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 Web: onda de vídeos sobre compras diverte e dá lucro a fãs
08 de maio de 2010 14h20 atualizado em 10 de maio de 2010 às 08h20

Melissa Rose Ponce de Leon, em casa, expõe suas últimas aquisições em frente à webcam. Foto: Yana Paskova/The New York Times

Melissa Rose Ponce de Leon, em casa, expõe suas últimas aquisições em frente à webcam
Foto: Yana Paskova/The New York Times

Melissa Rose Ponce De Leon, 19, atendente de bar do Bronx, havia acabado de voltar das compras. Ao chegar em casa, ela se sentou em seu pequeno quarto cor de pêssego, se inclinou para a webcam e mostrou suas compras: alguns batons da MAC, uma blusa preta brilhante em V, uma pulseira de cobra e um novo par de botas Ugg. "Se você me segue no Twitter, sabe que eu estava twitando sobre o meu dilema", ela disse com franqueza ao seu público. "Devo levar o cinza ou o preto?" Ela mostrou o par de Uggs pretas. Mistério resolvido.

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Esse é um vídeo sobre compras, um fenômeno que tem varrido o YouTube há mais de um ano, no qual mulheres, a maioria jovem, metodicamente compartilham suas compras de moda e beleza. Os vídeos são o equivalente virtual exibir às amigas seus achados depois das compras. E, numa recessão, eles satisfazem uma emoção voyeurística: ver como as pessoas gastam dinheiro.

Vídeos sobre compras também se transformaram numa empreitada lucrativa para algumas. Ponce De Leon, por exemplo, ganha US$ 1 mil por mês através do programa de "parceria" do YouTube, que dá aos membros uma parte dos lucros de anúncios que aparecem em seus vídeos. Algumas autoras dos vídeos recebem dinheiro de companhias cujos produtos elas avaliam - geralmente em postagens abertamente patrocinadas, mas às vezes debaixo dos panos.

As autoras dos vídeos com patrocinadores corporativos às vezes promovem competições, distribuindo produtos como uma forma de atrair novos assinantes. Em alguns casos, as mulheres ganham uma comissão: April Athena de Los Angeles, por exemplo, diz que ganha 15% de comissão de uma companhia que comercializa chapinhas de cabelo, Flat Iron Experts, sobre as vendas geradas pelas avaliações que ela faz dos produtos.

"Falamos sobre o produto e então fornecemos um link para o website", Athena disse. Ela ganha menos de US$ 1 mil por mês porque tem uma base pequena de assinantes, "mas muitas dessas meninas provavelmente têm 50 mil assinantes e ganham alguns milhares de dólares por mês fazendo isso."

Quanto essas moças ganham "depende do número de visualizações" dos vídeos, disse Margaret Healy, gerente de parcerias estratégias do YouTube. "Quanto mais visualizações você tem, mais dinheiro você ganha, ponto final."

Sob as diretrizes da Comissão Federal de Comércio dos EUA, que entraram em vigor em dezembro de 2008, as autoras desses vídeos devem revelar ao público quando recebem produtos gratuitos. Mas muitas não sabem disso. "As companhias devem informar às moças que elas precisam dizer que receberam o produto de graça", disse Mary Engle, porta-voz da comissão. E a comercialização por essas promotoras de vendas tem encontrado alguns empecilhos.

Teresa Ulrich, uma cabeleireira de Vancouver, Colúmbia Britânica, ficou surpresa quando uma pequena confecção de roupas chamada Hot Miami Styles lhe enviou um e-mail pedindo que ela avaliasse de maneira "positiva" as roupas que havia recebido gratuitamente da empresa. Sem se deixar intimidar, ela gravou uma avaliação honesta. Em seu vídeo, ela mostra um item azul de formato esquisito que deveria ser um vestido. "É muito ruim, é ruim demais", ela disse. "É ruim de lavar o carro - porque vou lavar o carro com isso."

