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Softwares podem ajudar a evitar tragédias como a da boate Kiss

1 fev 2013
09h35
atualizado às 09h35
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Quase uma semana após o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), é consenso que a tragédia poderia ser, se não totalmente evitada, pelo menos minimizada. E um caminho pode ser o uso de softwares que, como nesses dois exemplos, são capazes de projetar cenários virtuais para casos de emergência. Dois desses programas estão em estudo no Brasil.

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Um foi desenvolvido inteiramente pelo Laboratório de Simulação de Humanos Virtuais da Faculdade de Informática da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUC-RS), coordenado pela professora Soraia Raupp Musse. Fruto de um trabalho iniciado em 2009, o chamado CrowdSim simula em 3D a evacuação de locais onde acontecem grandes aglomerações de pessoas. São levados em conta, além da arquitetura local, aspectos que vão desde o perfil das pessoas presentes até suas eventuais reações diante de uma situação de pânico.

"O software não evita uma tragédia. Mas ele apresenta cálculos e cenários ao responsável por um estabelecimento para mostrar que, num quadro de emergência, a estrutura disponível, bem como a forma como está disposta, pode não ser suficiente", diz Vinícius Cassol, doutorando pela PUC-RS e um dos integrantes da equipe do projeto.

O pesquisador explica que as simulações apresentam um resultado realista, a baixo custo e sem riscos. E exemplifica dizendo que pode-se simular desde um show voltado para um público infantil, em que a maioria dos adultos não conhece o local e é responsável por várias crianças, até uma partida de futebol, onde grande parte dos presentes sabe onde estão as saídas.

O software já foi testado no Engenhão, no Rio de Janeiro, e os resultados foram positivos. O programa constatou que o estádio, administrado pelo Botafogo, pode ser evacuado em 6,5 minutos em condições normais e com 46 mil pessoas presentes. Numa das simulações, ainda foi avaliada a retirada do público com a interdição de uma das quatro saídas, e o tempo de retirada foi de sete minutos.

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Treinamento é fundamental
Situações de emergência também são o foco do software Fire Dinamic Simulator (FDS), criado nos Estados Unidos e atualmente em estudo na Faculdade de Engenharia Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O programa consegue reproduzir as prováveis rotas de propagação das chamas num determinado ambiente e simular a dissipação da fumaça – a maioria das mais de 230 mortes na boate Kiss teria sido causada por asfixiamento.

A partir dos dados obtidos e da montagem dos possíveis cenários, o software facilita a definição de medidas estratégicas de segurança, como o posicionamento das portas, a sinalização ao público e a dimensão das rotas de saída e entrada no local. "A função do cientista é usar tais ferramentas para minimizar ou mesmo evitar tragédias como esta no futuro. Se a boate tivesse o número de portas e os procedimentos adequados, o número de vítimas seria muito menor, se é que haveria alguma", explica no site da Unicamp o professor Sávio Vianna, que vem trabalhando com o software.

Os dois especialistas dizem que é fundamental também o treinamento adequado, em consonância com as medidas tomadas, dos orientadores e responsáveis pela segurança para casos de emergência – segundo testemunhas, funcionários da boate em Santa Maria teriam obstruído a saída de pessoas para evitar que não pagassem a conta.

 

Incêndio na Boate Kiss
Um incêndio de grandes proporções deixou mais de 230 mortos na madrugada do dia 27 de janeiro, em Santa Maria (RS). O incidente, que começou por volta das 2h30, ocorreu na Boate Kiss, na rua dos Andradas, no centro da cidade. O Corpo de Bombeiros acredita que o fogo tenha iniciado com um artefato pirotécnico lançado por um integrante da banda que fazia show na festa universitária.
 
Segundo um segurança que trabalhava no local, muitas pessoas foram pisoteadas. "Na hora que o fogo começou, foi um desespero para tentar sair pela única porta de entrada e saída da boate, e muita gente foi pisoteada. Todos quiseram sair ao mesmo tempo e muita gente morreu tentando sair", contou. O local foi interditado e os corpos foram levados ao Centro Desportivo Municipal, onde centenas de pessoas se reuniam em busca de informações.
 
A prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias e anunciou a contratação imediata de psicólogos e psiquiatras para acompanhar as famílias das vítimas. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde se reuniu com o governador Tarso Genro e parentes dos mortos. A tragédia gerou uma onda de solidariedade tanto no Brasil quanto no exterior.
 
Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.
 
Na segunda-feira, quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Sphor, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffman, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investigava documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergiam sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.
 
A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.
 

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

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