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25 de março de 2012 • 18h36 • atualizado às 18h51

Nem Facebook, nem Twitter: Pinterest é nova onda na web

Pinterest é uma rede social que permite criar murais virtuais com imagens da internet e classificá-las por grupos de interesse
Foto: Divulgação
 

Em menos de dois anos, uma startup do Vale do Silício atingiu a marca de site independente com maior crescimento da história da web americana, ao chegar a 10 milhões de usuários únicos nos Estados Unidos. O Pinterest, rede social que permite criar murais virtuais de fotos, já ganhou clones, fãs, e tem hoje 10,4 milhões de membros cadastrados, segundo o AppData. Entre janeiro e fevereiro deste ano, a rede cresceu 52%.

Criado em 2010, o Pinterest ganhou expressão na metade do ano passado: entre junho e novembro o tráfego aumentou mais de 2.000%, segundo o Shareaholic - e o site ainda é fechado apenas para quem tem convite. O volume indica o gosto dos usuários por criar murais (boards) sobre moda, comida, bichos fofos, destinos turísticos, design, arte, e muito mais, coletando imagens dos mais diversos cantos da web para pendurar (pin) em suas paredes virtuais e segmentadas.

"Na essência, o Pinterest é um site que conecta pessoas que são apaixonadas pelas mesmas coisas. Da mesma forma que as pessoas que usam o Facebook estão felizes em se conectar com amigos de quem gostam, as que usam o Pinterest estão animadas para encontrar pessoas com gostos similares aos seus", resume Ben Silbermann, um dos cofundadores da rede social, ao TechCrunch.

Esses gostos são expressos na forma dos murais, batizados por cada usuário à sua maneira - como os álbuns em outras redes sociais. Mas o destaque do Pinterest está no modo como as imagens são exibidas. O site abandona o modelo cronológico usado por Facebook, Twitter e Blogger, entre outros, em que a atualização é a primeira de uma lista de novidades. No Pinterest, as imagens são dispostas em uma "grelha", com colunas em que miniaturas das fotos e suas legendas aparecem de forma assimétrica em um layout simples e limpo.

O nome Pinterest une as palavras "pin", tachinha (do mural), e "interesting", interessante. As imagens são penduradas em murais que podem ser particulares (só o dono insere mais fotos) ou coletivas, em que seus seguidores também podem contribuir - ótimo para planejar viagens ou receber sugestões para um casamento, por exemplo. É possível curtir, comentar e até usar fotos de outros usuário em seu próprio mural com um único clique, usando o link "repin" (rependurar). Veja como criar murais e pendurar fotos na galeria de imagens que está na aba desta matéria.

"Como se diz, uma imagem vale mais que mil palavras, e esse é provavelmente o segredo da plataforma", afirma Ben Hutchins, um dos usuários da rede. "É clean, faz sentido e é fácil de usar, além do mais se você usa o site ou o aplicativo no smartphone a integração, a experiência e a consistência de abordagem são incomparáveis", avalia.

Mas nem todos os que testaram o site se "apaixonaram" desta forma. Scott Kiekbusch reclama de problemas com o botão "pin it" e de falhas de carregamento no site, que o usuário associa ao crescimento brutal de acessos. Jill Smokler e Jessica, outras duas pessoas cadastradas no Pinterest, falam sobre um certo tom de utopia das imagens postadas. "Ver fotos de lugares maravilhosos não me faz sentir relaxada, me faz sentir amarga", comenta Jill, em referência aos álbuns sobre destinos turísticos. "Meu corpo não parece nem nunca vai parecer com os das fotos 'motivacionais' do Pinterest", acrescenta Jessica. "Citações inpiradores me deixam louca", completa Jill, sobre o hábito de postar imagens com frases na rede social - há até um site que cria as fotos a partir dos textos.

A rede das mulheres

Sim, o Pinterest é apontado como a rede social dominada pelas mulheres. Segundo o New York Times, a equipe da rede social estima em 80% o número de usuárias do sexo feminino - o Wall Street Journal, citando a comScore, fala em 68%.

