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Fotógrafo edita fotos clássicas com Instagram e revolta fãs

8 set 2011
14h19
atualizado às 14h48

Um fotógrafo canadense virou alvo de uma série de críticas graças a um projeto que não passava de uma brincadeira descontraída: ele obteve uma série de fotografias famosas produzidas por "mestres" das lentes e passou todas elas pelo Instagram, fazendo-as parecer que foram tiradas na época atual, com iPhones, e "transformadas" em imagens antigas pelos filtros do serviço. O resultado está publicado em um Tumblr (veja neste atalho: http://bit.ly/niCPxT), e causou uma enxurrada de reclamações. Mas, para a surpresa do fotógrafo, não foi dos autores, mas de seus fãs.

Modificação de Emond com Instagram da imagem "Bala atravessa Maçã" (Bullet through Apple, no original), do engenheiro norte-americano Harold E. Edgerton, que está no Museu Americano de Arte Smithsonian
Modificação de Emond com Instagram da imagem "Bala atravessa Maçã" (Bullet through Apple, no original), do engenheiro norte-americano Harold E. Edgerton, que está no Museu Americano de Arte Smithsonian
Foto: http://mastergram.tumblr.com / Reprodução

Andrew Emond é um fotógrafo baseado em Montreal, que tem em seu portfólio uma investigação cuidadosa sobre a complexidade dos ambientes artificiais criados pelos seres humanos, principalmente edifícios industriais e infraestrutura urbana. Seu ensaio sobre os esgotos de uma grande cidade (disponível neste atalho: http://bit.ly/rfb0ho) rendeu um documentário. Até aqui, deu para perceber que se fala de um sujeito sério e com um sólido conjunto de trabalhos autorais.

Mas o projeto paralelo parece estar chamando mais atenção do que o trabalho do profissional. Em seu Twitter, o fotógrafo comenta: "Tenho sido xingado por causa do Tumblr, acerca do que consideram desrespeito, violação de copyright, apropriação etc. Isso é interessante e um pouco inesperado". O canadense aproveita as críticas para levantar questões sobre direitos autorais e trabalhos remixados. "Obras de música e vídeo são recriadas, alteradas e recombinadas por outras pessoas o tempo todo, como podemos ver no YouTube em particular, sem que isso cause quaisquer reclamações. Por que seria diferente com a fotografia?", questiona.

As observações são pertinentes. Na história da arte, até o século 19 os conceitos de autoria individual e direito de cópia não eram tão rígidos como hoje. E o mundo da música gravada tem apenas um pouco mais de um século de existência ¿ a mesma idade dos filmes cinematográficos. Quando a música começou a ser perpetuada em cilindros e discos, entendia-se que o direito recaía sobre a gravação em particular, enquanto o direito da canção era relacionado à publicação das suas partituras. Quanto ao cinema, é famosa a história de como Thomas Edison copiou e distribuiu livremente filmes do pioneiro cineasta francês Georges Meliès sem autorização nem royalties ao autor, que terminou falido.

A questão da apropriação artística de imagens é tratada em artigo de Jonathon Delacour (em inglês, neste atalho: http://bit.ly/os0MR1), uma indicação do próprio Emond sobre o tema. No texto, o autor disseca o problema ainda não resolvido da apropriação da autoria de um trabalho visual, e faz foco no caso famoso e controverso de uma série inteira de fotos do "mestre" Walker Evans por Sherrie Levine nos anos 1980. Curiosamente, o artigo mostra que o próprio Evans foi autor de muitas fotos memoráveis que nada faziam além de registrar outras imagens, fotografias e pinturas, originalmente criadas por outros autores.

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