Apenas algumas horas depois de o vídeo ter sido postado e visualizado cinco mil vezes, a companhia enviou um e-mail a Ulrich, fazendo pressão para que ela o retirasse do site e alegando que dois funcionários foram demitidos devido à "queda nas vendas". Ela se recusou. Aos 29 anos, Ulrich diz que se deixa impressionar menos do que a maioria das autoras de vídeos mais jovens. "Sinto que é a integridade da pessoa, mesmo", ela disse. "Sinto que quando as pessoas recebem coisas de graça, elas mentem."

Lauren Luke, um exemplo para muitas dessas autoras de vídeos (ela usou seus vídeos no YouTube em benefício de uma carreira como maquiadora, com sua própria linha de produtos e um programa de TV), concorda que o dinheiro muda tudo.

"Quando tudo começou, existia muita gente online que dizia mais a verdade sobre um produto, porque elas não tinham nada a ganhar", Luke disse em entrevista. "Mas agora, há tantas pessoas recebendo produtos de maquiagem de graça, além de comissão, que é muito difícil - para mim, também - pensar, 'certo, em quem eu acredito?'"

Duas das mais bem-sucedidas autoras de vídeos são Blair e Elle Fowler, irmãs do Tennessee que, juntas, possuem meio milhão de assinantes de seus dois canais no YouTube. Segundo um segmento sobre as irmãs no "Good Morning America" na ABC, uma delas está tendo aulas em casa para poder se focar na produção dos vídeos. (Segundo relatos, Blair tem 16 anos e Elle, 21.) Elas são representadas por uma agente de Los Angeles, Shelly Marchetti.

Um representante de uma companhia britânica de acessórios, Secret Conquest, disse por e-mail que Marchetti havia pedido que um "grande reembolso" fosse pago a Blair Fowler em troca de uma avaliação de produto. A avaliação não aconteceu. As negociações por e-mail foram postadas num website, mostrando que a quantia pedida era de US$ 500.

Darian Braun, dono de uma companhia de sprays de bronzeamento chamada SunLove, disse por telefone que havia pagado US$ 4 mil a Elle Fowler por uma avaliação, entendendo que o pagamento deveria cobrir custos de edição. Após uma disputa, ele disse, Fowler tirou o vídeo do site. Marchetti recusou um pedido de entrevista com as irmãs Fowler e não respondeu a um pedido de comentário sobre as empresas SunLove ou Secret Conquest.

Ponce De Leon disse que, com base na maneira pela qual foi abordada pelas companhias, pagamentos não divulgados entre as autoras dos vídeos e os fornecedores são provavelmente rotineiros. Ela conta que, embora às vezes aceite produtos gratuitos, ela não recebe dinheiro. "Tenho muita cautela agora quando aceito coisas de graça e, quando aceito, realmente testo o produto por um tempo", ela disse.

Se Ponce De Leon leva sua função a sério, existe uma boa razão para isso: quase 48 mil pessoas assistiram ao seu vídeo de 12 minutos sobre as botas Ugg. Sob o apelido MakeupByMel, ela tem 131 vídeos - incluindo avaliações e tutoriais -, que coletivamente acumularam quase quatro milhões de visualizações.

Existem até algumas paródias sobre ela. Em uma, a imitadora brinca com a semelhança de Ponce de Leon com Snooki, de "Jersey Shore": uma falsa Ponce De Leon mascando chiclete mostra suas compras da Lush fazendo um sotaque exagerado de Nova York. A piada é o fato de ela não parecer saber nada sobre os nomes ou preços dos produtos.

Quanto a Ulrich, de Vancouver, ela está em negociações para apresentar um programa de estilo para um website de compras canadense, e vibra com a possibilidade de seus vídeos resultarem numa carreira glamorosa. "Isso seria realmente incrível", ela disse. Então, veio à mente de Ulrich um pensamento filosófico, que parece ser uma raridade entre as autoras desses vídeos. "Quando isso vai ser o suficiente?", perguntou. "Quando vamos ter o suficiente?"

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
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