E elas seriam, de fato, as 'musas inspiradoras' da rede social. De acordo com Brian Cohen, primeiro investidor do Pinterest, ao Mashable, a Cold Brew Labs, criadora da rede social, começou os negócios com um aplicativo chamado Tote, que servia para as mulheres 'guardarem' links para ver depois - roupas, acessórios, etc. Silbermann e sua equipe notaram que as usuárias tentavam organizar os itens usando tags, e o aplicativo ganhou, por isso, uma ferramenta para organizar os artigos por categoria. "Aquela funcionalidade se tornou muito útil, e foi uma encarnação inicial do Pinterest", completa Cohen.

O público do site também é mais maduro e tem renda mais alta. Combinando os dados de estudos da comScore, Shareaholic e do TechCrunch, a Modea descobriu que a maioria dos usuários do Pinterest tem entre 25 e 34 anos, somando 27,4% do total. Os adultos entre 35 e 44 anos representam outros 22,1%, e os que têm até 54 anos correspondem a 17,9%. Os jovens de entre 18 e 24 anos são 17,3% do público, e o apelo da rede junto aos adolescentes é consideravelmente menor: apenas 4,1% dos usuários estão na faixa etária. Metade dos membros do Pinterest tem filhos, e mais de um quarto deles tem renda mensal superior a US$ 8,3 mil.

Motivos do sucesso
O New York Times credita o sucesso do Pinterest, entre outros fatores, ao propósito do usuário com seus murais: eles são para si, são seus interesses, memórias, desejos. Se mais alguém os acha interessantes, é consequência, mas o objetivo inicial não é compartilhar e receber 'curtir' ou 'RT', como no Facebook ou Twitter, avalia o jornal americano.

Em entrevista ao NYT, Silbermann conta que, quando criança, colecionava selos e besouros, e que o hábito de colecionar coisas é universal. "É como quando você visita um amigo, você sempre se interessa por ver o que ele tem na estante de livros", compara. "Por trás do Pinterest está a ideia de que se fosse possível disponibilizar online essas coleções ou estantes, as pessoas teriam vontade de fazê-lo", continua.

Ao ReadWriteWeb, o consultor do Vale do Silício Semil Shah opina que o grande diferencial do Pinterest é a forma como viabiliza ao usuário descobrir novos conteúdos, o que na sua opinião é a tendência do futuro. Shah argumenta que hoje as buscas são a base da navegação, mas que para fazer pesquisas é preciso saber o que se quer encontrar. A descoberta, por outro lado, permitiria contato com materiais inesperados e interessantes.

Influencia a visibilidade crescente do site, também, a opção de postar no Facebook (ou Twitter) as novas fotos penduradas nos murais. De acordo com o AppData, dos 10,4 milhões de usuários do Pinterest, 9 milhões se conectam usando o login do Facebook, sendo que 2 milhões destes entram todos os dias na rede social. Além dessa possibilidade, o aplicativo para iPhone (http://bit.ly/yr43wh), avaliado pelo NYT como 'bom', e uma caixa de buscas que permite encontrar imagens de assuntos específicos colaboram para a expansão do site.

O tráfego do site de murais de imagens deve aumentar, ainda, com a possível API, que segundo o Business Insider deve chegar em breve. Ela permitira a desenvolvedores criar outras formas de uso para o Pinterest - além de experimentar com modos de capitalizar a rede social.

Os números, afinal
Segundo o Nielsen, em fevereiro deste ano o Pinterest somou 16,1 milhões de pageviews. O que parece pouco quando comparado ao Facebook e seus 845 milhões de usuários registrados, na realidade tem uma grande expressão. A comScore apurou que os usuários do Pinterest passaram em média 98 minutos no site em janeiro - só Facebook, a maior rede social do mundo, e Tumblr têm números mais altos.

Além disso, o site já gera mais tráfego de redicionamento - quando o usuário clica em um link e vai para outra página - do que o Twitter, segundo uma pesquisa da Shareaholic com mais de 200 mil páginas. Esse volume tem atraído cada vez mais empresas, que querem aproveitar a quantidade de acessos e também buscam engajar com o público crescente da rede. O WSJ e o Terra estão entre as empresas com contas no Pinterest - acesse em pinterest.com/terranoticias.

