0

Em escola do RS, alunos aprendem robótica desde os 6 anos

8 nov 2011
10h41
atualizado às 10h43
  • separator
  • comentários
Ismael Cardoso

A robótica saiu das fábricas, das universidades e dos centros de pesquisa para dividir espaço com a matemática e a física nas salas de aula. Além de estimular o gosto pela tecnologia e pela inovação, o uso da robótica ajuda alunos do ensino fundamental e médio a desenvolverem a cidadania e a capacidade de trabalhar em equipe.

Alunos do colégio Província de São Pedro, de Porto Alegre, participam de competição nos Estados Unidos
Alunos do colégio Província de São Pedro, de Porto Alegre, participam de competição nos Estados Unidos
Foto: Divulgação

No colégio Província de São Pedro, em Porto Alegre, que no ano passado venceu um dos mais importantes campeonatos de robótica do mundo, o First ( For Inspiration and Recognition of Science and Technology ), nos Estados Unidos, os alunos do ensino médio podem escolher em que área querem se especializar: programação, elétrica, mecânica e até animação digital. Mas o contato com a robótica começa ainda mais cedo, no ensino fundamental, onde os pequenos participam de atividades para desenvolver a motricidade e trabalhar com ferramentas, construindo máquinas e carros desde a primeira série, onde a maioria dos alunos estão com seis anos de idade.

"Nos anos seguintes eles começam a construir um brinquedo que se movimenta, minirrobôs, aprendem noções de eletricidade desmontando uma lanterna, aprendendo como a energia se propaga, e começam a programar já na quinta série", afirma o engenheiro Vitor Barbieri, coordenador do projeto de robótica da escola. Segundo ele, as atividades de robótica, que não são obrigatórias e acontecem no turno inverso às aulas, movimentam 12% dos alunos da escola, com 50 deles participando ativamente do grupo que compete nos Estados Unidos. "A robótica é um agente incentivador do conhecimento, aguça a curiosidade", avalia.

Para o estudante do 2º ano do ensino médio Ettore Arpini, 16 anos, que participa do projeto desde o ensino fundamental, o objetivo é muito maior do que aprender noções de tecnologia e robótica. "A gente aprende a trabalhar em equipe. Fica o ano inteiro trabalhando em um projeto, depois temos seis semanas pra montar o robô e participar da competição. Tu moves toda tua vida por aquilo, para ir lá e competir, e acaba aprendendo a trabalhar em equipe e todas as dificuldades que isso traz, e também com as dificuldades de perder a competição", afirma.

Para Barbieri, o sucesso do projeto pode ser medido pelo número de ex-alunos que retornam à escola já na faculdade para disseminar o seu conhecimento aos mais novos. "Há uma interação entre os alunos, os que têm um conhecimento maior repassam o conhecimento. O importante é que todos se envolvam. Quem vai ganhar não é o melhor, mas sim a melhor equipe, a que vai solucionar os problemas propostos", diz. Para ele, ter contato com esse tipo de atividade ajuda os alunos a decidirem com mais ferramentas a carreira que querem seguir. "O problema do adolescente hoje é a necessidade de decisão da carreira muito cedo, sem ter muito contato com essas áreas.

Dificuldades e oportunidades
A falta de matérias-primas específicas no País para a construção dos robôs é encarado como uma oportunidade pelos alunos, não como uma dificuldade. "Já que aqui não tem muitas peças de robôs para vender, ao contrario dos Estados Unidos, a gente tem que construir, o que nos dá muita autonomia. Por isso ganhamos muitos prêmios de inovação, já que a gente mesmo tem que criar e desenhar um robô em que cada peça se comunique melhor entre si", conta o estudante. "Nos dividimos em quatro ou cinco grupos que pensam em como montar o robô e solucionar o problema que o jogo dá. Depois pegamos as ideias, discutimos com todo o grupo e vemos quais são as melhores. No final acaba ficando um robô muito único", afirma.

Uma dificuldade para que mais iniciativas como essa se espalhem é conseguir apoio para o projeto. Segundo Barbieri, a escola tem parceiros importantes, mas a escola tem que investir para que as coisas aconteçam. "Esse projeto exige a participação da comunidade. As empresas precisam participar, pois estamos preparando os jovens para trabalharem na indústria ou serem empreendores. Infelizmente, no Brasil a gente não tem essa cultura, mas estamos emergindo. De repente as nossas empresas vão vilslumbrar que é importante investir mais em educação, para que o País possa crescer mais", afirma.

Uma das empresas que investe em iniciativas desse tipo é a SAP, fabricante de softwares de gestão que, além de patrocinar o Lego League, um dos campeonatos organizados pela First, libera funcionários do SAP Labs Latin American - o laboratório de inovação da empresa - para serem mentores dos alunos da Escola Municipal José Grimberg, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Os cinco voluntários da empresa passam o seu conhecimento profissional para ajudar os estudantes desde a formação da equipe até a apresentação do projeto na competição.

"Nós ajudamos no trabalho em equipe, identificamos os perfis para avaliar o aluno tanto em sala de aula quanto no projeto. Temos tranferido muito conhecimento pessoal, cada um dos voluntários pode apoiar com um pouco do que já passou profissionalmente", afirma Ricardo Ribeiro Cruz, gerente de Suporte a Parceiros na América da Latina da SAP e manager sponsor do projeto.

Segundo ele, o objetivo não é ajudar os alunos a montarem os robôs, iniciativa que deve partir dos próprios estudantes, mas ajudar na gestão do projeto. "Eles é que devem propor soluções, mas a gente deve instigar. O intuito não é construir o robô com eles, mas dar suporte para que entendam o projeto como um todo, que envolve não só a construção do robô, mas conhecimento científico, a tentativa e erro, a tecnologia e a inovação e a competição sadia", diz.

"O que eu tenho visto, tanto em escolas particulares quanto em escolas públicas, é que o tema é recorrente. Vários colégios estão propondo isso como uma atividade para os alunos. Eu acho que inevitavelmente deve se tornar uma disciplina. Os pais têm se envolvido muito nesse tipo de projeto, e eu noto que os colégios tem se envolvido com o tema, mais pela metodologia científica, pelo trabalho em equipe, do que pelo robô em si. A tecnologia é uma vantagem, mas a possibilidade de trabalhar em equiope, de inovar, é muito maior", avalia o executivo da SAP.

Para o coordenador do projeto de robótica do Província de São Pedro, o trabalho dos alunos traz enormes vantagens. "Os nossos alunos entram na universidade com um conhecimento superior, com um conceito que muitos só vão atingir no fim do curso. Além disso, os alunos menores desenvolvem o conhecimento, e projeto mostra na prática as necessidades dos conceitos que eles vão aprender em matemática, física e química", afirma.

Ettore, que vai prestar vestibular para engenharia civil no ano que vem, já vislumbra as vantagens para quando for entrar no mercado de trabalho. "É um diferencial que mostra que eu gosto e me empenho, e também é uma coisa que automaticamente vem muito relacionado com espírito de equipe e solidariedade, porque a gente ajuda muito um ao outro", afirma."É um projeto que abre teus horizontes, expande muito. Nossa escola foi a primeira fora dos Estados Unidos e Canadá a participar, e acabou nos ensinando uma nova cultura, como a dos Estados Unidos, que é mais poderosa em tecnologia e dá muito valor à inovação em comparação com o que temos aqui", avalia o estudante.

Terra

compartilhe

comente

  • comentários
publicidade
publicidade