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Tecnologia

 
 

Pista de dança cinética energiza boate holandesa

08 de novembro de 2008 19h02

Os movimentos sobre a pista geram eletricidade que é usada na iluminação. Foto: The New York Times

Os movimentos sobre a pista geram eletricidade que é usada na iluminação
Foto: The New York Times

Se você sentiu uma certa eletricidade no ar do novo e moderno clube Watt, você pode ter razão: a Watt possui um novo tipo de pista de dança que coleta a energia gerada por pulos e giros e a transforma em eletricidade. Ela é uma das poucas pistas geradoras de energia no mundo, a maioria ainda em fase experimental.

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É dessa engenharia humana que a Watt parcialmente se alimenta: quanto melhor a música, mais as pessoas dançam, mais eletricidade sai do chão.

Na Watt, que se descreve como a primeira boate sustentável do mundo, essa eletricidade é usada para o show de luzes e para a iluminação ao redor da pista. "Para este primeiro clube, pensamos que seria útil que as pessoas pudessem ver os resultados," disse Michel Smit, consultor do projeto. "Mas se o próximo proprietário quiser usar a eletricidade para ligar sua torradeira, também poderá fazê-lo."

A Watt é em grande parte criação da Sustainable Dance Club (Boate Sustentável), uma peculiar companhia formada no ano passado por um grupo ecológico de inventores, engenheiros e investidores holandeses liderado por Smit. A casa demorou mais de um ano para ficar pronta e possui amplo espaço, não apenas com a pista de dança sustentável, mas também banheiros que funcionam com água pluvial e bares de baixa produção de resíduos (tudo é reciclado). Seu aquecimento é produzido pelos amplificadores das bandas e outros equipamentos musicais.

"Nossa concepção parte de que existe energia suficiente neste mundo, só precisamos usá-la da forma correta," afirmou Smit. "Se você tem uma boate lotada, terá bastante energia por lá para ser utilizada."

Casas noturnas ecológicas obviamente não vão resolver o problema do aumento da emissão de gases do efeito estufa que, segundo os cientistas, são os responsáveis pelo aquecimento global. Com seus amplificadores e luzes estroboscópicas, essas casas são sugadoras vorazes de energia, com poucas chances de atingirem a neutralidade de carbono. (Apesar das luzes dos clubes usarem lâmpadas de baixo consumo.)

Mesmo assim, a energia produzida por uma pessoa dançando fica em torno de 20 watts, o que significa que duas podem acender uma lâmpada, descobriram os consultores científicos do clube Watt. Aryan Tielemen, o proprietário da casa, espera que sua pista de dança sustentável produza cerca de 10% da eletricidade do clube. Segundo ele, inovações ecológicas no local reduzirão o uso de energia em cerca de 50% e da água em 30% em relação ao clube anteriormente instalado no espaço.

Segundo as Nações Unidas, o mundo precisa reduzir entre 25% a 40% a emissão dos gases do efeito estufa até 2020 para evitar um aquecimento perigoso. Parte dessa redução pode vir de grandes mudanças, como o fechamento de usinas de carvão e melhor proteção às florestas tropicais. Mas especialistas em sustentabilidade enfatizam que muito do progresso pode vir de atividades do cotidiano realizadas de formas mais eficientes e verdes.

"O conceito é que você se diverte como sempre fez, mas por aqui isso trará benefícios para a Terra," disse Smit.

A Watt é o equivalente das casas noturnas do carro híbrido.

Os consumidores parecem simpatizar com a idéia. "Claro, eu me preocupo com o meio ambiente e estou feliz em contribuir dessa forma," disse o estudante Bas Muller, saindo dos banheiros que contam com mictórios sem água e vasos abastecidos com água da chuva, armazenada em tanques visíveis que mostram quantos litros são usados por descarga.

O clube Watt, que tem capacidade para 1.400 pessoas, é parte conscientização, parte experiência ambiental e em grande parte entretenimento puro e simples.

Tielemen gastou cerca de US$ 257 mil na pista, um investimento que não se pagará com a economia de energia, afirmou, já que, como a primeira geração da tecnologia, ela ainda é ineficiente.

"Antes de tudo, queria fazer algo pelo planeta," disse Tielemen, que decidiu construir um clube completamente sustentável após assistir à apresentação do Sustainable Dance Club sobre a pista de dança que funciona por meio de uma tecnologia chamada piezoeletricidade.

Mas ele acrescentou: "ficarei bem feliz com qualquer energia que o piso produzir para a casa. E, como homem de negócios, sei que isso chama atenção."

Talvez seja natural que esse conceito tenha surgido em Roterdã, uma ousada cidade portuária com uma cena noturna pulsante e com jovens residentes extremamente interessados no controle do aquecimento global. Localizada ao nível do mar, Roterdã será uma das primeiras cidades a desaparecer caso o gelo global derreta e o nível dos oceanos suba de forma significativa. Além disso, a Holanda - que reclamou extensões de terra substanciais de seu território marinho - tem ganhado reputação em inovações ambientais.

Em 2006, um grupo local de arquitetos, acadêmicos e engenheiros foi convidado pela Doell Architet's e Enviu, um grupo de pesquisas ambientais, para discutir a idéia de um eco-clube. Eles acabaram criando a companhia Sustainable Dance Club para desenvolver o projeto de um espaço de festas verde, que incluísse tanto o que chamam de "espetáculos" (elementos como os bares sem desperdício, que os consumidores poderiam ver), quanto elementos escondidos, como a promessa de considerar a sustentabilidade durante a compra.

O "espetáculo" mais espetacular é, obviamente, a pista de dança. Ela se aproveita do fenômeno conhecido como efeito piezoelétrico: certos materiais, quando pressionados, desenvolvem uma carga e produzem eletricidade. Quando as pessoas estão dançando, a pista de dança sustentável recua cerca de um centímetro, comprimindo células contendo materiais piezoelétricos.

Em teoria, os pisos piezoelétricos podem captar a energia de qualquer passo ou salto e a tornar elétrica, mas é um processo caro e ineficiente, que converte apenas uma fração da energia humana em potência utilizável. No entanto, a tecnologia está evoluindo e a primeira pista de dança sustentável do mundo está sendo reprogramada e ajustada eletronicamente para melhorar seu desempenho.

A companhia espera vender a tecnologia para outros clubes e oferece certificação verde para aqueles que reduzirem em 30% suas emissões. Ela recebe uma consulta por dia de casas noturnas interessadas no piso. "Você pode usá-lo em qualquer lugar que haja movimento, mas a questão é quando o piso se torna eficiente em termos de custo?" afirmou Smit, observando que a companhia trabalha para desenvolver materiais mais baratos e eficientes.

Calçadas geradoras de energia? Plataformas de metrô? Recentemente, a companhia identificou a próxima fronteira: ginásios e academias.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
The New York Times