Dados obtidos pela empresa de métricas RJMetrics teriam observado que 80% das imagens penduradas foram, na realidade, rependuradas. O volume, por um lado, é um forte sinal do engajamento dos usuários, na avaliação da empresa, mas por outro pode demonstrar repetição de conteúdo (como reportou o Business Insider), o que poderia ser a razão de outra estatística. Os novos usuários são de duas a três menos ativos do que os membros que se juntaram à comunidade nos primeiros meses de sua existência, segundo a RJMetrics.

O lado negativo
Além de um possível desgaste dos usuários iniciais, o crescimento começa a apresentar outros lados negativos. O ReadWriteWeb cita o exemplo de golpe em que uma imagem fazia as vezes de "cartão de presente" (falso), associado pelos golpistas (scammers) a uma rede internacional de cafeterias. A imagem do mural ofereceria cafés grátis aos usuários, que quando clicavam sobre ela eram direcionados a uma página que pedia para rependurarem outras fotos (para participar da promoção) e em seguida os direcionava para um site com código malicioso.

Outra questão enfrentada pelo site é a pornografia. O Business Insider revelou que alguns usuários têm postado imagens eróticas, o que é contra os termos de uso da rede social. Mais do que uma possível ofensa tomada pelos usuários, a presença dessas fotos - que continuam penduradas nos murais, segundo o site, por uma falta de mecanismos de identificação misturada à confiança em uma comunidade que autorregula em geral de forma eficiente - poderia em um futuro próximo afastar anunciantes, que não gostariam de ver suas marcas associadas a conteúdos adultos.

À parte os problemas causados por agentes externos, o Pinterest teria ainda alguns passos a dar. Um dos mais mencionados por especialistas é encontrar um modo de garantir receita. Alguns sugerem que a empresa deveria abrir capital na bolsa imediatamente, enquanto outros argumentam a favor da venda para gigantes como o Google.

A interface, apesar de exaltada pela simplicidade, poderia melhorar o gerenciamento dos seguidores, na opinião do ReadWriteWeb. O site também sugere que o Pinterest crie uma forma de seguir um resultado de busca, em acréscimo à opção já oferecida de seguir pessoas e murais.

Fonte e propriedade intelectual
A propriedade intelectual também tem sido uma pedra no sapato do Pinterest. O site tem uma ferramenta automática que garante que seja citada a fonte original de uma imagem capturada pelo botão "pin it" ("pendure esta imagem") - 80% do total, segundo a Modea. Mas o mecanismo não impediu que fotógrafos e blogueiros desertassem a rede social porque seus trabalhos protegidos por direitos autorais (copyright) estavam sendo compartilhados sem autorização.

O advogado nova-iorquino Itai Maytal, especialista em mídia e propriedade intelectual, explicou ao Business Insider que o fato de que todas as imagens da rede social serem comentadas - a ferramenta obriga o usuário a fazê-lo - pode ser uma saída de emergência, já que a lei de fair use enquadra comentários e críticas como "uso justo" de materiais com copyright. Mas isso não seria o bastante, diz o jurista, já que a justiça poderia questionar se as legendas das fotos são realmente comentários, na acepção da lei.

O Pinterest, para lidar com a questão , criou um código que permite bloquear o acesso da rede social às imagens - quando o usuário tenta usar o "pin it", aparece a mensagem informando que isso não é possível. O Flickr foi um dos primeiros a adotar o bloqueio.

A empresa
A Cold Brew Labs, dona do Pinterest, foi fundada por Ben Silbermann, ex-Google da divisão de anúncios, e Paul Sciarra, analista de investimento de risco. Hoje, a empresa tem 21 pessoas, de acordo com o site oficial, e em 2011 ganhou o prêmio de Melhor Startup do Ano do site TechCrunch. Em duas rodadas de investimento, levantou US$ 37,5 milhões e atualmente, segundo o Venture Beat, estaria avaliada em US$ 200 milhões. Nomes como Andreessen Horowitz e MaxLavchin estão entre os investidores do Pinterest.

Terra