheres conseguem mais diplomas universitários do que os homens, a realidade de inovação tecnológica deveria ser outra.

Quando disse numa lista de discussão que faria esta entrevista, um participante se empolgou e comentou que Fernanda Viégas é "a maior brasileira viva". É verdade?
Nossa! quem me dera!

Como foi sair do Brasil, um país que não aparece muito em rankings de inovação ou invenções, e se destacar neste nível que você conseguiu?
A verdade é que teria sido bem legal poder ter feito isso no Brasil, sem ter que estar longe da minha família. Só saí do Brasil porque o sistema educacional não bateu com a minha indecisão - como eu não sabia exatamente o que queria estudar, entrei e saí de várias universidades sem me achar. O esquema americano, no qual você pode mudar de idéia enquanto está na universidade, foi o que acabou funcionando para mim. Com relação à nomeação da FastCompany, acho que só confirma aquilo que a gente já sabia: o brasileiro é tão esperto e capaz quanto qualquer outro povo. Muitas vezes o brasileiro é ainda mais criativo que os outros. Tento sempre aplicar essa nossa qualidade inata no meu trabalho.

Redação Terra